Conflitos, cartão vermelho e 'mão de Deus': entenda por que a vitória da Argentina sobre a Inglaterra tem gosto de revanche histórica

Jogadores comemoraram vitória com faixa sobre as Ilhas Malvinas, e isso diz muito sobre a importância da partida para a Argentina

16 jul 2026 - 04h59
Jogadores da Argentina seguraram faixa em referência a Guerra das Malvinas após vencerem a Inglaterra na semifinal da Copa do Mundo, na quarta-feira, 15
Jogadores da Argentina seguraram faixa em referência a Guerra das Malvinas após vencerem a Inglaterra na semifinal da Copa do Mundo, na quarta-feira, 15
Foto: Jose Breton/Pics Action/NurPhoto / Getty Images

O que poderia ter sido uma derrota amarga, se tornou em uma revanche histórica para a Argentina, que venceu a Inglaterra de virada em partida apertada pela semifinal da Copa do Mundo. Por meio de músicas e posicionamentos, os argentinos deixaram claro que vencer os ingleses teria um significado muito maior do que é possível caber nos gramados - e a faixa com a escrita “as Malvinas são argentinas”, levantada pelos jogadores após o fim do jogo, tem tudo a ver com isso.

Para além do futebol, a Inglaterra deixou uma série de marcas no povo argentino que vão de tentativas de invasões a Buenos Aires a uma guerra com mais de 600 militares argentinos mortos --sendo a maior parte jovens soldados sem experiência. Ao Terra, Ariel Palacios, correspondente da GloboNews em Buenos Aires para a América Latina e autor do livro Futebol Lado B, explica mais sobre esse passado, e como ele se mantém vivo no imaginário popular argentino. 

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Tentativa de invasão (duas vezes)

Aconteceram duas tentativas de invasões inglesas a Buenos Aires --e os ingleses foram derrotados pela população argentina. Isso foi há muito tempo, em 1806 e 1807, quando a Argentina ainda era uma colônia da Espanha e não havia uma rixa entre os países.

No caso, a Espanha era aliada de Napoleão Bonaparte, militar francês que estava em guerra com a Inglaterra. Nisso, considerando Buenos Aires como um ponto fraco do império espanhol, ingleses tentaram invadir o território.

“E aí os ingleses chegaram, desembarcaram e quebraram a cara. Foram expulsos pelo povo”, conta Palacios.

Expulsão e criação do cartão vermelho

No futebol, há um ranço antigo da Argentina com a Inglaterra --em episódio que culminou, inclusive, na criação dos cartões vermelho e amarelo do futebol.

A confusão aconteceu na Copa do Mundo de 1966, sediada na Inglaterra. Em um jogo de quartas de final entre Inglaterra e Argentina, até que o capitão da seleção argentina, Antonio Rattín, se desentendeu com o árbitro da partida, que era o alemão Rudolf Kreitlein.

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O problema é que a comunicação entre eles, com cada um falando uma língua, não fluiu. Rattin chutou uma bandeirinha inglesa, ingleses chamaram argentinos de animais e tudo virou uma confusão generalizada.

“Rattin foi expulso. Só que, naquela época, não existia cartão vermelho e cartão amarelo”, explica Palácios. Foi aí que, para resolver a barreira linguística, a Fifa criou o sistema de punição universal que não depende de idiomas: os cartões. 

Após jogo duro contra Inglaterra, em meio a mágoas históricas, seleção argentina vai a final da Copa do Mundo de 2026
Foto: Shaun Botterill/Getty Images

Guerra das Malvinas

Essa é a principal ferida do povo argentino com a Inglaterra. A guerra, em si, aconteceu em 1982, mas é preciso voltar um pouco mais no tempo para entender seus impactos.

A história é antiga, começando com o Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494. No caso, o arquipélago localizado no Atlântico Sul estava na "parte do Mundo" da Espanha. Mesmo assim, o local ainda não tinha sido descoberto, e foi encontrado por holandeses, ingleses e, também, franceses. Quando os espanhóis souberam que tinham pessoas morando na ilha que era seu território, tiraram todos de lá. Os britânicos, expulsos à força, fizeram a promessa de que voltariam. 

Até que, em meio à onda de independências na América Latina, com a Espanha enfraquecida em batalhas com a França de Napoleão, as Ilhas Malvinas foram abandonadas, com os militares que protegiam o arquipélago sendo convocados para batalhar. 

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Após um período de "terra sem lei", por volta de 1820, a Argentina --já independente da colonização espanhola-- entra na história. Eles iniciaram um processo de se apossar das Ilhas Malvinas, até assumirem o controle total. O sonho, porém, durou pouco: em 1833 os ingleses, cumprindo a promessa de que um dia voltariam ao território, ocuparam a ilha e retiraram o povo argentino para instalar seus próprios colonos. E assim foi por anos.

Infográfico do mapa da região das Ilhas Malvinas (em inglês Falkland Islands), situadas ao largo da costa da América do Sul, mais ou menos à latitude de Río Gallegos. Em 1982, a Inglaterra e Argentina travam a Guerra das Malvinas pela posse do território. Mesmo com a vitória inglesa no conflito, o governo argentino mantém a reivindicação de soberania.
Foto: ARTE ESTADO / Estadão

No fim, a retomada do controle das ilhas apareceu como uma forma de tentar solucionar a situação socioeconômica que a Argentina vivia. No caso, a Argentina entrou em uma ditadura militar em 1976 e passava por momentos difíceis por causa da inflação e denúncias de desaparecidos por causa do regime. Nisso, na tentativa de dar uma "volta por cima", a ditadura argentina tentou pegar as ilhas de volta, acabou se envolvendo em uma guerra e perdeu. 

“O ditador Leopoldo Fortunato Galtieri decidiu invadir as ilhas achando que iam vencer fácil, que não ia ter problema nenhum. Na Inglaterra estava Margaret Thatcher. No clássico brucutu machista latino-americano dos anos 80, acharam que uma mulher não poderiam contra eles. E quebraram a cara”, explicou Palacios.

Foram pouco mais de 70 dias de guerra que deixaram 907 pessoas mortas --sendo 649 militares argentinos, 255 militares britânicos e 3 civis moradores das ilhas. O que mais sensibiliza os argentinos nessa história é o fato de que o exército argentino, que foi derrotado, era formado por jovens sem experiência. A dor das cartas enviadas pelos soldados às suas mães enquanto estavam nas trincheiras ainda doem no povo argentino.

Após a guerra, em 1983, a ditadura argentina, que já estava enfraquecida, caiu.

Monumento ao soldado das Malvinas em Zapala, província de Neuquén, Argentina
Foto: Carolina Jaramillo/NurPhoto via Getty Images

‘Mão de Deus’

A história, então, volta para o futebol. Quatro anos após a Guerra das Malvinas, na Copa do Mundo do México, em 1986, a Argentina vence a Inglaterra nas quartas de final. A guerra ainda era uma ferida aberta e latente para os argentinos. A vitória em campo foi como uma vingança do povo. 

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Esse Mundial foi glorioso para os argentinos. Foi nessa partida que Diego Maradona fez o gol conhecido como "mão de Deus" -- onde ele bateu na bola com o punho, e o gol foi validado pelo juiz, que não notou a mão sendo usada no lance. O segundo gol dessa partida também foi de Maradona, e é reconhecido como o "gol do século", um dos mais bonitos da história das Copas. Neste Mundial, os hermanos conquistaram o bicampeonato.

Isso já faz 40 anos. E, agora, na quarta-feira, 15, a Argentina venceu a Inglaterra novamente. “Tem uma série de simbolismos. Não foi a final, mas o clima foi de final de Copa do Mundo”, explica Palácios. Para ele, mesmo que a Argentina perca para a Espanha e não leve o título do Mundial neste ano, a seleção e o imaginário coletivo argentino estará feliz por ter vencido a Inglaterra novamente em campo.

Homem segura uma placa com os dizeres "As Malvinas eram, são e serão argentinas" durante um protesto, em Buenos Aires, em 2 de abril de 2025
Foto: Matias Baglietto/GettyImages
Fonte: Portal Terra
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