O que poderia ter sido uma derrota amarga, se tornou em uma revanche histórica para a Argentina, que venceu a Inglaterra de virada em partida apertada pela semifinal da Copa do Mundo. Por meio de músicas e posicionamentos, os argentinos deixaram claro que vencer os ingleses teria um significado muito maior do que é possível caber nos gramados - e a faixa com a escrita “as Malvinas são argentinas”, levantada pelos jogadores após o fim do jogo, tem tudo a ver com isso.
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Para além do futebol, a Inglaterra deixou uma série de marcas no povo argentino que vão de tentativas de invasões a Buenos Aires a uma guerra com mais de 600 militares argentinos mortos --sendo a maior parte jovens soldados sem experiência. Ao Terra, Ariel Palacios, correspondente da GloboNews em Buenos Aires para a América Latina e autor do livro Futebol Lado B, explica mais sobre esse passado, e como ele se mantém vivo no imaginário popular argentino.
Tentativa de invasão (duas vezes)
Aconteceram duas tentativas de invasões inglesas a Buenos Aires --e os ingleses foram derrotados pela população argentina. Isso foi há muito tempo, em 1806 e 1807, quando a Argentina ainda era uma colônia da Espanha e não havia uma rixa entre os países.
No caso, a Espanha era aliada de Napoleão Bonaparte, militar francês que estava em guerra com a Inglaterra. Nisso, considerando Buenos Aires como um ponto fraco do império espanhol, ingleses tentaram invadir o território.
“E aí os ingleses chegaram, desembarcaram e quebraram a cara. Foram expulsos pelo povo”, conta Palacios.
Expulsão e criação do cartão vermelho
No futebol, há um ranço antigo da Argentina com a Inglaterra --em episódio que culminou, inclusive, na criação dos cartões vermelho e amarelo do futebol.
A confusão aconteceu na Copa do Mundo de 1966, sediada na Inglaterra. Em um jogo de quartas de final entre Inglaterra e Argentina, até que o capitão da seleção argentina, Antonio Rattín, se desentendeu com o árbitro da partida, que era o alemão Rudolf Kreitlein.
O problema é que a comunicação entre eles, com cada um falando uma língua, não fluiu. Rattin chutou uma bandeirinha inglesa, ingleses chamaram argentinos de animais e tudo virou uma confusão generalizada.
“Rattin foi expulso. Só que, naquela época, não existia cartão vermelho e cartão amarelo”, explica Palácios. Foi aí que, para resolver a barreira linguística, a Fifa criou o sistema de punição universal que não depende de idiomas: os cartões.
Guerra das Malvinas
Essa é a principal ferida do povo argentino com a Inglaterra. A guerra, em si, aconteceu em 1982, mas é preciso voltar um pouco mais no tempo para entender seus impactos.
A história é antiga, começando com o Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494. No caso, o arquipélago localizado no Atlântico Sul estava na "parte do Mundo" da Espanha. Mesmo assim, o local ainda não tinha sido descoberto, e foi encontrado por holandeses, ingleses e, também, franceses. Quando os espanhóis souberam que tinham pessoas morando na ilha que era seu território, tiraram todos de lá. Os britânicos, expulsos à força, fizeram a promessa de que voltariam.
Até que, em meio à onda de independências na América Latina, com a Espanha enfraquecida em batalhas com a França de Napoleão, as Ilhas Malvinas foram abandonadas, com os militares que protegiam o arquipélago sendo convocados para batalhar.
Após um período de "terra sem lei", por volta de 1820, a Argentina --já independente da colonização espanhola-- entra na história. Eles iniciaram um processo de se apossar das Ilhas Malvinas, até assumirem o controle total. O sonho, porém, durou pouco: em 1833 os ingleses, cumprindo a promessa de que um dia voltariam ao território, ocuparam a ilha e retiraram o povo argentino para instalar seus próprios colonos. E assim foi por anos.
No fim, a retomada do controle das ilhas apareceu como uma forma de tentar solucionar a situação socioeconômica que a Argentina vivia. No caso, a Argentina entrou em uma ditadura militar em 1976 e passava por momentos difíceis por causa da inflação e denúncias de desaparecidos por causa do regime. Nisso, na tentativa de dar uma "volta por cima", a ditadura argentina tentou pegar as ilhas de volta, acabou se envolvendo em uma guerra e perdeu.
“O ditador Leopoldo Fortunato Galtieri decidiu invadir as ilhas achando que iam vencer fácil, que não ia ter problema nenhum. Na Inglaterra estava Margaret Thatcher. No clássico brucutu machista latino-americano dos anos 80, acharam que uma mulher não poderiam contra eles. E quebraram a cara”, explicou Palacios.
Foram pouco mais de 70 dias de guerra que deixaram 907 pessoas mortas --sendo 649 militares argentinos, 255 militares britânicos e 3 civis moradores das ilhas. O que mais sensibiliza os argentinos nessa história é o fato de que o exército argentino, que foi derrotado, era formado por jovens sem experiência. A dor das cartas enviadas pelos soldados às suas mães enquanto estavam nas trincheiras ainda doem no povo argentino.
Após a guerra, em 1983, a ditadura argentina, que já estava enfraquecida, caiu.
‘Mão de Deus’
A história, então, volta para o futebol. Quatro anos após a Guerra das Malvinas, na Copa do Mundo do México, em 1986, a Argentina vence a Inglaterra nas quartas de final. A guerra ainda era uma ferida aberta e latente para os argentinos. A vitória em campo foi como uma vingança do povo.
Esse Mundial foi glorioso para os argentinos. Foi nessa partida que Diego Maradona fez o gol conhecido como "mão de Deus" -- onde ele bateu na bola com o punho, e o gol foi validado pelo juiz, que não notou a mão sendo usada no lance. O segundo gol dessa partida também foi de Maradona, e é reconhecido como o "gol do século", um dos mais bonitos da história das Copas. Neste Mundial, os hermanos conquistaram o bicampeonato.
Isso já faz 40 anos. E, agora, na quarta-feira, 15, a Argentina venceu a Inglaterra novamente. “Tem uma série de simbolismos. Não foi a final, mas o clima foi de final de Copa do Mundo”, explica Palácios. Para ele, mesmo que a Argentina perca para a Espanha e não leve o título do Mundial neste ano, a seleção e o imaginário coletivo argentino estará feliz por ter vencido a Inglaterra novamente em campo.