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'Pelas Malvinas, por Diego e pela última de Leo': por que disputa entre Argentina e Inglaterra vai muito além da vaga para a final da Copa

Países têm um passado que envolve disputa por território na década de 1980 e mágoas de mais de 40 anos -- para pelo menos um dos lados

15 jul 2026 - 04h59
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Em última vitória da Argentina na Copa do Mundo, torcedores entoaram cânticos como  'quem não pula é inglês', que fazem referência ao conflito histórico com a Inglaterra
Em última vitória da Argentina na Copa do Mundo, torcedores entoaram cânticos como 'quem não pula é inglês', que fazem referência ao conflito histórico com a Inglaterra
Foto: Michael Steele/Getty Images

A disputa entre Argentina e Inglaterra pela vaga na final da Copa do Mundo de 2026 tem um impacto emocional muito maior do que o apenas gerado pela paixão por futebol. Isso porque a partida, que acontece nesta quarta-feira, 15, resgata um conflito histórico entre os dois países que ocasionou na chamada Guerra das Malvinas. O conflito aconteceu há 44 anos, mas a memória segue viva --sobretudo para os argentinos, que fazem questão de relembrar as mágoas com ingleses até em suas músicas. 

A torcida dos ‘hermanos’ adotou a música La Cuarta Estrella (A Quarta Estrela, em tradução livre) como hino nas partidas da Copa do Mundo nos estádios norte-americanos, com letra que faz menção ao conflito bélico. “Pelas Malvinas, por Diego [Maradona] e pela última de Leo [Messi]”, diz um trecho da canção escrita pelo artista Palmito e com melodia inspirada em No Me Arrepiento de Este Amor, da cantora Gilda. 

No caso, Maradona é citado por conta da Copa do Mundo do México, de 1986. Esse Mundial foi glorioso para os argentinos. Não só por terem conquistado o bicampeonato, mas por terem derrotado a Inglaterra quatro anos após o Reino Unido ter vencido a Argentina em um conflito armado pela soberania das Ilhas Malvinas. A guerra ainda era uma ferida aberta para os argentinos, principalmente pela morte de muitos soldados jovens, e a vitória em campo foi como uma vingança do povo.

Foi nessa partida, nas quartas de final do Mundial, que Maradona fez o gol conhecido como "mão de Deus" -- onde ele bateu na bola com o punho, e o gol foi validado pelo juiz, que não notou a mão sendo usada no lance. O segundo gol dessa partida também foi de Maradona, e é reconhecido como o "gol do século", um dos mais bonitos da história das Copas. 

Essas lembranças não comovem apenas os torcedores argentinos, mas também por quem defende a seleção em campo. O meio campista Rodrigo De Paul, por exemplo, não fugiu do assunto ao mencionar a guerra em recente entrevista ao jornal Olé, por mais que tenha enfatizado que isso não deve motivar o ódio da torcida aos jogadores ingleses. 

“É uma partida de futebol. Ela tem um grande significado e traz muitas lembranças --pelo que Diego [Maradona] fez e pelo que aconteceu naquela época. As músicas que cantamos também têm muito a ver com nossos heróis das Malvinas; servem para honrar a memória deles. Mas precisamos entender que se trata de um jogo de futebol, e a questão das Malvinas deve ser discutida em outras esferas. O que aconteceu foi uma atrocidade, e sempre temos isso em mente. Mas nosso objetivo é vencer e chegar à final”, disse. 

As Ilhas Malvinas, localizadas no Oceano Atlântico Sul
As Ilhas Malvinas, localizadas no Oceano Atlântico Sul
Foto: Getty Images

Mas, afinal, o que motivou a Guerra das Malvinas?

A história é antiga, começando com o Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494. No caso, o arquipélago localizado no Atlântico Sul estava na "parte do Mundo" da Espanha. Mesmo assim, o local ainda não tinha sido descoberto, e foi encontrado por holandeses, ingleses e, também, franceses. Quando os espanhóis souberam que tinham pessoas morando na ilha que era seu território, tiraram todos de lá. Os britânicos, expulsos à força, fizeram a promessa de que voltariam. 

Até que, em meio à onda de independências na América Latina, com a Espanha enfraquecida em batalhas com a França de Napoleão, as Ilhas Malvinas foram abandonadas, com os militares que protegiam o arquipélago sendo convocados para batalhar. 

Após um período de "terra sem lei", por volta de 1820, a Argentina --já independente da colonização espanhola-- entra na história. Eles iniciaram um processo de se apossar das Ilhas Malvinas, até assumirem o controle total. O sonho, porém, durou pouco: em 1833 os ingleses, cumprindo a promessa de que um dia voltariam ao território, ocuparam a ilha e retiraram o povo argentino para instalar seus próprios colonos. E assim foi por anos.

Ao Terra, o doutor em história pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista em história da América Latina, Felipe Cruz, explica que ter o controle das Ilhas Malvinas era uma reivindicação dos argentinos desde a independência da Espanha, próximo à década de 1820, no século XIX. 

“Tem a ver com essa ideia de retomar um território que os argentinos sempre entenderam que foi deles e que uma potência europeia, imperialista, estaria ocupando”, descreve.

O território não tinha muita importância, conforme Cruz. O local é gelado, com muito vento, com ambiente meio desértico, mas muito estratégico, por se tratar de uma ilha grande no Atlântico Sul, portanto, um ponto de controle do mar e de apoio, “como se fosse um farol”. Era a última parte a ser conquistada pelos argentinos desde o começo de sua expansão.

No fim, a retomada do controle das ilhas apareceu como uma forma de tentar solucionar a situação socioeconômica que a Argentina vivia. No caso, a Argentina entrou em uma ditadura militar em 1976 e passava por momentos difíceis por causa da inflação e denúncias de desaparecidos por causa do regime. Nisso, na tentativa de dar uma "volta por cima", a ditadura argentina tentou pegar as ilhas de volta, acabou se envolvendo em uma guerra e perdeu.

Infográfico do mapa da região das Ilhas Malvinas (em inglês Falkland Islands), situadas ao largo da costa da América do Sul, mais ou menos à latitude de Río Gallegos. Em 1982, a Inglaterra e Argentina travam a Guerra das Malvinas pela posse do território. Mesmo com a vitória inglesa no conflito, o governo argentino mantém a reivindicação de soberania.
Infográfico do mapa da região das Ilhas Malvinas (em inglês Falkland Islands), situadas ao largo da costa da América do Sul, mais ou menos à latitude de Río Gallegos. Em 1982, a Inglaterra e Argentina travam a Guerra das Malvinas pela posse do território. Mesmo com a vitória inglesa no conflito, o governo argentino mantém a reivindicação de soberania.
Foto: ARTE ESTADO / Estadão

‘Cálculo equivocado’ e derrota Argentina

Em 2 de abril de 1982, a Argentina inicia a Operação Rosário --codinome militar para a invasão que deu início à Guerra das Malvinas --, acreditando que teriam apoio dos Estados Unidos. As tropas argentinas desembarcaram nas ilhas e assumiram o controle de Stanley, capital local, chamada também de Puerto Argentino pelo governo argentino. Na época, o país vivia uma ditadura militar, liderada pelo general Leopoldo Galtieri. Um mês após a invasão, os britânicos iniciaram a operação militar de retomada das ilhas. 

“Os militares argentinos, que eram aliados dos Estados Unidos, da OTAN, que na época da Guerra Fria estavam bastante alinhados aos EUA, fizeram um cálculo equivocado. Eles achavam que eles iriam posar de patriotas ocupando a ilha, que seria uma resolução simples, e que pela distância, a Inglaterra iria abrir mão da ilha. Eles iam sair lá não como uma ditadura militar horrível, decadente, da inflação, mas de que conquistou a ilha e isso iria unificar”, aponta o especialista. 

No entanto, os norte-americanos apoiaram o Reino Unido. Então, a primeira-ministra Margaret Thatcher, mandou navios, inclusive um porta-aviões, e fizeram ataques. Nesse cenário, a Argentina não teve condição de repelir. 

Lançadores de mísseis Exocet argentinos, montados em reboques de forma improvisada e retirados de corvetas da classe A-69 após a retomada de Port Stanley pelas tropas britânicas durante a Guerra das Malvinas, em junho de 1982
Lançadores de mísseis Exocet argentinos, montados em reboques de forma improvisada e retirados de corvetas da classe A-69 após a retomada de Port Stanley pelas tropas britânicas durante a Guerra das Malvinas, em junho de 1982
Foto: Getty Images

Segundo o historiador, com o passar do tempo, o conflito pegou mal para os argentinos, muito pela comoção que se gerou devido às cartas enviadas por jovens soldados às suas mães. Eles relatavam o apavoro com os bombardeios dos ingleses, a falta de treinamento, e o frio que passavam em meio a batalha. 

Ao invés de ter um reforço, o Galtieri acabou tendo que assinar a derrota e a Inglaterra saiu vencedora. A guerra durou pouco mais de 70 dias e deixou 907 pessoas mortas, sendo 649 militares argentinos, 255 militares britânicos e 3 civis moradores das ilhas. “Logo depois a ditadura militar cai, em 1983. Então, a consequência principal foi o contrário do que a ditadura imaginou”, reflete. 

Desde que conseguiram restabelecer o controle, os britânicos seguem soberanos no local, tanto que os cerca de 3.500 habitantes se identificam como ingleses. Embora já tenham deixa claro que não têm interesse em discutir a soberania local, a Argentina segue reivindicando diplomaticamente o controle do território.

Essa já não é questão que virará uma nova guerra, segundo o especialista. “Toda vez que alguém quer unificar o país, fala das Malvinas”, afirma exemplificando falas da ex-presidente argentina, Cristina Kirchner, sobre reocupar o local quando o governo estava em crise. Javier Milei, atual chefe de Estado, fez isso recentemente, inclusive.

 Monumento ao soldado das Malvinas em Zapala, província de Neuquén, Argentina
Monumento ao soldado das Malvinas em Zapala, província de Neuquén, Argentina
Foto: Carolina Jaramillo/NurPhoto via Getty Images

Imaginário coletivo argentino e futebol

Com a sequência de eventos históricos em torno das Ilhas Malvinas tendo desembocado na Copa do Mundo de 1986, com a vitória da Argentina sobre a Inglaterra, é como se a rivalidade do conflito tivesse passado para o futebol. Se tornou algo cultural. 

Ao Terra, Ariel Palacios, correspondente da GloboNews em Buenos Aires para a América Latina e autor do livro Futebol Lado B, explica que essa rixa é muito viva culturalmente --por mais que a movimentação que culminou na guerra tenha sido feita por um governo ditatorial e que essa derrota tenha ajudado a Argentina no processo de se tornar uma democracia. 

"Todos os governos, independentemente da ideologia, insistem na reivindicação das ilhas e, por isso, no imaginário coletivo argentino, isso é tão descomunalmente importante", explica. 

Ele evidencia que, para o povo argentino, nenhum jogo será tão importante nessa Copa do Mundo quanto o disputado contra a Inglaterra. "São 40 anos desde a Copa de 86, número redondo. São 20 anos que a Argentina e a Inglaterra não jogam, o último jogo foi em 2005. E vai ser o primeiro jogo do Messi contra a seleção da Inglaterra. Tem uma série de simbolismos. É o jogo que estão esperando". 

Sobre o que esperar no estádio, Palacios reconhece que a rivalidade pode, sim, terminar em pancadaria. "Não é uma coisa só de redes sociais, de internet. A torcida inglesa não é exatamente uma torcida de freiras carmelitas, e os argentinos tampouco. Então não me surpreenderia que, infelizmente, ocorram conflitos na torcida ou também cotoveladas e agressões entre os jogadores."

Homem segura uma placa com os dizeres "As Malvinas eram, são e serão argentinas" durante um protesto, em Buenos Aires, em 2 de abril de 2025
Homem segura uma placa com os dizeres "As Malvinas eram, são e serão argentinas" durante um protesto, em Buenos Aires, em 2 de abril de 2025
Foto: Matias Baglietto/GettyImages
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Fonte: Portal Terra
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