A Fórmula 1 chega ao recesso de verão com uma nova ordem de forças. A reformulação regulamentar de 2026 trouxe motores híbridos com repartição igualitária entre combustão e eletricidade, aerodinâmica ativa e carros mais leves. A promessa era embaralhar o grid, e isso se cumpriu com folga.
Depois de onze corridas e do GP da Hungria, que fechou a primeira metade da temporada com vitória de Lando Norris, a Mercedes surpreendeu ao assumir a ponta com enorme vantagem, puxada pelo fenômeno Kimi Antonelli. Enquanto isso, Red Bull e Aston Martin penam para digerir as próprias unidades de potência recém criadas.
A Ferrari voltou a ser candidata ao título, a McLaren cresceu aos poucos depois de um início capenga e o meio de campo ficou mais apertado do que em anos recentes. A seguir, o Parabólica apresenta seu power ranking das 11 equipes da temporada, da mais frágil à mais dominante, com as forças e fraquezas que definiram esse primeiro capítulo da era 2026.
11º lugar: Cadillac
A estreante norte-americana chega às férias sem pontos e na lanterna do Mundial de Construtores, mas isso já era esperado por quem acompanhou de perto sua montagem contra o relógio. Anunciada oficialmente apenas em 2025, a equipe comandada por Graeme Lowdon precisou erguer fábrica, contratar corpo técnico e homologar um chassi praticamente ao mesmo tempo em que desenvolvia o carro para o grid mais competitivo em décadas.
Com motores Ferrari e a dupla de experiência Sergio Pérez e Valtteri Bottas, o time evitou o pesadelo de ficar fora do corte de 107%, o fantasma que rondava qualquer estreante desde o fiasco da HRT em 2011. A equipe tem mostrado evolução discreta a cada fim de semana, com Bottas circulando perto do Q3 em pistas específicas.
A ausência de pontos mostra, porém, que a Cadillac ainda compete numa realidade à parte, na qual o objetivo não é pontuar, mas simplesmente não humilhar o projeto em sua temporada de estreia.
10º lugar: Aston Martin
Poucas equipes viveram um contraste tão grande entre expectativa e realidade quanto a Aston Martin. A chegada de Adrian Newey como diretor técnico e o casamento com a nova unidade de potência da Honda alimentaram a esperança de que o AMR26 seria o carro capaz de brigar por vitórias.
Na prática, os testes de pré-temporada em Barein já escancararam o problema: vibrações anormais na bateria, agravadas pelo estilo de pilotagem de Fernando Alonso e Lance Stroll, obrigaram a equipe a reduzir a performance do motor desde a primeira corrida do ano.
O resultado é um único ponto conquistado até aqui, o pior desempenho relativo entre os times tradicionais do grid, e um discurso interno que fala em "seis meses muito difíceis desde janeiro". A boa notícia é o pacote de atualizações levado à Hungria, tratado pela equipe e pela Honda como possível ponto de virada na segunda metade do campeonato.
A confiança, porém, depois de tantas promessas não cumpridas desde 2023, só será restabelecida com resultados dentro de pista.
9º lugar: Williams
Sob o comando de James Vowles, a Williams tomou uma decisão arriscada: praticamente abandonou o desenvolvimento do carro de 2025 para concentrar toda a engenharia no projeto de 2026, algo que fez com convicção pública e sem meias palavras. A aposta trouxe pressão extra sobre a equipe de Grove, que segue em pleno processo de modernização de infraestrutura mesmo competindo.
Com Carlos Sainz e Alexander Albon, a Williams soma onze pontos e ainda não conseguiu se estabelecer como referência de meio de pelotão, ficando mais perto da zona de reconstrução do que da zona de pontuação recorrente.
Falta ao carro consistência de ritmo entre pistas de características distintas, mas a base organizacional reformulada por Vowles é vista internamente como o verdadeiro trunfo de médio prazo, mesmo que os resultados de 2026 ainda não reflitam isso.
8º lugar: Audi
A estreia da Audi como fabricante pleno trouxe estabilidade discreta, mas real. Com Nico Hülkenberg e Gabriel Bortoleto, a equipe soma doze pontos e tem sido uma presença regular, ainda que modesta, na briga por posições de pontuação em corridas de maior confusão.
É um começo de projeto sem sobressaltos grandes, nem para cima nem para baixo, o que em uma temporada de tantas mudanças regulamentares já pode ser considerado um mérito.
O desafio agora é escalar o desenvolvimento na segunda metade do ano para não ser engolida pelas equipes clientes de motor mais experientes, como Haas e Racing Bulls, que estão à frente na tabela.
7º lugar: Haas
A equipe americana, cliente da unidade de potência da Ferrari, tem em Oliver Bearman seu principal ativo: o piloto britânico soma dezoito dos vinte e um pontos da equipe e vem sendo, aos poucos, um dos nomes mais citados entre as revelações de 2026.
Ao lado de Esteban Ocon, que chegou à Haas ainda em 2025 depois de deixar a Alpine, a equipe tem entregado uma temporada equilibrada, sem grandes picos, mas também sem os vexames que marcaram partes de sua história recente.
O carro parece competitivo o suficiente para roubar pontos pontuais em corridas de safety car ou chuva, o que projeta a Haas como uma equipe capaz de terminar o ano em ligeira ascensão caso mantenha o ritmo de desenvolvimento.
6º lugar: Alpine
Assim como a Williams, a Alpine optou por sacrificar o desenvolvimento do carro de 2025 em favor de uma preparação mais robusta para a nova era, só que foi mais discreta ao anunciar a estratégia. A aposta parece estar rendendo frutos: com Pierre Gasly e Franco Colapinto, a equipe de Enstone soma 61 pontos, à frente de nomes tradicionalmente mais fortes como Williams e Haas.
Gasly segue como o piloto mais consistente da dupla, enquanto Colapinto vem mostrando evolução relevante depois de uma temporada anterior irregular.
A trajetória ascendente da Alpine é um dos enredos mais interessantes do primeiro semestre. A equipe francesa, que amargou anos difíceis sob o motor próprio, agora colhe os primeiros sinais de que a mudança para a unidade de potência Mercedes e o foco total em 2026 podem ter sido decisões acertadas.
5º lugar: Racing Bulls
Com Liam Lawson e o estreante Arvid Lindblad, a Racing Bulls somou 66 pontos e, em determinados fins de semana, andando tão rápido quanto o time principal da Red Bull. Lindblad, ainda em processo de adaptação à categoria, já mostrou lampejos de competitividade que justificam a aposta precoce da equipe em promovê-lo, enquanto Lawson ganhou a temporada de estabilidade que lhe faltava em experiências anteriores no grid.
A equipe sediada em Faenza segue cumprindo seu papel histórico de celeiro de talentos e de equipe capaz de surpreender pontualmente o topo da tabela, mas ainda sem o carro para brigar de forma consistente com o grupo dianteiro.
4º lugar: Red Bull
Nenhuma equipe grande sofreu tanto com a virada do regulamento quanto a Red Bull, que pela primeira vez em sua história fabrica a própria unidade de potência, em parceria com a Ford. O início de temporada foi marcado por abandonos de Max Verstappen e Isack Hadjar por falhas de resfriamento e motor, além de uma desvantagem clara de tração na saída de curvas lentas, evidenciada por análises de telemetria em pistas como Suzuka.
A reconstrução também é estrutural: Christian Horner, Adrian Newey, Jonathan Wheatley e Helmut Marko deixaram a equipe, e Laurent Mekies assumiu um projeto de reconstrução completa.
Ainda assim, Verstappen segue entregando resultados acima do que o carro sugere, somando 109 pontos e mantendo a Red Bull em quarto lugar mesmo em um ano de transição turbulenta. É a prova de que, apesar de tudo, o tetracampeão continua sendo um dos maiores trunfos do grid.
3º lugar: McLaren
Campeã com Norris na temporada passada, a McLaren repetiu a receita de sempre: começou 2026 atrasada, tendo priorizado o desenvolvimento do carro anterior até o fim do campeonato de 2025, mas vem recuperando terreno corrida após corrida. Com Norris e Oscar Piastri somando 220 pontos, a equipe de Woking já supera a Mercedes em classificações pontuais e mostra ritmo de corrida forte em traçados de alta exigência aerodinâmica.
O desempenho discreto do início do ano contrasta com o material técnico que a equipe vem trazendo a cada atualização, o que projeta a McLaren como candidata natural a fechar a temporada em ascensão, especialmente se conseguir equilibrar de forma mais constante o desempenho de Norris e Piastri, hoje com uma diferença de pontos ainda considerável entre os dois.
2º lugar: Ferrari
Depois do pesadelo de 2025, quando Lewis Hamilton passou uma temporada inteira sem pódios e a equipe amargou até desclassificações, a Ferrari renasceu com a reformulação regulamentar. Sob o comando técnico de Frederic Vasseur, o novo SF-26 devolveu à Scuderia a briga direta pelo título, e a equipe soma 307 pontos, em segundo lugar isolado no Mundial de Construtores.
O principal entrave, porém, segue sendo interno: Charles Leclerc mantém um ritmo constantemente superior ao de Hamilton, que já cobrou publicamente atualizações e reconheceu dificuldades de adaptação após duas décadas de carreira ligado à Mercedes.
Ainda assim, a Ferrari finalmente tem, depois de quase duas décadas sem título mundial, um carro competitivo o suficiente para sonhar alto. Falta decidir em quais mãos apostar essa briga.
1º lugar: Mercedes
Nenhuma equipe absorveu tão bem a revolução técnica de 2026 quanto a Mercedes, que lidera o Mundial de Construtores com folga surpreendente: 379 pontos, mais de setenta à frente da própria Ferrari. O nome por trás da dominância é Kimi Antonelli, que aos dezenove anos (completa vinte em agosto) venceu seis corridas, cravou seis poles e se tornou o piloto mais jovem da história a conquistar uma pole position na Fórmula 1, liderando o Mundial de Pilotos à frente de nomes consagrados como Hamilton e Russell.
George Russell, seu companheiro, também vive um dos melhores momentos da carreira, somando 160 pontos e reforçando que o time de Brackley construiu, sob a nova regra de motores, o pacote mais equilibrado do grid entre potência, eficiência elétrica e janela aerodinâmica.
É a confirmação de que a temporada de mudança de regulamento, criada justamente para nivelar o campo de jogo, acabou coroando quem se preparou melhor. E essa equipe, ao menos até aqui, é a Mercedes.