Quando a temporada 2026 da Fórmula 1 começou, a Mercedes parecia caminhar para um campeonato sem adversários. A equipe venceu as primeiras corridas do ano e construiu rapidamente uma vantagem tanto no Mundial de Pilotos quanto no de Construtores. Enquanto isso, a Ferrari acumulava pódios, mas ainda não conseguia transformar seu desempenho em vitórias.
Cinco meses depois, o cenário é completamente diferente. A Ferrari já venceu duas corridas, passou a disputar vitórias de forma consistente e recolocou Lewis Hamilton na luta pelo campeonato. Mas o que mudou?
A resposta passa por um carro que sempre foi rápido, mas que demorou para explorar todo o seu potencial.
Ainda na pré-temporada, Frédéric Vasseur evitava qualquer tipo de euforia. O chefe da Ferrari afirmava que o principal objetivo dos testes no Bahrein era acumular quilometragem e entender o comportamento do SF-26 na nova era técnica da Fórmula 1.
Na prática, porém, a equipe já sabia que havia produzido um dos melhores carros do grid em termos de chassi e aerodinâmica. O problema estava na unidade de potência.
As primeiras etapas confirmaram esse diagnóstico. Enquanto Lewis Hamilton e Charles Leclerc apareciam constantemente entre os primeiros colocados, a Mercedes utilizava sua vantagem nas retas para dominar as corridas. O próprio Hamilton foi um dos primeiros a apontar o problema, afirmando que a Ferrari perdia desempenho no fim das retas e não conseguia acompanhar a entrega de potência da rival.
Pouco depois, Vasseur reconheceu publicamente que a equipe tinha um déficit de desempenho em linha reta. Nos bastidores, estimava-se uma diferença de aproximadamente 20 a 30 cavalos de potência para a Mercedes, além de uma desvantagem na gestão de energia.
Mesmo assim, os resultados mostravam que o SF-26 nunca esteve longe da disputa. Hamilton terminou entre os primeiros colocados em praticamente todas as etapas iniciais, enquanto Leclerc também acumulava pódios. O desempenho indicava que o problema não era o carro, mas sim o conjunto mecânico.
Foi então que a Ferrari iniciou uma reação em duas frentes.
A primeira envolvia um grande pacote aerodinâmico, com novo assoalho, redução de peso e a evolução da asa traseira conhecida internamente como asa "Macarena".
A segunda era ainda mais importante: a utilização do sistema de Oportunidades Adicionais de Desenvolvimento e Atualização (ADUO), criado pela FIA para permitir que fabricantes com desempenho inferior na unidade de potência recuperassem parte da diferença para os concorrentes.
A Ferrari foi uma das equipes beneficiadas pelo mecanismo e estreou sua primeira atualização de motor no GP da Áustria. As mudanças envolveram uma nova câmara de combustão, melhorias na eficiência energética e um combustível desenvolvido em parceria com a Shell. Ao mesmo tempo, a equipe continuou refinando o pacote aerodinâmico introduzido em Barcelona.
Os resultados começaram a aparecer rapidamente.
A primeira vitória veio justamente em Barcelona, quando Hamilton encerrou a sequência invicta da Mercedes e conquistou seu primeiro triunfo com a Ferrari. Depois disso, Leclerc venceu em Silverstone e a equipe passou a disputar vitórias até mesmo em pistas que, teoricamente, favoreciam seus adversários.
Silverstone e Spa-Francorchamps são dois exemplos. Antes das etapas, a própria Ferrari acreditava que seriam circuitos difíceis por exigirem muita eficiência em reta. Ainda assim, a Scuderia deixou essas duas corridas convencida de que havia reduzido significativamente a diferença para a Mercedes, inclusive com vitória do Leclerc em Silverstone.
A evolução também mudou completamente a disputa pelo Mundial de Pilotos.
Nas primeiras etapas da temporada, George Russell aparecia como principal perseguidor de Andrea Kimi Antonelli, enquanto Hamilton ocupava apenas a quarta colocação. Com a evolução do SF-26, porém, o britânico passou a somar pódios regularmente, conquistou sua primeira vitória pela Ferrari e assumiu a vice-liderança do campeonato.
| Etapa | Antonelli | Hamilton | Russell |
|---|---|---|---|
| Austrália | 18 | 12 | 25 |
| Miami | 75 | 43 | 68 |
| Canadá | 131 | 72 | 88 |
| Mônaco | 156 | 90 | 88 |
| Barcelona | 156 | 115 | 106 |
| Silverstone | 179 | 147 | 154 |
| Bélgica | 204 | 159 | 154 |
| Hungria | 219 | 169 | 160 |
A tabela mostra como a dinâmica do campeonato mudou ao longo da temporada. Russell abriu vantagem sobre Hamilton nas primeiras etapas, mas a evolução da Ferrari permitiu que o heptacampeão revertesse esse cenário e chegasse às férias de verão como principal adversário a Antonelli.
A percepção dentro do paddock também mudou.
Antes do GP da Hungria, George Russell, Andrea Kimi Antonelli e o chefe da McLaren, Andrea Stella, apontavam a Ferrari como favorita para o fim de semana. O consenso era de que o SF-26 possuía o melhor conjunto de chassi e aerodinâmica do grid para um circuito de alta carga como o Hungaroring.
O resultado final não refletiu esse favoritismo. Leclerc terminou em quarto e Hamilton em quinto, mas a própria equipe atribuiu o desempenho às circunstâncias da corrida. O monegasco perdeu posições logo na largada, Hamilton foi prejudicado pela estratégia durante o Virtual Safety Car e ainda recebeu uma punição por excesso de velocidade nos boxes.
Mais do que os resultados isolados, a temporada mostra uma mudança de patamar da Ferrari.
No início do campeonato, a equipe tinha um carro extremamente eficiente nas curvas, mas limitado por uma unidade de potência inferior. Hoje, a combinação entre as evoluções aerodinâmicas, as atualizações permitidas pelo ADUO e uma compreensão maior do SF-26 colocou a Scuderia novamente na disputa por vitórias e pelo Mundial de Pilotos e Construtores.