Vantagem do Brasil é ser indispensável para o mundo e não precisar tomar partido, diz Marina Grossi

Presidente do CEBDS lidera carta de orientações para candidatos à presidência sobre economia verde em planos de governo

2 set 2026 - 19h47
Resumo
O Brasil desponta como indispensável na transição para a economia verde global devido a seus ativos ambientais e à neutralidade geopolítica, defende Marina Grossi, do CEBDS. O setor empresarial cobra dos governantes a transformação dessa agenda em política de Estado e estratégia econômica, e não de polarização política. Para atrair investimentos e valorizar sua produção, o país precisa superar entraves com planejamento, segurança jurídica, regularização fundiária e mercado de carbono.

Para avançar na agenda verde, o Brasil tem duas grandes vantagens competitivas: por um lado, detém os ativos ambientais que são de interesse global para a transição rumo a uma economia de baixo carbono, por outro, tem um trânsito geopolítico que não depende de alianças extremas polarizadas com um país ou com outro.

Na perspectiva da presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), Marina Grossi, em entrevista ao Estadão, esses pontos não só posicionam bem o País globalmente, como o tornam indispensável para o mundo quando o tema é soluções em sustentabilidade.

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O CEBDS publicou, no final de agosto, o documento "Carta aos Presidenciáveis", com orientações dirigidas aos candidatos sobre temas vistos como cruciais pelo setor privado na agenda verde e recomendados para estarem presentes no planejamento de governo dos candidatos. A carta foca em eixos voltados para a proteção da natureza e para a aceleração e financiamento da economia verde.

Leia os principais trechos da entrevista com Grossi:

Dos temas apontados na carta, qual o mais urgente para ser solucionado pelo próximo governo nos primeiros 100 dias?

O Brasil já tem as condições para estar executando políticas, então, (o mais urgente) é planejar melhor essa execução e colocar isso como uma política de Estado. Há algumas questões que têm de ser solucionadas muito rápido. A regularização fundiária seria uma delas, pois é uma base para ter crédito de carbono, para acabar com desmatamento, grilagem e criminalidade. É muito importante endereçarmos a questão da regularização fundiária para ter segurança jurídica, previsibilidade e planejamento. A outra questão seria a implementação do mercado de carbono, que é uma vantagem competitiva muito grande no Brasil, e precisa estar também sendo olhada por uma instância mais elevada. É preciso uma implementação de forma ambiciosa, e nessa transferência para outros países tem de ficar muito claro como fazer isso de maneira que o Brasil possa ser competitivo. Que seja um crédito de carbono muito valorizado em virtude de respeitar a integridade climática, biodiversidade e questões sociais.

Acompanhando os debates e sabatinas dos presidenciáveis, como a sra. tem avaliado o discurso deles sobre os temas dessa agenda até então?

Vejo que ainda está sendo uma discussão periférica. Está sendo ainda uma pauta muito polarizada, muito mais política. Mas, não queremos tomar partido. Queremos que todos considerem essa pauta como uma pauta de competitividade. Mostrar, então, que o setor empresarial se articulou, está unido e vai apoiar essa pauta, seja quem for o presidente. É (um movimento) para reconhecer que isso já está em curso no Brasil, e está em curso porque é competitivo. Por exemplo, a nossa energia mais competitiva é a mais renovável. Então, como aproveitamos isso? Vamos trazer só data centers ou vamos fazer a nossa energia limpa como base de uma nova indústria? Quando os candidatos falam, eles falam de forma muito superficial, pensando ainda com o viés da polarização. E vejo que temos de sair do "ou isso ou aquilo" e falar no "como vamos fazer". Execução, planejamento, previsibilidade, ambiente regulatório previsível é o que precisamos para atrair capital e avançar nessa agenda.

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Marina Grossi vê que temas da agenda climática ainda estão polarizados no debate eleitoral
Marina Grossi vê que temas da agenda climática ainda estão polarizados no debate eleitoral
Foto: Werther Santana/Estadão / Estadão

Os temas relacionados à economia verde já têm peso decisório em relação ao voto dos eleitores?

Sem dúvida nenhuma, a agenda verde entrou de forma muito mais forte (na agenda política). Antes, era um elemento que poderia trazer competitividade para as empresas. Hoje, é um elemento estratégico para as empresas. Então, é muito mais forte. Temos de avançar em algumas áreas, mas a economia verde é uma questão fundamental para as empresas, sobretudo para as brasileiras. O que eu vejo que está polarizado e precisa estar mais claro para a população é que o Brasil consegue preservar e ser competitivo ao mesmo tempo. Preservar e produzir é algo incompatível quando você fala com o europeu, mas não é incompatível quando você fala com o brasileiro. Não precisamos de mais nenhum hectare para estar plantando, produzindo. Isso é uma realidade que o Brasil tem, não é uma realidade para o resto do mundo. É uma vantagem para o Brasil poder fazer as duas coisas.

É defendido na carta que essas políticas sejam de Estado e não de governo. Isso quer dizer que, no momento, o desenvolvimento da economia de baixo carbono no Brasil ainda está muito dependente do que cada governo prioriza?

Há uma percepção de que isso é uma vantagem, mas (a visão de) como utilizar essa vantagem pode ser ainda uma coisa polarizada. O setor privado tem muito a contribuir porque ele já está fazendo isso. Trata-se de não vender o Brasil barato. Quando falamos em sustentabilidade estamos falando de valor agregado na economia, não ser só venda de commodities, mas em posicionar as soluções climáticas como um valor agregado na economia. O nosso aço pode ser verde, o nosso alimento pode ser de baixo carbono, e tudo isso tem de estar no preço, porque é justamente o preço de CO2 (dióxido de carbono) que está cada vez mais sendo utilizado como uma barreira comercial no mundo. Temos vantagens nesse cenário e temos de vender as nossas soluções.

A sra. diz que uma das grandes vantagens políticas do Brasil é não precisar tomar partido geopoliticamente. Como isso se reflete na atração de capital para a economia verde?

É uma estratégia que tem de unir executivo, judiciário, legislativo, setor privado, e realmente tem de entrar com uma estratégia de País, como uma vantagem que temos para fazer uma política consequente. Porque, quando estamos atuando de uma maneira geopolítica, temos de ser consequentes. Basta ver China e Estados Unidos; há ali uma estratégia muito bem definida. Se não está definida a estratégia, você vai ser comido pela estratégia do outro. Então, temos de definir nossa estratégia, e, realmente, não há nenhuma vantagem em estar se posicionando nisso, pois podemos ser indispensáveis para todos os atores. Nós temos o que o mundo precisa. Não precisamos estar vendendo só para um ou só para o outro. Podemos utilizar essa vantagem e ser indispensáveis para todos os países de diferentes matizes.

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