Apesar do avanço dos pagamentos eletrônicos, o volume de dinheiro vivo na Europa cresceu com a busca por reservas de emergência diante de guerras, catástrofes e ciberataques. O Banco Central Europeu defende a importância das cédulas para a resiliência em crises. Em paralelo, a União Europeia avança na criação do euro digital, iniciativa que busca modernizar as finanças públicas e reduzir a dependência de operadoras de pagamento estrangeiras, fortalecendo sua soberania.
Total de euros em dinheiro vivo em circulação tem salto de 60% em dez anos. Quantidade de cédulas também aumenta. Guerras, catástrofes e ciberataques têm elevado temores em relação a transações digitais na União EuropeiaDados do Banco Central Europeu (BCE) revelam que o número de cédulas de euro em circulação na União Europeia (UE) está aumentando, apesar da crescente disseminação de pagamentos eletrônicos entre os europeus.
Especialistas associam o aumento do uso de dinheiro vivo à ansiedade em relação a guerras e à maior ocorrência de ataques cibernéticos contra os sistemas de pagamento online e por aproximação.
Os incêndios florestais que atingiram com força vários países da Europa nos últimos meses também levaram as pessoas a aumentar suas reservas de emergência em dinheiro vivo.
Ainda que em muitas cidades da Europa os pagamentos eletrônicos sejam utilizados com mais frequência do que os em espécie, o valor total das notas em circulação aumentou significativamente, de 1 trilhão de euros em 2016 para 1,6 trilhão em 2026, segundo dados do BCE, que monitora o número de notas bancárias em circulação desde 2002.
Mais de 31 bilhões de notas estão em circulação, em comparação com 24 bilhões pouco antes da pandemia de covid-19, em 2019. A nota mais popular em 2025 era a de 50 euros, seguida pela de 100 euros.
Em termos proporcionais, a quantidade de notas em circulação equivale a 5.000 euros para cada cidadão da Zona do Euro.
O paradoxo do dinheiro vivo na Europa
Philip Lane, economista-chefe do BCE, afirmou recentemente que o estoque total de cédulas continua a crescer. O número de notas está diminuindo nas transações financeiras, ao mesmo tempo em que aumenta em razão dos estoques pessoais.
O BCE afirma que o dinheiro em espécie é uma parte fundamental da "prontidão nacional para crises", a capacidade de cada país de antecipar, prevenir e reagir a crises internacionais como conflitos, desastres naturais, apagões de energia, crises de saúde e outras.
"A demanda por dinheiro em espécie durante crises — como a crise financeira de 2008, a crise da dívida soberana europeia e a pandemia de COVID-19 — ressalta a sua importância, especialmente em tempos turbulentos", disse Piero Cipollone, membro do conselho executivo do BCE.
Em 2025, os cidadãos da UE foram aconselhados a estocar alimentos, água e itens essenciais suficientes para 72 horas em caso de emergência, como os incêndios florestais e outras catástrofes, além do risco de ciberataques.
As famílias foram incentivadas a ter um kit de emergência contendo água engarrafada, rádio de pilha, alimentos enlatados e dinheiro em espécie.
Diversos países europeus, como a Alemanha, Holanda, Áustria, Finlândia e Suécia, recomendaram que os cidadãos mantenham entre 70 e 100 euros (R$ 425 e R$ 607) por família, o suficiente para pagar por itens essenciais durante 72 horas caso os serviços online e aplicativos móveis fiquem indisponíveis.
Lane também destacou a necessidade de legislação para garantir que as redes de caixas eletrônicos permaneçam disponíveis em todas as áreas comerciais da UE.
Olive McCarthy, professora da Universidade de Cork, na Irlanda, especializada em inclusão financeira, afirmou em entrevista ao jornal The Guardian que a continuidade da existência do dinheiro em espécie é fundamental para a sociedade.
Além de ser útil em tempos de crise, o dinheiro vivo pode ser uma ferramenta de inclusão, sendo essencial para idosos e pessoas em condição vulnerável, como vítimas de violência doméstica cujos gastos sejam controlados pelo agressor.
O dinheiro em espécie também pode ser uma ferramenta para ensinar as crianças a lidar com finanças e orçamento.
Europa cria seu próprio "Pix"
No mês passado, o projeto de lei que cria o euro digital avançou no Parlamento Europeu, aproximando a legislação de sua adoção até o final de 2026.
O projeto do BCE cria uma versão digital oficial do euro, emitida e garantida pelo próprio Banco Central. Seria uma forma de dinheiro eletrônico público utilizável em pagamentos digitais, de uso semelhante ao Pix brasileiro.
A proposta inicialmente enfrentou críticas de membros do Parlamento Europeu, que argumentaram que o euro digital poderia prejudicar a privacidade e, eventualmente, diminuir o papel das notas e moedas como meio de pagamento.
"Gostaria de celebrar o fato de o Parlamento ter aprovado de forma massiva o mandato para estas negociações, que esperamos que sejam concluídas até dezembro", disse a presidente do BCE, Christine Lagarde à emissora de notícias Euronews.
Lagarde observou que o euro digital visa trazer o dinheiro público - atualmente disponível principalmente sob a forma de dinheiro físico - para a era digital. Tal como as notas e moedas, a ferramenta seria reconhecida como meio de pagamento de curso legal.
"O dinheiro físico e o euro digital serão ambos moeda de curso legal, o que significa que ninguém, em nenhum lugar da Europa, poderá dizer 'desculpe, não aceito as suas notas'", afirmou.
UE quer cortar dependência de sistemas estrangeiros
Lagarde acrescentou que o euro digital visa fundamentalmente reforçar a autonomia estratégica da Europa nos pagamentos e no processamento de transações. A maioria dos pagamentos com cartão na Europa é processada por meio de redes de pagamento estrangeiras, como as americanas PayPal, Visa e Mastercard, o que levou os formuladores de políticas da UE a pressionarem por uma alternativa regional, à medida que as tensões geopolíticas evidenciam a dependência do bloco de provedores sediados principalmente nos Estados Unidos.
No Brasil, o Pix se tornou alvo de críticas do governo dos EUA, que o acusa de prejudicar empresas do setor de pagamentos ao criar uma concorrência que considera desigual, e que favoreceria de forma injusta o sistema brasileiro. O sistema de pagamentos online chegou a ser citado por Washington como um dos motivos para o aumento das tarifas americanas contra o Brasil.
Para Lagarde, a melhor saída seria uma solução europeia. "Dependemos predominantemente de redes americanas, mas também, às vezes, chinesas, para organizar pagamentos. Precisamos de uma solução europeia porque queremos ser soberanos em termos domésticos", disse.
Citando dados do BCE sobre pagamentos com cartão, ela destacou que, em 60% dos casos, as pessoas utilizam infraestruturas de pagamento que estão sob controle de capital estrangeiro.
rc (ots)
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