Nesta quarta-feira, 16, acontece o fenômeno conhecido como "Super Quarta", que é quando as agendas do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central brasileiro e o do banco central norte-americano (Fed) decidem no mesmo dia sobre as taxas básicas de juros em seus respectivos países. Por aqui, a expectativa é de que haja corte na taxa Selic, enquanto os juros dos EUA devem ser elevados pela primeira vez desde julho de 2023.
Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do Terra
As projeções entre analistas do mercado financeiro no Brasil são de que o BC vai reduzir a Selic em 0,25 ponto percentual, chegando a 13,75%. Já nos EUA, o movimento deve ser o oposto, com analistas projetando aumento de 0,25 ponto percentual, elevando a taxa para a faixa de 3,75% a 4,00%.
Segundo Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, a Selic deve cair puxada pelo resultado do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de agosto, em que houve deflação de 0,32%. A deflação ocorreu, principalmente, pelo alívio no preço da energia elétrica e por sinais de perda de fôlego na atividade doméstica, como a queda no consumo das famílias no PIB do segundo trimestre.
Ainda assim, mesmo com a desaceleração da economia, a expectativa é de que o corte desta quarta-feira seja o último na Selic até 2027.
Já nos Estados Unidos, as projeções são de altas sequenciais na taxa básica de juros, que poderá chegar a 4,75% no decorrer do ano que vem. "A probabilidade de alta subiu de cerca de 60% para perto de 90% nos últimos dias, após um discurso mais duro de Kevin Warsh [presidente do Fed] em Jackson Hole, dados de inflação de agosto mais resistentes do que o esperado e a disparada do petróleo para acima de US$ 100 o barril, em meio à escalada do conflito no Oriente Médio", explica Vitor Kayo.
Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, considera que o número mais importante dessa Super Quarta refere-se à diferença entre as duas taxas básicas, que encolherá em 50 pontos-base após a rodada de decisões.
"O Brasil continuará oferecendo juros nominais muito superiores aos americanos, mas o capital internacional não compara apenas taxas: compara retorno, moeda, risco fiscal, liquidez e previsibilidade. O Brasil pode continuar pagando muito bem e, ainda assim, precisar convencer o investidor de que o cheque vale o risco", afirma.
"É justamente por isso que o câmbio merece atenção especial. Um Fed mais restritivo tende a aumentar a atratividade dos ativos denominados em dólar e pode exercer pressão sobre moedas emergentes. Para o Brasil, isso importa duas vezes: primeiro pelo fluxo de capital e depois pela inflação importada. Uma depreciação mais persistente do real encarece produtos e insumos dolarizados e pode reduzir a liberdade do Copom para acelerar o ciclo de cortes. Uma decisão tomada em Washington pode, portanto, alterar a velocidade da Selic em Brasília. Banco Central corta juros olhando para a inflação, mas a inflação também olha para o dólar", complementa.
Ainda assim, Olívia recomenda que investidores não olhem para a Super Quarta como "um gatilho para grandes mudanças de portfólio", mas que fiquem atentos aos comunicados dos dois bancos centrais para entender suas sinalizações para os próximos meses.
"Para o investidor pessoa física, portanto, a principal mensagem é diversificação e disciplina de alocação. Ainda existe remuneração muito relevante na renda fixa brasileira, enquanto a continuidade do ciclo de cortes pode abrir oportunidades em renda variável e outros ativos de risco; ao mesmo tempo, o cenário americano reforça a importância da diversificação internacional", diz.