As crises no STF têm ofuscado a desaceleração da economia brasileira na cobertura midiática. Apesar da queda histórica do desemprego para 5,3%, setores vitais mostram estagnação: o varejo recuou 0,8% em julho, os serviços estagnaram e a indústria perdeu fôlego. O consumo tem sido freado por juros altos, crédito escasso, endividamento e gastos com apostas online. Paralelamente, o mercado financeiro mantém projeções inflacionárias acima da meta oficial para os próximos anos.
Encrencas no Supremo Tribunal Federal ocupam o noticiário a menos de um mês das eleições, tomando espaço da economia oscilante e da corrida entre candidatos à Presidência da República, ao parlamento nacional e a postos estaduais e municipais. A crise no Judiciário foi assunto do jornal britânico Financial Times.
Com muito menos destaque, os meios de comunicação informaram, no Brasil, o recuo do varejo, o emperramento dos serviços e a perda de vigor da indústria, detalhes essenciais para o dia a dia das famílias.
Algumas pessoas talvez achem normal a diminuição de vendas varejistas em julho, tempo de férias escolares. Mas as vendas só encolheram em volume, nesse mês, em quatro dos dez anos contados a partir de 2017. Nos dois primeiros, a economia estava em crise.
Neste ano, o desemprego caiu para 5,3% da população ativa, no período de maio a julho, chegando ao menor nível da série iniciada em 2012. A população desocupada diminuiu 8% em relação ao trimestre de fevereiro a abril e incluiu 5,8 milhões de trabalhadores. Os ocupados, 103,3 milhões, formaram o maior grupo da série.
A redução das vendas, portanto, deve ser explicável por fatores diferentes do desemprego, como os juros muito altos, o crédito escasso, o endividamento elevado e o desvio das despesas para outras finalidades. Empresários e analistas já incluíram as apostas esportivas, as famosas bets, entre esses fatores.
Talvez seja precipitado falar em crise, mas os novos números da atividade compõem um quadro pouco luminoso. Em julho, a variação mensal do volume de serviços foi nula. Em junho, havia aumentado apenas 0,1%. As vendas do comércio varejista foram 0,8% menores que as do mês anterior, quando haviam crescido 0,3%. A média móvel trimestral foi negativa (-0,1%). No trimestre encerrado em junho, já havia diminuído 0,2%.
A indústria ainda ficou em território positivo, mas com aumento mensal de produção de apenas 0,2% em julho. No trimestre, a média móvel encolheu 0,8%, com resultados negativos em 12 das 15 áreas pesquisadas. Em 12 meses, o avanço foi de apenas 0,6%.
Apesar do resfriamento da economia, a mediana das projeções do setor financeiro ainda aponta inflação de 4,90% para 2026 e de 4,30% para 2027. A meta oficial continua sendo 3% e o teto da meta, 4,50%.