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Rússia vende ouro para tentar compensar déficit no orçamento

6 ago 2026 - 16h51

Reservas de ouro do país chegaram ao nível mais baixo desde a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022. Tentativa de levantar recursos não significa um sinal de crise financeira iminente.Volumes significativos de ouro foram vendidos pela Rússia em 2026, à medida que o Kremlin busca levantar recursos para compensar um grande déficit orçamentário. O Banco Central russo anunciou recentemente que suas reservas de ouro totalizavam 73,4 milhões de onças-troy (aproximadamente 2,28 bilhões de gramas de ouro), ou 2.282 toneladas métricas, no início de julho.

Rússia se tornou um dos principais vendedores de ouro do mundo atualmente
Rússia se tornou um dos principais vendedores de ouro do mundo atualmente
Foto: DW / Deutsche Welle

Esses números representam uma queda de cerca de 43,5 toneladas métricas em estoque desde o início deste ano, o que indica que as reservas de ouro da Rússia estão agora em seu nível mais baixo desde antes do início da invasão da Ucrânia, que começou oficialmente em 24 de fevereiro de 2022.

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No primeiro quadrimestre deste ano, os preços do ouro atingiram níveis recordes, com valor médio de cerca de 4.800 dólares (cerca de R$ 25.500) por onça, antes de recuarem para os atuais 4.000 dólares por onça. Com isso, estima-se que a venda em massa realizada por Moscou tenha gerado lucro de mais de 5 bilhões de dólares.

"O fato de os russos estarem vendendo ouro significa que estão ficando sem outros ativos líquidos. Portanto, há pressão sobre o déficit e também sobre as fontes para financiar esse déficit", avalia Elina Ribakova, economista do Instituto Peterson de Economia Internacional.

Problemas orçamentários

O orçamento da Rússia tem enfrentado sérias dificuldades nos últimos anos devido ao aumento maciço dos gastos com a guerra na Ucrânia. Os investimentos em defesa mais do que quadruplicaram desde 2021, totalizando em torno de 16 trilhões de rublos em 2025 (204 bilhões de dólares ou cerca de R$ 1 trilhão).

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No início deste ano, o jornal britânico de economia Financial Times informou que o Ministério das Finanças do país havia alertado o governo, por meio de uma carta, que os gastos extras com a guerra chegariam a pelo menos 28 bilhões de dólares em 2026, com previsão de situações idênticas em 2027 e 2028.

Chris Weafer, analista financeiro da consultoria Macro-Advisory, com sede em Moscou, afirma que, embora a venda massiva de ouro pela Rússia seja significativa, não se trata de um negócio motivado pelo pânico.

"É uma situação extraordinária, mas é uma tendência relativamente normal. Isso não significa que a Rússia esteja indo à falência, ficando sem dinheiro, sem nada, e literalmente vendendo a prata da casa", diz.

Segundo o especialista, a maioria deste ouro foi vendida, pelo Ministério das Finanças, por meio do Fundo Nacional de Bem-Estar (NWF), e não pelo Banco Central da Rússia."Desde o início de 2022, o ouro era um dos ativos que o NWF podia adquirir, pois os títulos do Tesouro dos EUA e os títulos de dívidas e outras obrigações não estavam disponíveis para eles", afirma, fazendo referência às sanções impostas pelo Ocidente após a invasão da Ucrânia.

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Quinta maior reserva do mundo

Weafer destaca que o ativo havia se tornado um componente líquido essencial do fundo, o que, segundo ele, é exatamente o objetivo de um fundo nacional de previdência: ser negociado quando há necessidade de recursos, especialmente em momentos difíceis: "Nesse sentido, pode-se argumentar que o propósito está sendo cumprido".

A venda de ouro pelo fundo tem como objetivo reabastecer os chamados ativos líquidos, e Weafer estima que ele valha aproximadamente 150 bilhões de dólares, dos quais cerca de 50 bilhões são descritos como "líquidos".

"O Kremlin não quer que essa reserva diminua, pois isso poderia levar a mais especulações sobre uma crise financeira ou dificuldades econômicas e prejudicaria a sua posição geopolítica. O governo prefere retratar o país como muito estável e muito forte, e esses 50 bilhões de dólares em dinheiro são uma parte importante disso", argumenta o especialista.

Ele afirma que outro fator importante a ser considerado é que, como um dos maiores produtores mundiais de ouro, a Rússia pode repor os estoques que vende de forma relativamente rápida, comprando de seus produtores nacionais. O país detém a quinta maior reserva do mundo, em nível semelhante ao da China, França e Itália, e consideravelmente atrás das duas primeiras, Alemanha e Estados Unidos.

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Ribakova concorda que isso oferece uma proteção significativa: "A Rússia tem uma vantagem: o próprio país produz ouro. Por isso, quando ficou preocupado com as sanções, destinou parte do dinheiro à compra de ouro que estava adquirindo de produtores nacionais."

Petróleo e gás também ajudam

O fato de a Rússia ter se tornado uma das maiores vendedoras de ouro tem levado a novos questionamentos sobre seu déficit orçamentário e o que isso aponta em relação a uma estabilidade econômica mais ampla.

Os gastos e o déficit do orçamento federal da Rússia podem exceder as projeções oficiais em mais de 1 trilhão de rublos (12,85 bilhões de dólares) em 2026, de acordo com dados divulgados recentemente pelo governo. Atualmente, o déficit está projetado em 1,6% do PIB para este ano, o que equivale a aproximadamente 40 bilhões de dólares, com possibilidade de aumentar.

No entanto, a melhora nas receitas provenientes do petróleo e do gás, impulsionada pelos preços mais altos do combustível fóssil devido à guerra no Irã, ajudou Moscou a compensar as dificuldades orçamentárias até o momento.

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Ribakova afirma que tudo se resume aos preços e às receitas que a Rússia obtém com petróleo e gás, considerando esse o "verdadeiro limite" à capacidade de Moscou de financiar a guerra na Ucrânia, que já dura quatro anos e meio.

"Quando o preço do petróleo está alto, a Rússia obtém receitas. É mais fácil contrair empréstimos, e seu sistema financeiro interno fica mais saudável. Se o preço do petróleo cair, então imediatamente há uma crise", afirma.

Financiando a guerra

Tanto Ribakova quanto Weafer alertam que, apesar das evidentes dificuldades econômicas que a Rússia enfrenta atualmente, o país pode continuar financiando a guerra em um futuro próximo, cortando gastos não relacionados à defesa.

"No cenário atual, Putin pode continuar assim por anos. Talvez sem avançar na linha de frente, onde não vemos nenhum progresso há um bom tempo, mas ainda assim conseguindo destinar recursos para a guerra", diz Ribakova.

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"Mesmo que o déficit continue como está, a Rússia ainda poderá arcar com os custos e não enfrentará nenhum tipo de crise financeira nem ficará em uma posição geopolítica frágil nos próximos 12 a 24 meses", argumenta Weafer.

Ainda assim, ele destaca os danos evidentes a longo prazo que estão sendo causados à economia e os problemas políticos que isso poderá acarretar no futuro: "Uma enorme distorção econômica e um panorama negativo de longo prazo que agora está gerando divisões no governo".

Ele acrescenta que a situação tem criado uma divisão entre os responsáveis pelo crescimento econômico e o Kremlin. A mensagem, segundo ele, é que a abordagem atual não poderia ser mantida, "se quisermos que a economia retorne a uma trajetória mais normal após a paz, o fim da guerra".

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