O conflito entre Estados Unidos e Irã pode impactar o Brasil, principalmente o preço do petróleo e uma possível valorização do dólar, o que pode refletir na inflação e no bolso do brasileiro.
São os iranianos que controlam o estreito de Hormuz, localizado entre o país e Omã e por onde é escoado um quinto da produção mundial de petróleo. O estreito é a rota de exportação de petróleo, conectando os maiores produtores do Golfo — como Arábia Saudita, Irã, Iraque e Emirados Árabes Unidos — ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico.
No sábado, 28, após os ataques realizados pelo Estados Unidos e Israel, que já levou a morte de mais de centenas de pessoas e do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, o Irã fechou a passagem pelo estreito, segundo informou a agência estatal, Tasnim. De acordo com a Reuters, embarcações têm recebido desde sábado um alerta que "nenhum navio está autorizado a passar pelo Estreito de Ormuz".
Na prática, a simples possibilidade de interrupção já é suficiente para pressionar os preços futuros do petróleo. Para Daniel Toledo, especialista em negócios internacionais e geopolítica do petróleo, o movimento atual do mercado está ligado à antecipação de risco. “O mercado não espera a escassez acontecer. Ele precifica a possibilidade. Se existe risco de interrupção em uma região que concentra parcela relevante da produção e da logística mundial, os preços sobem imediatamente”, afirma.
Antes mesmo da formalização do ataque, o barril do tipo Brent já havia registrado alta acumulada de 7,24% nas últimas quatro semanas, sinalizando que parte do impacto já vinha sendo precificada.
Petróleo mais caro e reflexos na inflação
De acordo com Mário Oliveira Filho, especialista em energia e infraestrutura, se o conflito permanecer restrito e durar uma ou duas semanas, o impacto na inflação tende a ser limitado. “Se o conflito durar uma ou duas semanas não terá impacto significativo na inflação brasileira, especialmente porque a Petrobras não segue a política de paridade com a cotação internacional, embora tenha como referência o petróleo Brent e o câmbio”, explica.
Ainda assim, o petróleo é um insumo sensível para a inflação. Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Vida, Previdência e Investimentos, destaca que a alta da commodity pode se refletir nos índices de preços. “Na medida que o petróleo é uma variável sensível e um dos componentes importantes da inflação ao varejo e ao atacado aqui no Brasil, a gente pode ver aí um impacto ao longo das próximas semanas nesses índices.”
Esse movimento tende a chegar ao bolso do consumidor principalmente por meio dos combustíveis, do frete e dos custos logísticos, com efeitos indiretos sobre alimentos e outros bens.
Dólar, aversão a risco e impacto no câmbio
O aumento da tensão geopolítica também elevou a aversão global ao risco, o que costuma fortalecer o dólar como moeda de proteção. Segundo William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, esse é um movimento típico de curto prazo. “Tradicionalmente, a tendência é que a gente tenha um aumento da aversão a risco, com investidores tentando migrar para ativos considerados mais seguros.”
Marcelo Mello reforça que esse ambiente pode pressionar o câmbio brasileiro. “O fato desse conflito ter uma sensibilidade geopolítica pode fazer também com que o dólar se valorize e faça com que investidores busquem os títulos públicos americanos.”
Já Mário Oliveira Filho avalia que não há interesse dos Estados Unidos em um dólar excessivamente forte e que isso limita uma escalada maior. “Para os Estados Unidos não interessa um dólar forte, e esta é uma das razões de que não haverá uma escalada.”
Política monetária e juros
Caso a alta do petróleo e a valorização do dólar pressionem a inflação, o Banco Central pode rever o ritmo de cortes de juros. Para Mário Oliveira Filho, a autoridade monetária tende a agir com cautela. “Certamente, com aumento da inflação e subida do dólar, por precaução o Banco Central pausará e prorrogará o seu cronograma de redução da taxa Selic (a taxa básica de juros), aguardando a evolução dos acontecimentos no Irã.”
Marcelo Mello também aponta esse risco. “Se isso de fato acontecer, isso no limite pode fazer com que o Banco Central mude a proposta de reduzir a taxa, o que está programado para 2026.”
Petrobras, balança comercial e efeitos mistos
O Brasil é exportador líquido de petróleo, o que pode gerar efeitos positivos na balança comercial. A Petrobras registrou recorde de exportação em 2025, com média de 765 mil barris por dia, chegando a picos superiores a 1 milhão de barris no quarto trimestre.
Segundo Mário Oliveira Filho, o efeito, porém, é ambíguo. “A capacidade instalada de refino é insuficiente para abastecer o mercado interno e a Petrobras tem que importar derivados de petróleo (gasolina e diesel).” Isso significa que o país se beneficia da exportação do óleo cru, mas permanece exposto ao custo de derivados mais caros.
William Castro Alves destaca ainda que a política de preços da Petrobras pode limitar os ganhos. “A Petrobras tem uma política de preços que não necessariamente repassa esses preços, ainda mais no ano eleitoral.”
China e reflexos indiretos para o Brasil
A crise também afeta a China, maior importadora global de petróleo. O país importa cerca de 11 milhões de barris por dia, sendo aproximadamente 2 milhões provenientes do Irã. Segundo Mário Oliveira Filho, esse volume pode ser substituído. “O volume do Irã é significativo, cerca de 2 milhões de barris, mas pode ser substituído pelo petróleo russo.”
Mesmo com aumento de custos, a tendência é que a China absorva parte do impacto para manter sua competitividade. “A necessidade de escoar sua produção para o mercado mundial fará com que estes custos adicionais sejam absorvidos por aumento de produtividade ou redução das margens.”
Para o Brasil, o efeito pode ser positivo. “Os reflexos no Brasil serão positivos, pois pode haver um aumento da importação de petróleo do Brasil pela China para compensar redução no fornecimento iraniano.”
O que chega ao bolso do brasileiro
No curto prazo, o principal impacto para o consumidor brasileiro tende a vir da combinação entre petróleo mais caro e câmbio pressionado. Isso pode afetar combustíveis, fretes, alimentos e outros preços sensíveis à logística. A intensidade desse efeito dependerá da duração do conflito e da capacidade de contenção da escalada no Oriente Médio.
Como resume Daniel Toledo, “hoje estamos diante de um choque de risco”. Se não houver interrupção física da oferta, a tendência é de volatilidade seguida de acomodação. Caso contrário, o impacto pode ser mais duradouro — e mais pesado para a inflação e o bolso do brasileiro.
Veja os locais dos ataques de EUA e Israel e a retaliação do Irã
Pontos vermelhos indicam locais onde explosões foram confirmadas. Teerã responde com mísseis contra bases americanas.
Legenda
Cidades atacadas no Irã:
Retaliação iraniana:
Mísseis balísticos e drones foram lançados contra instalações militares americanas no Iraque, no Catar e nos Emirados Árabes Unidos, em resposta direta aos bombardeios em território iraniano.