Petróleo e dólar: entenda como conflito entre EUA e Irã pode afetar o Brasil

Alta do preço do petróleo pode impactar nos preços da gasolina, frete e preço dos alimentos

2 mar 2026 - 04h57
Estreito de Ormuz – Divulgação
Estreito de Ormuz – Divulgação
Foto: Giro 10

O conflito entre Estados Unidos e Irã pode impactar o Brasil, principalmente o preço do petróleo e uma possível valorização do dólar, o que pode refletir na inflação e no bolso do brasileiro.

São os iranianos que controlam o estreito de Hormuz, localizado entre o país e Omã e por onde é escoado um quinto da produção mundial de petróleo. O estreito é a rota de exportação de petróleo, conectando os maiores produtores do Golfo — como Arábia Saudita, Irã, Iraque e Emirados Árabes Unidos — ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico.

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No sábado, 28, após os ataques realizados pelo Estados Unidos e Israel, que já levou a morte de mais de centenas de pessoas e do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, o Irã fechou a passagem pelo estreito, segundo informou a agência estatal, Tasnim. De acordo com a Reuters, embarcações têm recebido desde sábado um alerta que "nenhum navio está autorizado a passar pelo Estreito de Ormuz". 

Na prática, a simples possibilidade de interrupção já é suficiente para pressionar os preços futuros do petróleo. Para Daniel Toledo, especialista em negócios internacionais e geopolítica do petróleo, o movimento atual do mercado está ligado à antecipação de risco. “O mercado não espera a escassez acontecer. Ele precifica a possibilidade. Se existe risco de interrupção em uma região que concentra parcela relevante da produção e da logística mundial, os preços sobem imediatamente”, afirma.

Antes mesmo da formalização do ataque, o barril do tipo Brent já havia registrado alta acumulada de 7,24% nas últimas quatro semanas, sinalizando que parte do impacto já vinha sendo precificada.

Petróleo mais caro e reflexos na inflação

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De acordo com Mário Oliveira Filho, especialista em energia e infraestrutura, se o conflito permanecer restrito e durar uma ou duas semanas, o impacto na inflação tende a ser limitado. “Se o conflito durar uma ou duas semanas não terá impacto significativo na inflação brasileira, especialmente porque a Petrobras não segue a política de paridade com a cotação internacional, embora tenha como referência o petróleo Brent e o câmbio”, explica.

Ainda assim, o petróleo é um insumo sensível para a inflação. Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Vida, Previdência e Investimentos, destaca que a alta da commodity pode se refletir nos índices de preços. “Na medida que o petróleo é uma variável sensível e um dos componentes importantes da inflação ao varejo e ao atacado aqui no Brasil, a gente pode ver aí um impacto ao longo das próximas semanas nesses índices.”

Esse movimento tende a chegar ao bolso do consumidor principalmente por meio dos combustíveis, do frete e dos custos logísticos, com efeitos indiretos sobre alimentos e outros bens.

Dólar, aversão a risco e impacto no câmbio

O aumento da tensão geopolítica também elevou a aversão global ao risco, o que costuma fortalecer o dólar como moeda de proteção. Segundo William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, esse é um movimento típico de curto prazo. “Tradicionalmente, a tendência é que a gente tenha um aumento da aversão a risco, com investidores tentando migrar para ativos considerados mais seguros.”

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Marcelo Mello reforça que esse ambiente pode pressionar o câmbio brasileiro. “O fato desse conflito ter uma sensibilidade geopolítica pode fazer também com que o dólar se valorize e faça com que investidores busquem os títulos públicos americanos.”

Já Mário Oliveira Filho avalia que não há interesse dos Estados Unidos em um dólar excessivamente forte e que isso limita uma escalada maior. “Para os Estados Unidos não interessa um dólar forte, e esta é uma das razões de que não haverá uma escalada.”

Política monetária e juros

Caso a alta do petróleo e a valorização do dólar pressionem a inflação, o Banco Central pode rever o ritmo de cortes de juros. Para Mário Oliveira Filho, a autoridade monetária tende a agir com cautela. “Certamente, com aumento da inflação e subida do dólar, por precaução o Banco Central pausará e prorrogará o seu cronograma de redução da taxa Selic (a taxa básica de juros), aguardando a evolução dos acontecimentos no Irã.”

Marcelo Mello também aponta esse risco. “Se isso de fato acontecer, isso no limite pode fazer com que o Banco Central mude a proposta de reduzir a taxa, o que está programado para 2026.”

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Petrobras, balança comercial e efeitos mistos

Instalação marítima no setor de petróleo e gás – depositphotos.com / curraheeshutter
Foto: Giro 10

O Brasil é exportador líquido de petróleo, o que pode gerar efeitos positivos na balança comercial. A Petrobras registrou recorde de exportação em 2025, com média de 765 mil barris por dia, chegando a picos superiores a 1 milhão de barris no quarto trimestre.

Segundo Mário Oliveira Filho, o efeito, porém, é ambíguo. “A capacidade instalada de refino é insuficiente para abastecer o mercado interno e a Petrobras tem que importar derivados de petróleo (gasolina e diesel).” Isso significa que o país se beneficia da exportação do óleo cru, mas permanece exposto ao custo de derivados mais caros.

William Castro Alves destaca ainda que a política de preços da Petrobras pode limitar os ganhos. “A Petrobras tem uma política de preços que não necessariamente repassa esses preços, ainda mais no ano eleitoral.”

China e reflexos indiretos para o Brasil

A crise também afeta a China, maior importadora global de petróleo. O país importa cerca de 11 milhões de barris por dia, sendo aproximadamente 2 milhões provenientes do Irã. Segundo Mário Oliveira Filho, esse volume pode ser substituído. “O volume do Irã é significativo, cerca de 2 milhões de barris, mas pode ser substituído pelo petróleo russo.”

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Mesmo com aumento de custos, a tendência é que a China absorva parte do impacto para manter sua competitividade. “A necessidade de escoar sua produção para o mercado mundial fará com que estes custos adicionais sejam absorvidos por aumento de produtividade ou redução das margens.”

Para o Brasil, o efeito pode ser positivo. “Os reflexos no Brasil serão positivos, pois pode haver um aumento da importação de petróleo do Brasil pela China para compensar redução no fornecimento iraniano.”

O que chega ao bolso do brasileiro

No curto prazo, o principal impacto para o consumidor brasileiro tende a vir da combinação entre petróleo mais caro e câmbio pressionado. Isso pode afetar combustíveis, fretes, alimentos e outros preços sensíveis à logística. A intensidade desse efeito dependerá da duração do conflito e da capacidade de contenção da escalada no Oriente Médio.

Como resume Daniel Toledo, “hoje estamos diante de um choque de risco”. Se não houver interrupção física da oferta, a tendência é de volatilidade seguida de acomodação. Caso contrário, o impacto pode ser mais duradouro — e mais pesado para a inflação e o bolso do brasileiro.

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Veja os locais dos ataques de EUA e Israel e a retaliação do Irã

Pontos vermelhos indicam locais onde explosões foram confirmadas. Teerã responde com mísseis contra bases americanas.

 

Legenda

 

Cidades atacadas no Irã:

 

Retaliação iraniana:

Mísseis balísticos e drones foram lançados contra instalações militares americanas no Iraque, no Catar e nos Emirados Árabes Unidos, em resposta direta aos bombardeios em território iraniano.

Dados coletados por agências internacionais. Os pontos vermelhos representam zonas de impacto confirmadas em 28 de fevereiro de 2026.
Fonte: Portal Terra
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