Depois de décadas de alguma volatilidade econômica, desindustrialização e de perda de participação nas cadeias de negócios globais, o Brasil está agora frente a uma conjunção histórica de fatores que pode ajudar a trazer um crescimento maior e a colocar o País numa posição melhor e mais importante dentro dos negócios globais. A conclusão vem de estudo do Boston Consulting Group (BCG) com base em entrevistas com empresários e executivos de grandes empresas do Brasil.
O relatório identificou megatendências globais que podem servir como grandes oportunidades para o Brasil, de uma forma que poucas vezes se alinharam em décadas. "Não significa que vamos aproveitar a conjuntura, mas as oportunidades estão aí e agora são maiores do que já foram", afirma o sócio sênior do BCG no Brasil, Daniel Azevedo, um dos autores do estudo.
Somado a tudo isso, o País desenvolveu uma economia digital bastante avançada, com 95% dos brasileiros utilizando a internet diariamente e 70%, o sistema de pagamentos instantâneos Pix, que virou referência global e inovação financeira.
"A nossa competência digital vem crescendo. O Pix é uma ferramenta única, democratizando acessos financeiros. E temos startups superdinâmicas, com referências muito fortes e um número de unicórnios relevante", afirma Azevedo. "Mesmo que a nossa economia tenha visto o setor industrial sofrendo nos últimos anos, ela tem se diversificado e isso dá condições para o Brasil almejar participação maior em cadeias globais."
O País já está entre os 15 principais ecossistemas de startups do mundo e entre os 10 com mais unicórnios, especialmente nos setores de serviços e fintechs. Em 2025, empresas de tecnologia investiram US$ 2 bilhões em data centers no Brasil, e a capacidade instalada pode quadruplicar até 2030.
Alternativa geopolítica
Dentro da complexa agenda geopolítica, com conflitos armados, disputas tarifárias e agressividade por garantir zonas de influência envolvendo os Estados Unidos sob a presidência de Donald Trump, a China e a Rússia, a tradição diplomática de neutralidade também conta a favor do Brasil. "Tanto que hoje o Brasil mantém relações diplomáticas saudáveis com Estados Unidos, China, Rússia, Europa e até com o Irã", afirma Azevedo.
Isso dá mais segurança para investidores internacionais apostarem em trazer recursos ao País, evitando riscos de regiões com maior possibilidade de receberem sanções ou de serem envolvidas em conflitos armados. "Existem os seus soluços, como a imposição de tarifas pelos Estados Unidos, mas isso retrocedeu, em especial, com a decisão da Suprema Corte americana (que considerou irregular o uso dos mecanismos invocados por Trump para definir o aumento das taxas de importações)", diz o consultor.
Houve avanços ainda com a assinatura do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, e de conversas com a Índia. Com tudo isso, o Brasil tende a ganhar espaço dentro das cadeias globais.
"Essa combinação de condições não existia há 10 anos", afirma Azevedo. "Não existem tantas opções no mundo com características do Brasil, com mercado interno grande, relações multilaterais de comércio, energia limpa e estabilidade institucional. Por mais que o Brasil não seja o país mais competitivo e, que num mundo em que custo decidia tudo certamente seríamos um perdedor, quando olhamos para as condições atuais, há grandes chances para aumentar a relevância que o País tem na dinâmica econômica global."
No passado recente, das duas primeiras décadas do novo milênio, quando se pensava em cadeias de produção e em onde escolher fazer a montagem de produtos e distribuir fábricas pelo mapa, as empresas tinham como principal critério o custo. A resposta, então, era a China e paulatinamente outros países asiáticos, à medida que os custos trabalhistas aumentaram na maiores cidades do país mais populoso do mundo.
"Depois, começou a se falar de nível de serviço, de proximidade com o consumidor final. E, principalmente após a covid, se considerou riscos de demanda e surgiu um movimento de fabricação em regiões próximas, o nearshore", analisa Azevedo. "Agora, se fala em resiliência, em risco a choques. Com o Brasil como um país neutro, sem conflitos iminentes, o que não é verdade para muitos países do mundo, o Brasil tem um papel a jogar."
O mercado interno de tamanho invejável também conta a favor, por que, caso ocorra qualquer outro evento inesperado, como uma nova pandemia, e o comércio marítimo ficar dificultado, a produção pode ser direcionada para o consumidor local.
'Temos condições de virar uma nova China'
"A tese do nosso estudo não é que o Brasil seja o grande vencedor da nova conjuntura global. Mas que ele passa a ser mais atrativo do que era, desde que aproveite a oportunidade", diz. "Não temos condições de virar uma nova China, mas temos condições de ocupar espaços mais relevantes que ocupamos hoje."
Seis oportunidades
De forma resumida, o relatório do BCG elencou seis grandes frentes de crescimento em que o Brasil está bem posicionado atualmente:
- Gerar mais valor a partir de seus recursos biológicos, com foco na bioeconomia e na monetização da biodiversidade;
- Acelerar o desenvolvimento de minerais críticos, criando cadeias de valor locais;
- Liderar a transição energética global, atraindo indústrias intensivas em energia;
- Ampliar a inserção em cadeias globais de alto valor agregado, com maior competitividade industrial;
- Desenvolver o País como base de inovação digital e serviços globais;
- Modernizar infraestrutura para sustentar produtividade e integração logística.
Em todas elas, há iniciativas avançando e espaços a ocupar. Por exemplo, além do já citado acima, uma empresa como a Natura já é conhecida por usar ativos biológicos em seus produtos, mas é possível evoluir muito mais no aproveitamento desses recursos. Já também nos últimos meses foram feitos anúncios do estabelecimento de data centers no País, e isso pode crescer bastante com o uso de energia renovável e a necessidade de empresas de inteligência artificial a terem cada vez mais capacidade de processamento de dados pelo mundo.
Os grandes desafios para atingir esse futuro mais otimista são bem conhecidos. Segundo o estudo do BCG e os pontos levantados pelos líderes brasileiros de negócios ouvidos, capturar as oportunidades exigirá ações coordenadas entre os setores público e privado, com avanços em infraestrutura, inovação e acordos comerciais.
Mais reformas, como a tributária, também são consideradas cruciais para destravar o chamado custo Brasil, que ainda representa entre R$ 400 bilhões e R$ 480 bilhões por ano em custos adicionais de operação.
Gomes Neto, CEO da Embraer, chega a citar a necessidade de diminuir as barreiras comerciais, para aumentar a competitividade, e de as empresas aumentarem o foco em produtos de mais valor agregado. O estudo, porém, conclui que em cada uma dessas áreas o Brasil tem feito "progresso encorajador".