Passagens mais caras? Saiba como alta de 54% no querosene de aviação afeta seu bolso

Reajuste pode encarecer passagens e influenciar na operação das companhias, dizem especialistas; alta é causada pela guerra no Oriente Médio

2 abr 2026 - 04h57
Nesta quarta-feira, 1º, a Petrobras anunciou um reajuste de 54,63% no preço do querosene de aviação (QAV) para as distribuidoras
Nesta quarta-feira, 1º, a Petrobras anunciou um reajuste de 54,63% no preço do querosene de aviação (QAV) para as distribuidoras
Foto: Gemini

Quem pretende viajar de avião deve se preparar para um aumento nos preços das passagens em breve, segundo especialistas ouvidos pelo Terra. Nesta quarta-feira, 1º, a Petrobras anunciou um reajuste de 54,63% no preço do querosene de aviação (QAV) para as distribuidoras, que passa a custar R$ 5,495 por litro. O aumento segue a política de ajustes mensais prevista em contrato e já vinha sendo aplicado gradualmente: em março, o combustível havia registrado alta de 9,4%.

Esse aumento acompanha a valorização do petróleo e de seus derivados no mercado internacional, impulsionada pela guerra no Oriente Médio, que resultou no bloqueio do Estreito de Ormuz, uma rota estratégica por onde circula cerca de 20% da oferta global da commodity.

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Efeito nas passagens e na operação das companhias aéreas

O economista e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie), Adriano Pires, destacou que o querosene de aviação é um dos principais itens de custo das companhias aéreas. "Você pode ter um aumento de 12% a 15% no valor das passagens aéreas", explicou. Ele acrescentou que, além do repasse para os consumidores, as empresas podem adotar medidas como reduzir o número de voos ou otimizar rotas com menor ocupação para conter os custos.

Pires também comparou o cenário brasileiro com o internacional. "Lá fora, passagens internacionais já subiram bastante, por exemplo, a executiva 50%, a internacional 80%. Aqui no Brasil, represamos muito o aumento do querosene, mas agora não teve mais como segurar", destacou.

A professora de economia do Insper, Juliana Inhasz, compartilhou projeções semelhantes, ressaltando que o impacto do aumento do combustível depende do repasse parcial ou integral para as passagens. "Se o custo com combustíveis dobra, podemos esperar uma alta nos preços das passagens de 10%, até 16%, dependendo se o repasse for parcial ou integral", explicou.

Na prática, isso significa que uma passagem que hoje custa R$ 1.500 poderia subir entre R$ 180 e R$ 225, chegando a um preço final de cerca de R$ 1.680 a R$ 1.725. Já em voos internacionais, o impacto tende a ser ainda maior: uma passagem de R$ 5.000, por exemplo, poderia subir entre R$ 600 e R$ 750, passando a custar entre R$ 5.600 e R$ 5.750.

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Especialista aponta que empresas podem adotar medidas que incluem reduzir o número de voos ou otimizar rotas com menor ocupação para conter os custos
Foto: Alex Silva/Estadão / Estadão

Ela também apontou que as companhias podem buscar estratégias de eficiência e reorganização de rotas para reduzir o impacto. "Em um primeiro momento, as companhias vão repassar alguma coisa, mas ao longo do tempo podem gerar eficiências para que o cenário fique mais confortável", afirmou. Juliana destacou ainda que o grau de concorrência influencia diretamente o repasse de custos. "Quanto menor for a concorrência, maior tende a ser o repasse. Em mercados mais pulverizados, o repasse será menor", disse.

Quanto ao prazo para que o efeito total se consolide, a economista estimou que os impactos mais evidentes devem aparecer nos próximos meses. "As companhias compram combustível com antecedência para se proteger da volatilidade. Os efeitos maiores devem aparecer de forma mais nítida daqui um mês e meio, dois meses", explicou.

Ela também comentou sobre possíveis ajustes na oferta de voos, corroborando Pires ao afirmar que pode haver redução de oferta, cortes de rotas ou diminuição de frequência, especialmente em trechos com menor demanda. "No primeiro momento, as empresas absorvem parte do custo, mas em situações persistentes, essas medidas podem se tornar necessárias", acrescentou.

Reflexos no frete de produtos importados 

O aumento do querosene de aviação também deve refletir nos preços de produtos importados, alertou  Juliana. "Uma parte considerável do custo das mercadorias importadas é o transporte, especialmente itens perecíveis ou de alto valor agregado. O brasileiro vai sentir isso no custo maior dos produtos importados", explicou. Ela acrescentou que variações cambiais podem agravar ainda mais o efeito. "Se a taxa de câmbio for pressionada, os preços sobem ainda mais", disse.

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O economista Adriano Pires reforçou o alerta sobre os efeitos no transporte de mercadorias. "Qualquer produto transportado por avião terá o frete mais caro, e isso inevitavelmente vai chegar ao consumidor", destacou, fazendo uma analogia com o diesel no transporte rodoviário. Pires enfatizou que a alta nos combustíveis é um fenômeno global. "O aumento do preço do petróleo, do gás natural e, consequentemente, dos derivados, está gerando inflação em todo o mundo", afirmou.

Diante desse cenário, Juliana sugeriu que os consumidores adotem estratégias de planejamento para reduzir impactos no bolso. "O consumidor já tem se deparado com passagens mais caras. É importante se programar, buscar voos com antecedência e considerar alternativas de concorrência para tentar reduzir o impacto", explicou.

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O que diz a Associação Brasileira das Empresas Aéreas

Em nota, a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) destacou que o querosene de aviação passa a representar 45% dos custos operacionais das companhias e que o aumento compromete a abertura de novas rotas e a oferta de serviços, restringindo a conectividade e a democratização do transporte aéreo.

"Embora mais de 80% do QAV consumido no Brasil seja produzido internamente, sua precificação acompanha a paridade internacional, intensificando os efeitos das oscilações do preço do barril de petróleo sobre o mercado doméstico", afirmou a entidade.

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A Abear reforçou ainda a necessidade de implementação de mecanismos que minimizem os impactos do aumento do QAV, garantindo desenvolvimento, conectividade e sustentabilidade econômica no setor aéreo.

Petrobras tenta amenizar impacto do aumento

Após o anúncio do reajuste, a Petrobras informou que disponibilizará ao mercado, até segunda-feira, 6, um termo de adesão para reduzir os efeitos do aumento do preço do querosene de aviação (QAV), com validade a partir de 1º de abril.

A medida permite que as distribuidoras que atendem a aviação comercial paguem um aumento de apenas 18% em abril, bem abaixo dos 54,8% previstos em contrato. A diferença poderá ser parcelada em seis vezes, com a primeira parcela a partir de julho de 2026.

O objetivo, segundo a estatal, é preservar a demanda pelo produto e mitigar os efeitos do reajuste no setor aéreo, garantindo o bom funcionamento do mercado. De acordo com a Petrobras, o mecanismo contribui para a saúde financeira dos clientes da companhia, mantendo a neutralidade financeira da estatal, mesmo diante da forte elevação das cotações internacionais dos derivados de petróleo, intensificada por tensões geopolíticas no Oriente Médio.

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A empresa também informou que o parcelamento poderá ser oferecido nos meses de maio e junho, com parâmetros a serem definidos. 

Fonte: Portal Terra
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