PRUDENTÓPOLIS (PR) - Mal o sol raiou em Prudentópolis, no centro-sul do Paraná, e José Luiz de Carvalho, gerente de um posto de combustível, já está debruçado no computador, com o celular em viva voz, iniciando o que ele chama de um verdadeiro garimpo: encontrar diesel. Com a guerra no Irã, o derivado do petróleo se tornou um líquido precioso e escasso. Na quarta-feira, 25, ele precisava de 45 mil litros para abastecer um dos tanques que estava vazio. E não achava o combustível "nem para remédio".
É como se fosse um leilão de algo que não existe. "Faz 15 dias que estamos nesta luta. Aqui, faz mais de 12 horas que acabou o diesel comum, que é o mais procurado, e não conseguimos repor. Encontrei 5 mil litros em Curitiba, mas a capacidade da nossa carreta é de 45 mil. Vale a pena um deslocamento de mais de 500 km para trazer tão pouco combustível? É complicado", diz.
O dilema de Carvalho não é apenas encontrar o diesel e deslocar carretas-tanques para o transporte. Ele precisa também explicar para a clientela do Auto Posto Camp, um dos principais da cidade, porque os preços não param de subir. "Não tem como absorver, precisamos repassar o preço que já vem mais alto lá da refinaria e não para de subir. Antes da guerra, o litro do diesel comum estava a R$ 5,74. Hoje, está a R$ 7,95, mas chegou a custar R$ 8,59 o litro", diz.
Em Prudentópolis, que tem a economia sustentada pelo agro, a frota no campo chega a 3.250 equipamentos, incluindo 2.040 tratores e 215 colheitadeiras, o que dá uma média de uma máquina agrícola para cada 15,6 moradores. É uma frota movida a diesel, assim como os 1.388 caminhões e carretas e a maior parte das 5.361 caminhonetes que circulam pelas fazendas, segundo o Departamento Estadual de Trânsito (Detran-PR).
Na quarta-feira, 25, de quatro postos visitados pela reportagem, dois estavam sem o diesel e em um deles faltava também etanol. Conforme o presidente do Sindicato Rural, Edimilson Rickli, além do alto custo dos fertilizantes, o preço do diesel e o risco de faltar contribuem para que muitos produtores desistam de fazer o cultivo do inverno.
O plantio de trigo e cevada começa em abril e, além de máquinas para distribuir o calcário, são mobilizados tratores e plantadeiras que consomem diesel. O impacto mais sensível, por ora, é no custo da produção. "Entramos na reta final da colheita e dependemos muito do fornecimento regular de diesel para tratores, caminhões e colheitadeiras, mas não está acontecendo. Além do risco de faltar, em duas semanas o preço do litro subiu quase 2 reais", diz.
Componentes de fertilizantes, como os fosfatos, tiveram alta entre 15% e 20%. A alta mais expressiva foi no preço da ureia, fertilizante que acelera o crescimento das plantas e melhora a produtividade. Segundo Rickli, como o insumo é importado principalmente do Irã, país que está no centro do conflito, os preços não param de subir. "Esta manhã (quarta-feira, 25) estava a US$ 770 a tonelada e agora já está em US$ 800 dólares. Antes da guerra no Irã a tonelada custava US$ 470 dólares, o que mostra uma alta muito expressiva."
Segundo o produtor, o cenário que junta a disparada no diesel, o risco de desabastecimento e a alta nos insumos é bastante preocupante na cidade movida pelo agro. Nos últimos anos, a cidade registrou a abertura de centros comerciais, revendas de veículos e um hotel de alto padrão. As lojas de insumos agrícolas se espalham por quase todos os quarteirões do centro. Uma dela exibe a escultura um boi nelore em tamanho natural.
O crescimento no comércio melhorou a arrecadação do município e permitiu mais investimentos na infraestrutura urbana.
Estudiosa da cultura local, a professora Fátima Silva Carvalho lembra que a cidade foi bastante afetada pela guerra da Rússia com a Ucrânia, já que grande parte da população é descendente dos ucranianos que colonizaram Prudentópolis no final do século 19. No início da guerra, a cidade acolheu refugiados do país de origem. A cultura bizantina está presente em vários templos religiosos, como a Igreja São Josafat, que é tombada pelo patrimônio cultural.