Parcerias estratégicas da Sanofi com a Fiocruz e o Instituto Butantan impulsionam a produção nacional de vacinas no Brasil. Baseados em acordos de transferência total de tecnologia para imunizantes como gripe e poliomielite, os projetos garantem autossuficiência ao SUS e reduzem a dependência de importações. O modelo fortalece o Complexo Industrial da Saúde brasileiro e assegura previsibilidade de longo prazo para os investimentos da multinacional francesa no país.
Ampliar o acesso das pessoas à saúde, ainda mais com as mudanças climáticas, é uma das frentes de trabalho da indústria farmacêutica Sanofi. Dentro dessa meta, a empresa da França tem acordos com o Instituto Butantan e a Fiocruz para testar vacinas no Brasil. Caso os testes sejam bem-sucedidos, a tecnologia é transferida para as instituições brasileiras, e o produto passa a ser fabricado inteiramente no País.
O primeiro acordo foi assinado em 1974 entre a Fiocruz e o Instituto Mérieux, que mais tarde se tornaria parte da Sanofi, para auxiliar no combate à epidemia de meningite que acontecia no Brasil no período. Com o Butantan, a parceria foi iniciada em 1999 e é focada no combate à gripe e transferência de tecnologia.
Em 2025, a Sanofi e a Fiocruz ampliaram a cooperação, com a assinatura de um acordo que estabelece bases para cooperação científica e técnica, com combinação e intercâmbio de conhecimentos, recursos e cientistas entre as instituições. Esse modelo é replicável em outros países, segundo a biofarmacêutica francesa.
Para a Sanofi, o principal benefício é a previsibilidade em relação aos produtos, que terão um mercado garantido caso sejam aprovados. "São investimentos importantes, com volumes e produção importantes. Então, o que o modelo de parceria traz é previsibilidade na aquisição, porque, como a transferência se faz ao longo de 10 anos, permite dar um horizonte", avalia Guillaume Pierart.
Tanto o Instituto Butantan quanto a Fiocruz destacam que os acordos preveem transferência total de tecnologia para fabricação no Brasil, com integração à cadeia do SUS e acesso aos imunizantes pela população brasileira.
Para que uma parceria seja fechada, deve ser seguido um protocolo que envolve análise de viabilidade técnica e econômica, due diligence das capacidades industriais, modelagem de custos e comprovação de alinhamento com as prioridades do SUS e da política de fortalecimento do Complexo Econômico e Industrial da Saúde, a partir do regulamento das Parcerias para Desenvolvimento Produtivo (PDP) estabelecido pelo Ministério da Saúde.
Atualmente, a Fiocruz e a Sanofi têm parceria para fabricação e transferência de tecnologia de duas vacinas já utilizadas no SUS: a IPV, contra a poliomielite, sendo que 100% dos bebês que se vacinam no sistema público recebem este imunizante; e a hexavalente, contra seis doenças (difteria, tétano, coqueluche, poliomielite, hepatite B e Hib), utilizada para vacinação de bebês prematuros nascidos com até 33 semanas de gestação.
"Essas parcerias integram uma política de Estado que visa à internalização de tecnologias complexas para o fortalecimento do Complexo Econômico e Industrial da Saúde a partir do poder de compra do Estado, contribuindo para a redução, de forma estrutural, da dependência do País de importações de insumos e produtos farmacêuticos estratégicos", comenta Priscila Ferraz Soares, vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde (VPPIS) da Fiocruz.
O Butantan cita como exemplo de sucesso na parceria o fornecimento de vacina contra os vírus da influenza, que causam a gripe. Embora a origem da tecnologia tenha sido a Sanofi, o aprimoramento do processo, a adaptação às cepas locais e a eficiência em escala são expertises da instituição brasileira, que se tornou autônoma nessa produção.
Assim, caso seja necessário fazer modificações porque o vírus que circula aqui é diferente, isso será possível. Da mesma forma, se for preciso se antecipar e vacinar a população da região Norte localizada acima da Linha do Equador contra cepas que circulam no hemisfério Norte, também haverá capacidade técnica para isso.
Conforme nota do Butantan, com o domínio da tecnologia, é possível contar com um abastecimento robusto e contínuo, blindando o país contra a escassez global e garantindo a autossuficiência a longo prazo. Segundo o Butantan, foi uma negociação visando à sustentabilidade do SUS e à redução do déficit da balança comercial da saúde.
"É um desafio importante para uma empresa industrial atender a um mercado público tão grande quanto o SUS, sobretudo quando se trata de produtos biológicos complexos de fabricação. Eu diria que o Brasil é um dos países que tem parcerias mais sofisticadas", conclui Pierart.