A futurista Michelle Schneider tentou desmistificar o pânico em torno da inteligência artificial (IA) e da automação no fim da tarde desta sexta-feira, 7, no último dia da Rio Innovation Week, no Píer Mauá, no Rio. Com o tema "O seu trabalho vai existir daqui a 5 anos?", a especialista — com passagens por plataformas como Google, LinkedIn e TikTok — trouxe um diagnóstico direto: o emprego formal como conhecemos hoje não será o mesmo, mas a grande mudança não é a substituição em massa de humanos por máquinas, e sim a forma como organizamos o trabalho.
Para embasar sua tese, a pesquisadora comparou o momento atual da IA à chegada da eletricidade no fim do século 19. O uso da energia elétrica nas indústrias não gerou um impacto imediato porque as fábricas continuavam desenhadas para o modelo antigo. O ganho real só veio mais de quatro décadas depois, já no início do século 20, quando o fluxo do trabalho foi inteiramente redesenhado.
Na palestra, Michelle destacou três transições fundamentais que vão redesenhar a dinâmica corporativa. Na primeira delas, chamada "de executor para arquiteto", o profissional deixa de ser quem faz o trabalho para se tornar o orquestrador, que desenha o fluxo de tarefas e delega o trabalho para as máquinas. Atualmente, segundo Michelle, a rotina profissional costuma ser dividida em 20% de planejamento e 80% de execução. Com o tempo, essas taxas tendem a se inverter.
A segunda transição foi chamada por Michelle "de especialista a generalista criativo". Ou seja, a era da especialização perde espaço e a demanda crescente será por profissionais generalistas, curiosos com interesses diversos, capazes de conectar áreas muito distintas, usar repertório crítico e ter letramento tecnológico para criar seus próprios agentes de IA e fluxos de automação.
O século dos generalistas curiosos
"Os especialistas construíram o século 20, e os generalistas curiosos vão construir o século 21", afirmou.
Por fim, a terceira transição é "do emprego único à carteira de projetos", em que a estrutura tradicional do contrato de trabalho abre caminho para o trabalho fracionado e de múltiplos projetos ocorrendo simultaneamente. A IA, segundo ela, reduz as barreiras de entrada para quem quer empreender e permite que grupos menores realizem o que antes era tarefa de um departamento inteiro.
"Teremos times fixos para uma força híbrida de trabalho, com funcionários CLT, terceirizados e freelancers trabalhando juntos no mesmo projeto", afirmou. "E dois novos tipos estão chegando, os trabalhadores fracionados (que trabalham em diferentes projetos ao mesmo tempo) e os agentes de IA."
Segundo Michelle, por enquanto, os dados macroeconômicos tanto do Brasil quanto dos Estados Unidos não indicam um desemprego em massa causado diretamente pela IA. Segundo ela, no entanto, cargos de entrada para recém-formados podem sofrer redução. Com tarefas operacionais e análises básicas, esses cargos serão os primeiros a serem absorvidos pela automação, dando início ao redesenho do fluxo de trabalho nas empresas.
"Então, respondendo à pergunta inicial 'o emprego vai existir?', respondo que provavelmente não como é hoje, mas teremos mais trabalho do que nunca."