O Novo Desenrola, programa de renegociação de dívidas anunciado nesta segunda-feira pelo governo federal, introduz um arcabouço mais intervencionista em comparação com sua primeira versão, avaliaram analistas do BTG Pactual, apontando que o programa traz obrigações explícitas para as instituições financeiras participantes, em vez de uma adesão meramente voluntária.
Eles destacam que os bancos deverão "limpar automaticamente" (desnegativar) consumidores com dívidas de até R$100; estender ofertas de renegociação nas principais linhas de crédito -- incluindo cartões de crédito, cheque especial, empréstimos pessoais e financiamento estudantil (Fies) -- e cumprir condicionantes comportamentais e sociais.
"Esse desenho amplia de forma relevante o alcance do programa", afirmaram Luiz Guanais e equipe em relatório enviado a clientes.
De acordo com a equipe do BTG, enquanto o Desenrola anterior teve foco no volume renegociado, a nova versão enfatiza a reintegração ao crédito em escala, mirando uma base mais ampla de pessoas negativadas.
"É importante destacar que o caráter automático da limpeza de pequenas dívidas reduz atritos e deve acelerar a normalização dos scores de crédito, algo crucial em um sistema no qual até mesmo pequenas inadimplências podem comprometer significativamente o acesso ao crédito formal", afirmaram.
Eles ressaltaram que o Novo Desenrola ocorre em um momento em que os balanços das famílias estão em níveis historicamente extremos, "o que reforça a urgência de uma ação de política pública".
Ao mesmo tempo, acrescentaram, os indicadores de inadimplência seguem elevados nas principais linhas de crédito -- cartões de crédito e empréstimos pessoais -- e os registros negativos nas agências de crédito afetam dezenas de milhões de consumidores.
Nesse contexto, enfatizam, a política obrigatória de "limpeza do nome" para dívidas de até R$100, combinada com mecanismos de renegociação que oferecem descontos de até 90% e teto de juros de 1,99% ao mês, ataca diretamente a base da pirâmide do crédito.
Na visão da equipe do BTG, as regras para o uso do saldo do FGTS para quitar dívidas em aberto do Novo Desenrola reduzem o uso indevido dos recursos e garantem que a injeção de liquidez seja direcionada diretamente à desalavancagem. O programa permite uso de até 20% do saldo do FGTS (ou R$1.000) para quitar dívidas, com repasse direto aos bancos.
Guanais e equipe também chamaram a atenção para a proibição de fazer apostas online por parte de quem acessar o Novo Desenrola. "Isso é particularmente relevante diante do rápido crescimento do mercado de apostas no Brasil, com estimativas do setor apontando expansão superior a 200% ao ano em 2025 e uma parcela crescente da renda das famílias sendo direcionada a essas atividades. Ao restringir o acesso para os participantes do programa por um período de 12 meses, o governo busca redirecionar recursos financeiros para consumo essencial e pagamento de dívidas."
O Novo Desenrola, programa de renegociação de dívidas para famílias, micro e pequenas empresas e agricultores familiares, tem previsão de utilizar até R$15 bilhões em garantias da União para viabilizar juros mais baixos aos devedores, com um impacto fiscal de até R$5 bilhões.
CICLO DO CRÉDITO
Sob a perspectiva do ciclo de crédito, os analistas do BTG avaliaram que o principal mecanismo de transmissão está na reabilitação do acesso ao crédito formal. Mas ponderaram que o impacto sobre a originação de novos financiamentos tende a ser gradual, uma vez que os bancos continuam condicionados por taxas de juros elevadas e por uma postura mais avessa ao risco.
Eles estimam uma estabilização dos volumes, e não uma aceleração acentuada, com efeitos mais visíveis em categorias financiadas, como eletrônicos, vestuário e comércio eletrônico, onde a penetração do crédito pode superar 50% a 70% das transações.
Também ponderam que o impacto quantitativo deve variar entre os setores, com varejo alimentar, que já absorve cerca de 35% a 40% do consumo das famílias, podendo ser beneficiado por essas medidas. Ainda assim, mantiveram cautela quanto à magnitude e à duração desse impacto.
"O Desenrola 2.0 deve ajudar a estabilizar as tendências de consumo no curto prazo, mas uma recuperação sustentada dependerá, em última instância, de um ambiente macroeconômico mais favorável — especialmente da queda das taxas de juros e da redução do peso financeiro sobre as famílias."