Movimento Sou de Algodão mira 1 milhão de peças rastreadas 'da semente ao guarda-roupa' em 2026

Iniciativa da Abrapa mantém a plataforma SouABR, com o objetivo de atestar que a cadeia da matéria-prima esteja alinhada às boas práticas ESG

16 jan 2026 - 10h12

O movimento Sou de Algodão, criado pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), quer impulsionar ainda mais o uso do algodão rastreável "da semente ao guarda-roupa", no País. A iniciativa, que completa 10 anos de engajamento pelo uso do algodão brasileiro, pretende chegar ao rastreio de 1 milhão de peças feitas com a fibra até o final de 2026.

Para isso, o movimento vai ampliar a participação de empresas do setor à plataforma SouABR, que disponibiliza dados de rastreamento do Algodão Brasileiro Responsável (ABR) e atesta que a cadeia da matéria-prima está alinhada às boas práticas ESG. A adesão, voluntária, terá taxa de anuidade (entenda abaixo).

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A meta é que, no segundo semestre de 2026, as companhias desse mercado façam adesão ao sistema e disponibilizem na plataforma os dados que envolvem a cadeia algodoeira de suas peças produzidas de ponta a ponta. A iniciativa quer dar conta da robustez da fibra no Brasil, o terceiro maior produtor de algodão do mundo.

Sou de Algodão lidera iniciativa que rastreia cadeia de produção da fibra
Sou de Algodão lidera iniciativa que rastreia cadeia de produção da fibra
Foto: Sou de Algodão/Divulgação / Estadão

O sistema, existente desde 2021, funcionava até então como um projeto experimental, com um número de empresas reduzido. Ao todo, 19 marcas e indústrias têxteis parceiras participaram da fase piloto e contabilizaram, juntas, pouco mais de 640 mil peças rastreadas, com dados acessíveis para o consumidor final.

"(No projeto inicial), nosso convite foi para (algumas empresas da) cadeia têxtil trabalharem conosco para falar sobre os atributos dessa matéria-prima, que tem sustentabilidade e rastreabilidade no Brasil, mas que são pontos completamente desconhecidos pelo consumidor final", explica a diretora de Relac¸o~es Institucionais da Abrapa, Silmara Ferraresi, que é gestora do movimento Sou de Algodão.

A nova fase é de um programa consolidado, ressalta a diretora. "Em 2026, pretendemos receber todas aquelas empresas da cadeia têxtil brasileira que tiverem interesse em rastrear as suas peças e trazer a transparência completa para o consumidor final."

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O sistema é aberto à participação de empresas dos setores de fiação, malharia e tecelagem, confecção e varejo. Atualmente, entre as marcas engajadas na plataforma de rastreamento estão nomes como Calvin Klein, C&A, Reserva, Renner, Döhler, Almagrino e Vicunha.

A diretora de Relações Institucionais da Abrapa, Silmara Ferraresi, é gestora do movimento Sou de Algodão
Foto: Sou de Algodão/Divulgação / Estadão

As condições para ampliação da rede são positivas. Segundo Ferraresi, em termos de sustentabilidade, o Brasil vem se aprimorando nos últimos anos e desenvolvendo mecanismos para entregar um algodão com valor agregado à agenda para o mercado.

Ela ressalta que, por exemplo, o País se tornou o maior fornecedor de algodão com licenciamento BetterCotton, uma das maiores iniciativas globais de sustentabilidade para a produção de algodão.

"O Brasil acabou se tornando um grande player (frente aos pares internacionais)", diz a gestora. "Na última temporada, mais de 40% de tudo que comercializado no mundo com licenciamento BetterCotton vem de fazendas brasileiras. (Além disso), em torno de 81% da safra 24/25 é algodão produzido com certificação socioambiental do programa ABR."

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Como funciona o SouABR

O SouABR funciona como um mapeamento socioambiental da origem do algodão e permite ao consumidor final o acesso a dados de rastreabilidade total de peças confeccionadas com a fibra, com a chancela da Abrapa. Os produtos precisam ter o mínimo de 50% de algodão em sua composição para participar do programa.

As informações podem ser acessadas por meio de um QR Code presente nas peças, que exibirão dados de todos os elos da produção, desde as fazendas produtoras até a varejista do ponto final de venda. A checagem se dá na integração das informações com a base de dados da Abrapa.

"Em cada etapa, vamos amarrando as informações. Se em algum momento alguma informação não bate, o lote não se consolida, e aí essas peças não terão a rastreabilidade confirmada", explica Ferraresi.

O processo utiliza tecnologia blockchain para impedir que sejam feitas alterações nas informações e para garantir autenticidade e integridade dos dados. O consumidor consegue visualizar informações detalhadas como: contato do produtor do algodão, nota fiscal de venda da fiação, número de lote das peças finais, histórico e fotografia das empresas, entre outros.

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Mesmo com as condições de sustentabilidade atendidas pelas empresas, o processo de tecnologia e validação é mais complexa devido às dimensões da cadeia. Há coleções que chegam a envolver 17 fazendas e 21 produtores apenas em uma calça jeans, como o caso da C&A, por exemplo, cita a gestora.

Etiquetas de rastreio do algodão em jeans da C&A
Foto: Sou de Algodão e C&A/Divulgação / Estadão

"Nós enfrentamos muitos desafios porque esse é um programa completamente novo no Brasil. Rastrear produtos têxteis é muito diferente de rastrear alimentos, por exemplo, que tem uma cadeia muito mais curta. Mas estamos felizes com os resultados."

Adesão ao rastreamento

O lançamento da nova "Poli´tica de Adesa~o do programa SouABR" foi feito no final do ano passado, em São Paulo (SP), durante o Congresso Internacional da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). Nela, foram estabelecidos crite´rios, responsabilidades e benefi´cios para as empresas participarem da cadeia rastrea´vel.

Um desses pontos indica que, agora, as novas empresas participantes passarão a pagar para integrar a rede. Até então, a participação na plataforma, na versão piloto, era gratuita.

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A taxa de adesão varia entre pouco mais de R$ 1,8 mil para microempreendedores individuais (MEIs) a R$ 7,5 mil para empresas de grande porte. Para as varejistas, a anuidade do SouABR será de a partir de R$ 77 mil por até 50 mil peças rastreadas.

Ferraresi diz que a medida tem o objetivo de garantir a manutenção do site, com equipe que mantenha os dados ativos e disponíveis. "Como trabalhamos com blockchain, há um processo de registro, manutenção e arquivamento dos dados e também de acompanhamento da atuação das empresas na plataforma, e isso demanda equipe técnica."

O Sou de Algodão não estipulou uma meta para o número de empresas esperado para adesão à nova fase do SouABR, mas diz que o objetivo maior é chegar ao primeiro 1 milhão de peças rastreadas, se possível, em 2026.

"O sucesso do programa (para alcançar a meta) não depende só do nosso esforço, mas de o quanto a nossa indústria está preparada para um processo de rastreabilidade de ponta a ponta, tendo condições de trabalhar com esses dados - com qualidade e idoneidade. Então é um processo no qual a empresa precisa se adaptar."

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