RIO E SÃO PAULO - A desaceleração da inflação em junho reforçou a percepção de que o processo de desinflação segue em curso e manteve aberta a possibilidade de um novo corte da Selic na reunião de agosto do Comitê de Política Monetária (Copom), embora economistas ressaltem que a decisão continuará condicionada aos próximos indicadores de atividade e inflação. O IPCA avançou 0,16% no mês, após alta de 0,58% em maio, ficando abaixo das expectativas do mercado.
Com isso, a inflação acumulada no ano chegou a 3,36%, enquanto a taxa em 12 meses recuou para 4,64%, de 4,72% em maio, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A taxa mensal ficou 0,42 ponto porcentual abaixo da registrada em maio e também abaixo da mediana da pesquisa Projeções Broadcast, de 0,31%, cujas estimativas variavam de 0,26% a 0,37%. A desaceleração do acumulado em 12 meses também refletiu um efeito de base, já que em junho de 2025 a alta foi de 0,24%.
Alimentação, especialmente no consumo em casa, é destaque
A surpresa com o índice abaixo do projetado levou economistas a reforçar a avaliação de que a inflação corrente segue em processo de moderação. O Citi classificou o resultado como "indiscutivelmente melhor do que o esperado", destacando a surpresa positiva em alimentação, especialmente no consumo dentro de casa.
Com peso de 21,75% no índice, Alimentação e bebidas foi o único dos nove grupos pesquisados a registrar deflação em junho e respondeu pelo maior impacto negativo sobre o IPCA, de 0,05 ponto porcentual.
Dentro do grupo, a alimentação no domicílio caiu 0,39%, após alta de 1,65% em maio, enquanto a alimentação fora do domicílio desacelerou para 0,15%, de 0,49%. Segundo o gerente do IPCA, Fernando Gonçalves, o movimento queda de Alimentação e bebidas (-0,24%) reflete uma combinação entre o alívio dos combustíveis sobre os custos ao consumidor, a devolução de parte das altas anteriores e o aumento da oferta de alguns produtos, como o café como exemplo. No entanto, itens como batata, alho e feijão carioca continuaram em alta, mostrando que o comportamento dos alimentos permaneceu heterogêneo.
Ainda assim, essa melhora nos preços dos alimentos foi mais intensa do que a esperada, sobretudo entre os produtos in natura, destaca o Itaú Unibanco, reforçando a avaliação de inflação mais comportada no curto prazo. Em relatório assinado pela economista Luciana Rabelo, o banco afirmou que "o balanço de risco para a projeção de IPCA no ano segue assimétrico para baixo".
Nos demais grupos investigados pelo IBGE, Transportes subiu 0,17%, após queda de 0,46% em maio, contribuindo com 0,03 ponto porcentual para o índice, mesmo com nova queda dos combustíveis (-0,48%). A gasolina recuou 0,12% e o etanol caiu 3,09%.
Já Habitação foi um fator de pressão do mês. O grupo avançou 0,63% e teve impacto de 0,10 ponto porcentual, impulsionado pela energia elétrica residencial. Embora a alta das tarifas tenha desacelerado de 3,67% para 1,53%, o item permaneceu como o principal impacto individual do IPCA, com contribuição de 0,06 ponto porcentual.
Quais outros itens contribuíram para o resultado
Apesar dessa pressão, o índice mostrou melhora qualitativa. A parcela de subitens com alta caiu de 65% em maio para 54% em junho, indicando desaceleração mais disseminada dos preços.
Na avaliação da economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Natalie Victal, o IPCA apresentou um "qualitativo bom", com surpresa favorável também nos núcleos. Segundo ela, o resultado reforça a melhora do balanço de riscos para a inflação de 2026 e sustenta um cenário de estabilidade ou leve viés de queda para as projeções de longo prazo, embora o quadro fiscal, a proximidade das eleições e o comportamento das expectativas ainda recomendem "máxima cautela" por parte do Banco Central.
Na mesma linha, o ASA destacou que a melhora foi além dos itens mais voláteis, com, a média dos núcleos avançou 0,21% em junho, a menor variação desde setembro de 2025, acumulando alta de 4,44% em 12 meses, com destaque para a desaceleração dos serviços de alimentação.
Os bens industrializados também apresentaram comportamento favorável, com preços de vestuário e bens duráveis, como automóveis e eletrodomésticos, "em patamar bem comportado", destaca o economista Alexandre Maluf, da XP.
Para a Capital Economics e a XP, o resultado "deixa a porta aberta" para um corte adicional de 0,25 ponto porcentual na Selic em agosto, embora a decisão dependa dos próximos indicadores de inflação e atividade. Já o Citi considera que o dado de mais cedo deve ter influência limitada sobre a política monetária.
Quais itens jogaram para cima o índice?
Apesar da perda de força em junho, o IPCA acumulou alta de 3,36% no primeiro semestre, acima dos 2,99% registrados no mesmo período de 2025 e o maior resultado para os seis primeiros meses do ano desde 2022 (5,49%).
Segundo Gonçalves, alimentos e combustíveis concentraram a maior parte dessa pressão. Alimentação e bebidas acumulou alta de 4,56% e respondeu pelo maior impacto no índice (0,98 ponto porcentual), enquanto Educação subiu 5,29% e Habitação contribuiu com 0,45 ponto porcentual, puxada pela energia elétrica.
Entre os subitens, o tomate acumulou alta de 82%, com impacto de 0,16 ponto porcentual, enquanto a gasolina avançou 6,37% e respondeu pelo maior impacto individual do IPCA em 2026 (0,32 ponto porcentual).
Para o Citi, a projeção de IPCA é de 4,8% para o fim de 2026. Ja o Société Générale revisou a projeção para 5,26%, cerca de 20 pontos-base abaixo da estimativa anterior.