Lula bate golpismo, mas tem dificuldade para conter a própria gastança

Gastos menores são raramente compatíveis com os padrões administrativos e políticos do presidente, mas podem ser — e provavelmente serão — indispensáveis para garantir contas sustentáveis

16 abr 2025 - 13h41

Os golpistas em busca de anistia deveriam pedir perdão também às autoridades da vizinhança — do Mercosul, da Bolívia, do Chile e dos demais países sul-americanos. Todos, afinal, poderiam ter sido afetados se um golpe triunfasse na maior potência econômica da região, maior também pela área geográfica e pela extensão de sua fronteira.

É muito difícil, talvez impossível, estimar quanta violência poderia ter ocorrido. Os planos divulgados até agora incluíam assassinatos de três autoridades de Brasília, mas o morticínio poderia ter sido muito maior, se a conspiração resultasse em conflito com armas. Conspiradores podem ter pensado em ação armada, mas os principais chefes militares honraram a farda e preservaram o compromisso democrático.

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Fracassada toda conspiração ensaiada nos últimos anos, o governo, agora empenhado em evitar um tombo econômico, é chefiado por um presidente — goste-se ou não de seu desempenho — eleito democraticamente e confrontado com obstáculos típicos da democracia. Ou quase típicos, porque o Executivo tem de negociar com parlamentares ligados a uma liderança golpista bem conhecida, com direitos políticos suspensos por outras estripulias, mas livre para circular e para se envolver no dia a dia da política. Restabelecer os direitos políticos desse condenado pode ser um dos efeitos de uma anistia precipitada, generosa em excesso e perigosa para o regime democrático.

Rolf Kuntz: Convencer Lula a limitar a gastança continuará sendo uma das tarefas mais difíceis de Haddad
Rolf Kuntz: Convencer Lula a limitar a gastança continuará sendo uma das tarefas mais difíceis de Haddad
Foto: Wilton Junior/Estadão / Estadão

Se estivessem de fato interessados no futuro do País e no bem-estar de seus concidadãos, os parlamentares estariam mais atentos à insegurança econômica internacional, mais empenhados em facilitar o crescimento brasileiro, mais interessados na criação de empregos produtivos, mais atentos à administração e mais comprometidos com a governança. Gastariam menos com emendas orçamentárias, evitariam desperdiçar dinheiro público e seriam menos provincianos em suas ações. Seriam, enfim, parlamentares de fato federais e teriam menos tempo para defender líderes golpistas e seus seguidores.

Depois de dois anos de crescimento razoável, com inflação no limite de segurança, emprego em alta e contas públicas ainda administráveis, o Brasil enfrenta um cenário global de muita incerteza, com riscos para o comércio e para o sistema de cooperação entre as nações.

Em uma semana, o mercado elevou de 1,97% para 1,98% a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2025. Para 2027 foi mantida a estimativa de 2%. O governo mantém a expectativa de expansão econômica de 2,31% em 2025 e estima avanço de 2,50% em 2026 e 2,59% em 2027. O mesmo conjunto de estimativas aponta inflação de 4,90% neste ano, 3,50% no próximo e 3,10% em 2027. Em 2026 e 2927 o aumento de preços ao consumidor deverá ficar, segundo o governo, dentro do espaço de tolerância da meta oficial.

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O governo também projeta contas públicas com superávit equivalente a 0,25% do PIB em 2026, 0,50% em 2027 e 1% em 2028. Sem aumento de tributos, contas públicas superavitárias dependerão da combinação de efeitos do crescimento econômico e da contenção de gastos do governo.

Gastos menores são raramente compatíveis com os padrões administrativos e políticos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas podem ser — e provavelmente serão — indispensáveis para garantir contas sustentáveis e dívida pública estável ou declinante como porcentagem do PIB. Convencer seu chefe a limitar a gastança continuará sendo uma das tarefas mais difíceis do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, encarregado das finanças públicas da maior economia latino-americana.

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