Lula modula discurso sobre fim da escala 6x1: 'Temos de encontrar o que é bom para cada um'

Presidente defendeu mudança na jornada para garantir mais 'comodidade' e 'prazer' aos trabalhadores, mas disse ser preciso entender que 'há especificidades' entre categorias

3 mar 2026 - 21h47
(atualizado às 22h06)

BRASÍLIA E SÃO PAULO - Em meio aos debates sobre o fim da escala de trabalho 6x1, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendeu nesta terça-feira, 3, uma mudança na jornada de trabalho para garantir mais "comodidade" e "prazer" aos trabalhadores. Ao mesmo tempo, disse ser preciso entender que "há especificidades" entre as diferentes categorias e que um entregador pode querer uma escala diferente da de um sindicalista, por exemplo.

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Foi um discurso mais pacificador e menos em linha com o que a militância petista normalmente defende e aplaude. O discurso de Lula, por exemplo, foi mais voltado às diferentes demandas da sociedade (dos trabalhadores e dos empresários) do que o de autoridades que o antecederam, como o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, e a ministra do Planejamento, Simone Tebet.

"O que nós estamos tentando é construir um conjunto de propostas que interessa a empresários e a trabalhadores, que interessa ao País, para dar mais comodidade nesse mundo nervoso, para que as pessoas tenham mais tempo de estudar, de ficar com a família, de descansar", disse o presidente em participação na sessão solene de abertura da 2ª Conferência Nacional do Trabalho (CNT), em São Paulo.

"Possivelmente, a jornada que os entregadores de pizza querem é uma diferente daquela que os trabalhadores querem na Volkswagen ou a na Mercedes-Benz. Então, não é preciso a gente carimbar todo mundo na mesma coisa. O que é preciso é a gente garantir que todos sejam premiados em função da sua realidade. Porque senão, a gente vai ficar no mesmo", afirmou.

A modulação no discurso de Lula é uma forma de atingir também outra parcela do eleitorado: aqueles que se veem mais como microempreendedores do que trabalhadores. É a mesma lógica que o presidente passou a seguir ao defender a regulação da atividade dos trabalhadores de aplicativo, por exemplo.

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"Qual é a jornada ideal? Para muitas categorias, há jornadas diferenciadas, e nós temos que encontrar o que é bom para cada um. Você pode ter até uma regra geral, mas na hora de regulamentar essa regra geral, vai ter que cair na especificidade, em função da realidade de cada categoria", afirmou.

O petista disse que a mudança na jornada de trabalho vai ser discutida na Câmara e no Senado e "vai sair alguma coisa". Afirmou que será uma mudança boa se for "resultado de um acordo entre empresários, trabalhadores e governo".

"O governo não vai fazer como antigamente, vender para um lado, porque há 30 anos atrás, há 20 anos atrás, os empresários se utilizavam muito do peso da máquina do Estado, da força do Estado, para prejudicar os trabalhadores. Dessa vez não vai acontecer. Nós não iremos contribuir para prejudicar os trabalhadores, não iremos contribuir. E também não queremos contribuir com o prejuízo da economia brasileira", afirmou.

Lula completou: "Nós queremos contribuir para que de forma bem pensada, bem harmonizada, a gente possa encontrar uma solução".

Ao mesmo tempo, o presidente criticou a desigualdade existente nas plataformas de entregas de refeições e outros produtos e de transporte. Disse que há "empresários hoje das plataformas que têm mais dinheiro do que o PIB de muitos países pobres, e isso não é justo". Afirmou, também, que há pessoas que "recebem dividendos, esses também não pagam imposto de renda".

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"Os empresários sempre vêem um jeito de escapar. Quem não consegue escapar é a pessoa que recebe o holerite no final do mês", afirmou.

Alckmin: 'Ser humano não é máquina'

O vice-presidente Geraldo Alckmin disse que os trabalhadores precisam de saúde mental e direito ao descanso. "O ser humano não é máquina para trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar. Não. O ser humano precisa ter saúde mental, ter direito à família, descanso", disse Alckmin, que também é ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

O vice-presidente voltou a dizer que a redução da jornada de trabalho é uma tendência mundial, citando ganhos de produtividade permitidos pela adoção de novas tecnologias, como a inteligência artificial. "Essa é uma tendência do mundo inteiro. E precisamos construí-la através do diálogo, para ter o melhor encaminhamento dessa tendência mundial."

Alckmin também aproveitou o discurso para destacar avanços econômicos do governo Lula, citando que o País vive a menor "taxa de desconforto" da história, com índices baixos tanto de inflação quanto de desemprego.

"A taxa de desconforto é uma soma entre inflação e desemprego. Então, quando a inflação estava baixa, o desemprego estava alto. Quando o desemprego estava baixo, a inflação estava alta. Hoje, nós temos a menor taxa de desconforto. Inflação baixa com desemprego baixo", salientou Alckmin.

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"É a primeira vez que nós temos, simultaneamente, inflação baixa com desemprego baixo", acrescentou o vice-presidente.

Marinho: 'Economia está madura para redução de jornada'

O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, afirmou que a economia do País está "madura" para redução de 44 para 40 horas de jornada semanal. Ao defender o fim da escala 6x1, pauta relevante eleitoralmente para o governo federal, a redução tem impacto nos custos, mas pode melhorar produtividade.

"É evidente que a redução de jornada de trabalho gera impacto, gera impacto, não se precise, nos custos das empresas, mas seguramente ele pode melhorar de forma determinante o ambiente de trabalho, as condições de vida das pessoas", disse Marinho. "Temos que apostar, portanto, no ganho de produtividade, porque a economia brasileira precisa de ganho de produtividade.

O ministro disse que o aumento da produtividade também passa por melhores condições e satisfação no ambiente laboral. Segundo ele, o debate sobre jornada de trabalho deve permanecer aberto e ser conduzido por meio do diálogo.

Marinho acrescentou ainda que é necessário discutir modelos de escala para setores que precisam funcionar de forma contínua. "Não tem assunto proibido no debate; vamos continuar dialogando para chegar a acordo sobre jornada de trabalho", disse.

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Tebet: 'Dizer que País vai quebrar é não conhecer a realidade'

A ministra do Planejamento, Simone Tebet, defendeu o fim da escala 6x1, a principal bandeira eleitoral do governo no Congresso.

"Dizer que um país como este não suporta e vai quebrar com o fim da escala 6x1 é não conhecer a realidade do Brasil", disse a ministra. "Dizer que o Brasil não suporta o fim da escala 6x1 é desobedecer a Constituição Federal. A Constituição diz que todos são iguais perante a lei e diz quais são os direitos sociais."

Tebet também defendeu o fim da escala sem redução de remuneração, argumentando que a medida é possível e justa. Ela acrescentou que, apesar de o Brasil ser um país muito rico, grande parte da população ainda vive em condições de pobreza.

Com foco nas "mulheres trabalhadoras" em seu discurso, Tebet salientou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cumpriu a promessa de campanha ao garantir a igualdade salarial entre homens e mulheres. Segundo ela, se mulheres e homens têm a mesma produtividade no trabalho, devem receber o mesmo salário.

Tebet é considerada pré-candidata ao Senado por São Paulo. Nos bastidores, também cogitam o seu nome ao governo estadual.

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