Itaú, Bradesco e Santander lucraram R$ 22,6 bilhões no terceiro trimestre, alta anual de 2,4%, pressionados pelos juros altos e pelo endividamento das famílias. Diante do avanço da inadimplência, os bancos adotaram cautela, migrando para linhas de crédito mais seguras e com menores spreads. O Itaú liderou com folga ao lucrar R$ 12,6 bilhões, o Bradesco somou R$ 7,1 bilhões em lenta recuperação, e o Santander sofreu queda de 28%, com lucro de R$ 2,9 bilhões afetado pelo agronegócio e baixa renda.
Os três principais bancos privados de varejo do país — Itaú Unibanco, Bradesco e Santander Brasil — registraram lucro combinado de R$ 22,6 bilhões no terceiro trimestre. O número representa crescimento de 2,4% na comparação com igual período do ano passado e de 0,6% ante os três meses imediatamente anteriores.
O aperto no bolso das famílias e no caixa das empresas continuou como o tema central na temporada de balanços, diante do ritmo lento de alívio dos juros. Com a renda dos consumidores comprometida, sobra menos espaço para honrar compromissos de crédito em dia, em um movimento que eleva a inadimplência no setor bancário.
O fenômeno se refletiu em níveis bem distintos de deterioração nos resultados dos bancos. O Santander enfrenta a pressão mais forte entre as três instituições, diante de desafios nas carteiras de agronegócio de baixa renda.
O Bradesco, por sua vez, deu novos sinais de evolução na recuperação estrutural que vem implementando há dois anos, mas o ambiente macroeconômico restritivo retardou a melhora da rentabilidade e impôs revés na inadimplência. Já o Itaú seguiu como o mais resiliente do grupo, como consequência da disciplinada gestão de risco que, desde antes da piora do ciclo, vinha dando preferência para linhas de crédito mais seguras.
A reação dos mercados à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve complicar ainda mais as perspectivas. O petista tem dado poucos sinais de que pretende promover um ajuste fiscal significativo, considerado uma das condições para que o Banco Central consiga reduzir mais rapidamente a Selic, atualmente em 13,75% ao ano.
"O contexto pós-eleitoral reforça um cenário de taxas de juros elevadas por um período prolongado, aumentando a atratividade de negócios (bancários) com lucros previsíveis, forte retorno de capital e geração de caixa no curto prazo", afirmam analistas do Citi.
Para o Bradesco, que abriu a temporada de balanços, a mudança no cenário degenerou o humor do mercado com a recuperação capitaneada pelo presidente da instituição, Marcelo Noronha. O banco teve o 11.º trimestre consecutivo de crescimento sequencial do lucro líquido, a R$ 7,1 bilhões, graças à resiliência das receitas com serviços e ao controle dos custos.
No entanto, viu seu retorno sobre patrimônio cair para 15,6%, embora tenha havido um efeito das operações de aumento de R$ 10 bilhões no capital, sem o qual a métrica teria ficado praticamente estacionada em 16,1%. Ao apresentar os números, Noronha reconheceu como complexo o quadro macroeconômico. "Com comprometimento da renda das famílias maior e endividamento das empresas, temos de ter mais cautela e andar mais devagar", disse.
No Santander, o lucro líquido registrou tombo de 28% no comparativo anual, a R$ 2,9 bilhões no terceiro trimestre. O resultado produziu retorno sobre o patrimônio 5,6 pontos porcentuais mais baixo, em 11,9%, na contramão da meta de elevar o indicador a 20% até 2028, estabelecida pela matriz espanhola. Em Madri, a ação da matriz recuava 5%, influenciada em parte pelo Brasil.
"São números obviamente abaixo do patamar de rentabilidade que buscamos", afirmou Gilson Finkelsztain, presidente do Santander Brasil, em teleconferência com analistas. "Ao mesmo tempo, precisam ser considerados o cenário macroeconômico que estamos passando e o processo de rebalanceamento do banco."
Já o Itaú teve um trimestre de relativa estabilidade, com lucro líquido de R$ 12,6 bilhões e retorno sobre o patrimônio líquido de 23,6%, de longe o maior do setor. O banco continuou mostrando disciplina na gestão do crédito e de custos, mas apresentou desempenho fraco na geração de receitas, principalmente em bancos de capitais.
"Os resultados vieram muito bem em termos absolutos e melhor ainda em termos relativos, quando comparados com os desempenhos de outros nomes no mercado", disse Renato Lulia, diretor de Estratégia Corporativa, Relações com Investidores e M&A Proprietário do banco, em entrevista ao Estadão/Broadcast.
Bancos restringem operações mais lucrativas em nome da segurança
O apetite ao risco restrito, em meio às incertezas macroeconômicas, também esfriou as receitas dos três principais bancos privados de varejo do País com operações que rendem juros. Juntos, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander Brasil registraram R$ 70,9 bilhões em margem financeira no terceiro trimestre, alta de 1,8% em relação aos três meses imediatamente anteriores.
O resultado representa desaceleração após a expansão de mais de 2% registrada no trimestre anterior, como efeito da cautela que se impôs no setor. O pano de fundo é semelhante ao dos últimos meses: Selic de dois dígitos, piora no endividamento das famílias, dificuldades no caixa das empresas, elevado comprometimento de renda. São os ingredientes para a escalada da inadimplência e das despesas com provisões contra calotes.
Para proteger os balanços, as instituições financeiras reduzem a exposição a linhas de crédito mais arriscadas e redirecionam a preferência para as modalidades que contêm garantia. Na prática, o crédito pessoal direto (CDC) e o cartão de crédito para faixas menores de renda cedem espaço para empréstimos imobiliários e o consignado.
Estas escolhas buscam blindar os bancos de uma deterioração mais acentuada da inadimplência, mas costumam demorar alguns meses até diluir os indicadores de calotes. Também vêm a um custo pesado: por envolverem operações com spreads estruturalmente mais baixos, reduzem os ganhos com receitas de juros, ao mesmo tempo em que o custo de captação arrefece em ritmo comedido. A dinâmica, então, comprime a margem financeira.
O movimento é mais aparente no Santander Brasil, cuja margem amargou queda de 4,2% em 12 meses, a R$ 15,8 bilhões no processo. O banco está em processo de "de-risking" (redução de risco) para uma carteira mais sólida. "O spread da alta renda é cerca de metade do massificado e o das PMEs menores, o dobro do das maiores, e a carteira antiga de spread alto ainda está amortizando", afirmam analistas da Genial Investimentos.
O Santander também enfrenta pressão de um portfólio de passivos que se ajusta mais rapidamente que o de ativos, o que aumenta a sensibilidade da tesouraria às oscilações dos juros. Com a Selic caindo em ritmo mais fraco que o esperado originalmente, a margem financeira com o mercado piorou para um saldo negativo de R$ 895 milhões.
A tendência é de que a rotação siga produzindo efeitos negativos na margem da instituição financeira. "O contexto macroeconômico e o rebalanceamento da carteira ainda trarão impactos de curto prazo na margem", afirmou Carlos Muñiz, diretor financeiro do Santander Brasil.
No Bradesco, a margem financeira também perdeu ímpeto, em alta de 2,4% no confronto anual, para R$ 21,4 bilhões no trimestre. Segundo o banco, o mix mais conservador e o apetite moderado na originação contribuíram para a desaceleração, com preferência pela rentabilidade ajustada ao risco.
O crescimento das provisões pressionou a margem líquida, que desconta do cálculo as despesas com provisões contra calotes. A tendência é de que essa linha caminhe para o trecho inferior da faixa estabelecida no guidance, de R$ 42 bilhões a R$ 48 bilhões. Mas o presidente do Bradesco, Marcelo Noronha, disse ter uma visão positiva para a margem bruta. "Estamos crescendo também em portfólios que trazem não só um retorno ajustado ao risco muito alto, mas também uma margem convidativa, com uma duration (prazos) longa", disse.
O Itaú, por sua vez, espera uma desaceleração da margem nos próximos meses. O maior banco privado do País elevou a exposição a operações de spreads mais baixos, como imobiliário e consignado privado, em um movimento que retirou R$ 400 milhões das receitas com juros. Mesmo assim, a linha seguiu resiliente, com alta de 7,8% no confronto anual, a R$ 34,6 bilhões, diante de um volume maior de ativos e operações estruturadas no segmento do atacado.
"O desenho é crescer em clientes mais resilientes, com produtos garantidos, que veem com spreads menores, mas a gente mais do que compensa isso tendo perdas menores", disse Lulia. "Então, o resultado ainda é positivo para o banco."