Inflação "transitória" dos EUA completa cinco anos e ainda incomoda

17 mar 2026 - 10h20

O pior surto inflacionário dos EUA em uma geração completa cinco anos este mês, um choque econômico ‌que ainda gera debates de toda ordem, influencia a política nacional e frustra autoridades do Federal Reserve que tentam trazer o ritmo de aumento de preços de volta à sua meta de 2%.

Quando a queda vertiginosa da inflação no início da pandemia da Covid-19 gerou preocupações com uma perigosa espiral descendente de salários e preços, foi considerado um bom sinal quando os preços começaram a subir mais de 2% ao ano em março de 2021. Autoridades do Fed até planejaram incentivar a tendência emergente com a manutenção das taxas de juros baixas.

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"Queremos uma inflação de 2%, e não em uma base transitória", disse o presidente do ⁠Fed, Jerome Powell, em uma coletiva de imprensa naquele mês, em uma declaração do tipo "cuidado com o que você deseja" que assombraria o banco central. Os banqueiros ‌centrais disseram esperar que a inflação ficaria acima de meta naquele ano, mas não muito, e que segurariam qualquer esforço para desacelerar a economia com alta de juros até que o aumento da inflação se mostrasse duradouro.

Mas o ritmo continuou a se acelerar. No final do ano, o índice de preços de Despesas ‌de Consumo Pessoal (PCE, na sigla em inglês), que o Fed usa para definir sua meta, estava ‌aumentando a uma taxa anual de mais de 6%, o triplo do seu alvo. O pico só foi atingido depois de passar de 7% ⁠em junho de 2022, com o Fed, naquele momento, se esforçando para recuperar o atraso com aumentos acentuados e rápidos das taxas. A inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor (CPI) chegou a 9% naquele mês, maior alta desde 1981, quando o Fed estava no processo de domar um descontrole ainda pior dos preços.

As cicatrizes -- políticas, financeiras e econômicas -- não desaparecerão rapidamente.

Veja o que aconteceu com a inflação nos últimos cinco anos:

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PRODUTOS ESSENCIAIS X SALÁRIOS

"As pessoas odeiam a inflação" era um mantra popular entre as autoridades do Fed quando elas adotaram uma série historicamente rápida de aumentos de juros em 2022 para controlar a alta de preços, ‌embora soubessem que o crédito mais restrito causaria dificuldades ao tornar casas ou carros novos inacessíveis para alguns consumidores devido ao custo de financiamento. A política monetária funciona, ‌em parte, desestimulando a demanda por meio do aumento ⁠do custo do crédito, com a demanda ⁠mais fraca aliviando a pressão para aumentar preços.

Um risco ainda maior era um "pouso forçado" da inflação na forma de aumento do desemprego ou até mesmo de uma recessão. Isso ⁠não aconteceu dessa vez, apesar de muitos economistas importantes acharem que era inevitável.

No entanto, é fácil entender ‌por que as autoridades do Fed estavam dispostas ‌a correr esse tipo de risco. A inflação funciona como um imposto e deixa todos em situação pior. Nos últimos seis anos, de fato, a inflação anulou a maior parte dos aumentos na renda pessoal, atingindo mais fortemente os menos favorecidos. Um dólar hoje equivale a cerca de 79 centavos de dólar em janeiro de 2020.

PARA COMPRADORES DE IMÓVEIS, UMA CURA DOLOROSA

Os economistas às vezes dizem que a solução para a inflação é mais ⁠inflação, já que os preços altos acabarão matando a demanda. Mas, para o Fed, a solução para a inflação são taxas de juros mais altas. Com a elevação da taxa básica de juros, uma série de outros custos de empréstimos aumenta, especialmente o de financiamento de imóveis.

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Os aumentos das taxas do Fed a partir de 2022 ocorreram em um momento incomum. A política monetária frouxa do banco central que se consolidou durante a crise financeira de 2007 a 2009 condicionou os consumidores dos EUA, por mais de uma década, a hipotecas muito baratas -- mais ‌baratas do que em qualquer outro momento da história recente. A mudança abrupta de volta para custos de financiamento historicamente mais normais foi um choque. As expectativas desempenham um papel importante na economia e na política, e o público ainda está se adaptando ao fato de que o "dinheiro barato" acabou por ⁠enquanto.

Uma taxa de hipoteca que aumenta de menos de 3% para mais de 6% adiciona centenas de dólares aos pagamentos mensais e pode ser frustrante para aqueles que descobrem que sua renda não pode mais sustentar a compra de uma casa.

A BATALHA CONTINUA

Enquanto o Fed se reúne esta semana, com a expectativa de manter as taxas de juros estáveis, os EUA ainda estão enfrentando as consequências do que os economistas passaram a considerar como uma colisão entre cadeias de suprimentos limitadas pela pandemia e a demanda desencadeada por trilhões de dólares de gastos federais da era Covid.

Ao mesmo tempo, a medida de inflação preferida do Fed permanece cerca de um ponto acima da meta, em torno de 3%, a política monetária continua um pouco apertada e um novo choque de preços pode estar se desenvolvendo com os preços do petróleo acima de US$100 por barril devido à guerra liderada pelos EUA e por Israel contra o Irã e os preços da gasolina chegando a US$3,70, cerca de 25% mais altos desde o início das hostilidades em 28 de fevereiro.

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O presidente Donald Trump, que usou a raiva em relação à inflação e aos preços altos como um poderoso discurso de campanha para a reeleição em 2024, está lidando com as preocupações contínuas dos eleitores em relação à "acessibilidade", com os preços dos alimentos ainda subindo, as taxas de hipoteca de imóveis mantidas acima de 6% e o sistema de saúde e outros custos importantes que estressam os orçamentos familiares.

Ele prometeu que os preços cairiam. Isso não aconteceu. Raramente caem.

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