Por Stéphane Geneste, da RFI em Paris
O princípio do modelo das empresas aéreas de baixo custo (low cost) se apoia em uma promessa simples: oferecer passagens a preços muito baixos por meio da compressão máxima de despesas. Para isso, tudo é otimizado. As frotas são padronizadas, as rotações das aeronaves são rápidas, os serviços adicionais são cobrados à parte e, sobretudo, as margens obtidas permanecem muito reduzidas.
Em contextos econômicos favoráveis, esse modelo se mostra eficiente. No entanto, essa estrutura torna as companhias extremamente sensíveis a qualquer aumento de custos, deixando-as com pouca capacidade para absorver choques externos.
Basta que um item de despesa suba de forma significativa, como ocorre atualmente com o querosene — que sofre um aumento excepcional com a disparada do preço dos combustíveis —para que todo o equilíbrio econômico fique ameaçado.
As companhias aéreas de baixo custo são, além disso, estruturalmente dependentes desse produto. Diferentemente de outros setores, é praticamente impossível reduzir ou substituir esse gasto, que é uma despesa incompressível.
Companhias presas ao próprio modelo
Diante desse cenário, estas empresas enfrentam um dilema. Sua principal vantagem competitiva são as tarifas reduzidas e seu público alvo é especialmente sensível a qualquer aumento de preços. Repassar o aumento dos custos ao consumidor significa correr o risco de perder passageiros.
Por outro lado, manter preços baixos implica absorver prejuízos. Foi exatamente o que ocorreu com a Spirit Airlines, já fragilizada por dificuldades financeiras e falta de liquidez. No último sábado, a companhia aérea americana cancelou todos os voos nos EUA e encerrou as atividades. O pacote de ajuda de US$ 500 milhões do governo americano não foi suficiente para salvar a empresa diante da disparada dos preços do petróleo. A Spirit Airlines foi a primeira empresa de aviação vitima das consequencias da guerra no Irã.
Outras empresas tentam se adaptar ao novo cenário. Algumas optam por reduzir a oferta de trajetos, como a Transavia, companhia aérea de baixo custo do grupo Air France, que suprimiu parte de seus voos nas próximas semanas. Outras, como a espanhola Volotea, passaram a adotar sobretaxas tarifárias para compensar o aumento do preço do combustível. Esses ajustes, no entanto, têm alcance limitado e visam, sobretudo, conter as perdas.
Modelo questionado pela instabilidade econômica
O cenário atual levanta uma questão central: o modelo de baixo custo estaria chegando a seu limite? Há alguns anos, ele já vem sendo pressionado. As expectativas dos passageiros evoluíram, com maior demanda por conforto e qualidade de serviço. Ao mesmo tempo, as companhias aéreas tradicionais passaram a oferecer tarifas mais competitivas, aproximando-se do segmento de baixo custo.
Além disso, esse modelo se baseia em um equilíbrio frágil: combustível relativamente barato e demanda aquecida. Em períodos de instabilidade econômica, esse equilíbrio se rompe. As companhias de baixo custo, que já otimizaram praticamente todas as despesas, dispõem agora de poucos instrumentos para reagir.
Em um contexto de crise energética, a capacidade de resistência das empresas parece limitada. A falência da Spirit Airlines pode, assim, marcar um ponto de inflexão, ao expor as fragilidades de um modelo eficiente em períodos de estabilidade, mas altamente vulnerável a choques econômicos de grande magnitude.