'Governo prejudica acionista minoritário da Petrobras ao questionar leilão', diz Adriano Pires

Para consultor, estatal está sendo obrigada a vender com preços inferiores aos do mercado internacional e perde receita com intervenção do governo; Lula ameaçou cancelar certame

3 abr 2026 - 17h22
(atualizado às 18h31)

O governo prejudicou o acionista minoritário da Petrobras ao questionar e ameaçar cancelar os leilões de GLP (gás de cozinha) realizados na última terça-feira, 31, pela empresa, de acordo com Adriano Pires, fundador da consultoria Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). "A Petrobras perde receita e acaba prejudicando o acionista minoritário. O leilão de GLP é o exemplo máximo disso, porque, quando você o faz, surge o preço verdadeiro (do GLP), o preço do mercado", diz ele.

O leilão registrou ágios superiores a 100% em relação aos preços normalmente praticados e foi alvo de ataques do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na quinta-feira, 2, ele afirmou que iria anular o certame.

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Também na quinta, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) informou ter dado início à fiscalização sobre os leilões e o Ministério de Minas e Energia (MME) comunicou ter solicitado à Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), do Ministério da Justiça, a avaliação de possíveis práticas abusivas na comercialização do GLP.

Lula afirmou que irá anular leilão de gás de cozinha da Petrobras
Lula afirmou que irá anular leilão de gás de cozinha da Petrobras
Foto: Pedro Kirilos/Estadão / Estadão

Pires diz que o governo pode adotar políticas públicas para reduzir o impacto da alta do petróleo, o que tem feito de forma equivocada ao financiar as medidas com impostos. O correto, acrescenta, seria usar recursos de royalties de petróleo para bancar as iniciativas.

"O governo pode zerar o PIS/Cofins, pode pedir que se reduza à metade o ICMS de importação do diesel e rachar essa conta com os Estados. O que não pode é financiar essa política pública com o dinheiro dos outros."

Confira, a seguir, trechos da entrevista.

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Como avalia o acionamento da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) por parte do Ministério de Minas e Energia para avaliar possíveis práticas abusivas na comercialização de GLP?

Avalio muito mal, porque o governo está intervindo em uma política de uma empresa, de uma companhia controlada pelo governo. Isso mostra o bate-cabeça que tem dentro do governo em relação ao combate ao aumento de preço do petróleo e às consequências para o Brasil. A própria declaração do presidente Lula foi muito pesada. Acho que atacou inclusive a independência da direção da Petrobras, porque o leilão que aconteceu foi promovido pela empresa. Não foi nenhum funcionário sozinho que tomou a decisão de realizá-lo. O leilão mostra outro aspecto importante: o preço de venda foi muito mais alto do que o da refinaria. Aí você vê a defasagem gigante dos preços. O barril do petróleo está a mais de US$ 100, e a gente não faz aumento, por exemplo, do GLP desde a época em que estava a US$ 60. O diesel teve um aumento pequeno recentemente, quando o governo lançou as primeiras medidas de combate ao aumento do preço do petróleo, e agora o QAV (querosene de aviação) teve um aumento muito expressivo, de 54%. Mas aí parece que vai ser um aumento parcelado. Então, vejo essas coisas de uma maneira muito confusa. O governo está tentando blindar a popularidade do presidente Lula, e as consequências para o mercado são as piores possíveis.

Qual o impacto disso para a Petrobras?

A Petrobras perde receita e acaba prejudicando o acionista minoritário. A empresa está sendo obrigada a vender com preços inferiores aos do mercado internacional. O leilão é o exemplo máximo disso, porque, quando você o faz, surge o preço verdadeiro, o preço do mercado.

Sabendo que a Petrobras é uma empresa de economia mista, o investidor não embute esse risco no preço da ação?

Ele até considera isso, mas tem coisas que são pouco palpáveis de mostrar que o acionista está sendo prejudicado. Um exemplo: o imposto de exportação. O imposto de exportação de 12% que o governo criou para financiar o programa de subvenção para repor a perda de zerar o PIS/Cofins. Acho que não deveria ter criado imposto, deveria ter usado o dinheiro dos royalties. Com o barril caro, você teria royalties maiores. Esse imposto não é regulatório, é arrecadatório. O governo aproveita a crise internacional do petróleo para aumentar a arrecadação. Voltando ao acionista minoritário: a principal empresa prejudicada é a Petrobras, porque é ela quem mais exporta petróleo no Brasil. Então, você está tomando uma receita da Petrobras. A Petrobras tem a obrigação de aceitar isso, porque foi uma MP do governo, mas tem que judicializar — em benefício do seu acionista. As empresas privadas estão judicializando.

O governo pode fazer algo para minimizar o impacto da alta do petróleo?

O governo tem, sim, o que fazer. Mas o primeiro erro que cometeu foi não ter aumentado o preço dos derivados à medida que o preço do petróleo ia aumentando. O petróleo não saiu de US$ 60 para US$ 100 direto. Outros países foram ajustando conforme a cotação avançava. Nesses países, não tem, agora, defasagens tão gigantes como temos no Brasil. O governo pode, sim, fazer política pública. Pode zerar o PIS/Cofins, pode pedir que se reduza à metade o ICMS de importação do diesel e rachar essa conta com os Estados. Tudo isso é política pública. O que não pode é financiar essa política pública com dinheiro dos outros. Tinha que ser financiado com o aumento de royalties. Outra coisa é que o preço de referência tem que ser o do mercado internacional. O que é que está acontecendo hoje? Como você não usa o preço de referência do mercado internacional, está criando subvenções. E o País ainda continua com a espada do desabastecimento na cabeça. O governo precisaria adotar o preço de referência, reduzir o PIS/Cofins e o ICMS e financiar tudo com royalties. E precisa fazer isso com transparência. Se você faz tudo com transparência, não tem esses problemas de distribuidoras não aderirem ao programa, de distribuidora e postos estarem cobrando um preço talvez maior, porque está todo mundo preocupado com uma situação confusa.

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Há medidas estruturais que podem ser adotadas?

O Brasil tem muita diversidade energética, e a gente deveria usar essa diversidade para fazer uma política estrutural que fosse para sempre. O governo poderia aumentar a mistura de etanol à gasolina por dois meses e ver o que acontece. Poderia aumentar de 30% para 32%. Também poderia aumentar o biodiesel no diesel. Agora, tudo isso é prejudicado pelo fato de que você subsidia gasolina e diesel. Isso acaba tirando competitividade dessas outras energias. Essas outras energias, além de diminuírem a nossa dependência de diesel importado, também ajudariam a descarbonizar o setor de transporte. Outra coisa que poderíamos ter feito é aumentado a CIDE (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) da gasolina e do diesel. Desde o início do governo, o petróleo estava barato. Isso permitiria aumentar a CIDE para se criar um colchão, que agora serviria para a gente resolver parte dos problemas.

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