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Desligar para não apagar: o paradoxo energético brasileiro

Fica difícil vender ao mundo matriz limpa enquanto se descarta energia renovável para manter termelétricas

21 jul 2026 - 22h11

Entre janeiro e outubro de 2025, o Brasil desperdiçou 20% de toda a sua energia renovável. Isso equivale a R$ 5,6 bilhões jogados fora, mais do que os R$ 4,5 bilhões que o SUS está investindo em toda a sua rede de hospitais inteligentes. Só em outubro, o País descartou quase duas vezes a geração mensal de Itaipu. Enquanto isso, o brasileiro recebia a conta de luz com bandeira vermelha. Por quê?

O primeiro culpado é a infraestrutura. Por décadas, o governo incentivou a geração renovável no Nordeste (onde há sol e vento), mas esqueceu de construir as linhas de transmissão que levariam essa energia ao Sudeste (onde há o consumo). Resultado: a energia gerada não tem por onde escoar. Jogá-la toda no sistema causaria instabilidade e, no limite, poderíamos ter um apagão por excesso de energia. Para evitar um evento desses, o próprio Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) determina o desperdício da energia.

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O segundo culpado é o descasamento entre geração e consumo. O pico de geração solar é entre 9h e 16h. O de consumo, entre 18h e 21h. Quando a demanda aparece, o sol já foi dormir.

O terceiro é regulatório: contratos obrigam usinas termelétricas a operarem sem parar, sob pena de multa. Impedido de desligá-las, o ONS desliga solares e eólicas. Em outubro de 2025, o Brasil bateu o recorde de energia verde descartada, enquanto 20% de sua matriz seguiam vindo de termelétricas.

A solução existe. As linhas de transmissão já estão contratadas. Falta antecipar os prazos, hoje previstos para depois de 2029. Os contratos que amarram as termelétricas precisam ser revistos, permitindo que reduzam sua geração sem multas. Micro e minigeradores, hoje obrigados a jogar energia na rede, deveriam poder participar dos cortes de fornecimento. Leilões diários de preço disciplinariam o mercado sem nova legislação. Medidores inteligentes viabilizariam tarifas que variassem por horário, deslocando a demanda para as horas de abundância. Os 500 mil veículos elétricos do País, por exemplo, poderiam carregar suas baterias quando a energia sobra, em vez de vê-la ser desperdiçada.

Essas medidas são urgentes. O desperdício em 2025 foi o triplo do que foi em 2024 e 20 vezes o que foi em 2023. Fica difícil vender ao mundo a narrativa de matriz limpa enquanto se descarta um quinto da energia renovável para manter termelétricas ligadas - e mais difícil ainda captar os recursos internacionais que dependem dessa narrativa.

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O problema tem solução, mas exige planejamento, coordenação e urgência. Isso é o que nos falta. Energia, temos de sobra.

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