Demanda por embalagem sustentável de alto desempenho faz do Brasil estratégico para Smurfit, diz CEO

Gigante de embalagens, comandada no Brasil por Manuel Alcalá, terá investimento de mais de R$ 800 milhões até este ano em unidades locais

13 jan 2026 - 10h12

Em 2025, a Smurfit Westrock, uma das maiores fabricantes globais de embalagens de papel, anunciou o investimento de mais de R$ 800 milhões nas suas fábricas brasileiras até este ano. A motivação está no fato de o Brasil ser estratégico para as ambições da companhia em escalar na produção de recicláveis.

"O Brasil é estratégico para a Smurfit Westrock por sua base produtiva, disponibilidade de recursos florestais renováveis e crescente demanda por embalagens sustentáveis de alto desempenho", diz o CEO da subsidiária brasileira, Manuel Alcalá, em entrevista ao Estadão. No País, a companhia detém cerca de 54 mil hectares de florestas próprias para esse fim.

Publicidade

De acordo com Alcalá, novos setores têm demandado embalagens de papel no País em substituição ao plástico e ao isopor, como, por exemplo, o comércio de bens duráveis. Isso tem exigido maior investimento em tecnologia, mas também tem dado impulso a essa fatia de mercado, que, segundo a plataforma Metatech Insights, deve alcançar globalmente US$ 460 bilhões em 10 anos.

Smurfit Westrock fez investimentos milionários em fábricas brasileiras
Smurfit Westrock fez investimentos milionários em fábricas brasileiras
Foto: Smurfit Westrock/Divulgação / Estadão

"O setor de embalagens no Brasil deve consolidar, até 2050, uma transição acelerada para a economia circular, com foco em materiais renováveis, redução de insumos de origem fóssil e soluções alinhadas às metas de neutralidade de carbono", prevê. "(O País) reúne condições únicas para liderar essa transformação."

A Smurfit Westrock é resultado de uma fusão entre a empresa irlandesa Smurfit Kappa e a norte-americana Westrock, concluída em 5 de julho de 2024. No Brasil, a companhia está presente em seis Estados, com nove fábricas.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

Publicidade

O mercado global de embalagens recicláveis deve alcançar US$ 460 bi até 2035. A Smurfit Westrock no Brasil já tem se beneficiado desse crescimento?

Sim. O Brasil já se beneficia do crescimento global das embalagens recicláveis, e a Smurfit Westrock tem papel ativo nesse movimento ao ampliar sua capacidade e acelerar a oferta de soluções sustentáveis no País. Em 2025, anunciamos um investimento de US$ 150 milhões (quase R$ 810 milhões), a ser realizado até 2026 em várias unidades, direcionado principalmente à produção de papel e à expansão da capacidade de embalagens sustentáveis. Esse movimento fortalece nossa presença em segmentos estratégicos da economia e sustenta a expectativa de crescimento.

Quais segmentos do mercado têm tido maior apetite por essas embalagens hoje no Brasil?

Os principais segmentos são alimentos, bebidas, proteínas, saúde, beleza e bens de consumo, setores que estão na vanguarda da adoção de soluções sustentáveis, especialmente à medida que os consumidores se tornam mais conscientes do impacto ambiental dos produtos que consomem. A indústria alimentícia, por exemplo, tem buscado cada vez mais opções de embalagens que não apenas protejam os produtos de forma eficiente, mas que também possam ser recicladas após o uso. O sistema de governança da Smurfit Westrock assegura que todas as etapas da cadeia respeitem padrões internacionais de responsabilidade socioambiental, e a companhia tem desempenhado um papel crucial ao fornecer soluções de embalagem que são não só sustentáveis, mas também otimizadas para o transporte e a distribuição. Com isso, reduzimos a necessidade de materiais adicionais e melhoramos a eficiência logística.

Quais inovações esse mercado tem exigido em relação a essas embalagens?

O mercado tem exigido embalagens mais estratégicas, que unam eficiência logística, impacto de marca e sustentabilidade. Há maior demanda por formatos inteligentes, especialmente para e-commerce, com design estrutural sob medida, melhor proteção, redução de desperdícios e uma experiência de unboxing (abertura de embalagem) mais relevante. Também tem crescido a busca por impressão de alta qualidade e impressão digital, que permitem personalização e agilidade no lançamento de produtos. A sustentabilidade tem sido um eixo central, com exigência por embalagens mono-material, recicláveis e à base de papel, substituindo materiais não recicláveis, sem perda de desempenho. Além disso, o mercado vem exigindo soluções que facilitem a reposição no ponto de venda, permitindo que a embalagem vá diretamente do transporte para a prateleira, com abertura fácil e boa exposição do produto.

O sr. destaca que o Brasil tem papel estratégico na transição para embalagens sustentáveis, sendo 'o País das oportunidades'. Que investimentos ou parcerias estão sendo planejados para aproveitar de forma mais ampla esse potencial?

O Brasil é estratégico para a Smurfit Westrock por sua base produtiva, disponibilidade de recursos florestais renováveis e crescente demanda por embalagens sustentáveis de alto desempenho. No País, a companhia detém cerca de 54 mil hectares de florestas próprias, com certificação dupla FSC e PEFC, sendo 43% das áreas destinadas à preservação ambiental e habitat de mais de 600 espécies nativas, inclusive ameaçadas. Essa base florestal contribui para a remoção significativa de dióxido de carbono (CO2) da atmosfera e garante matéria-prima renovável, fortalecendo uma cadeia integrada de papel e papelão ondulado alinhada à economia circular. A empresa tem ampliado investimentos industriais e fortalecido parcerias de cocriação com clientes e varejistas brasileiros para capturar esse potencial. As equipes locais de design têm desenvolvido soluções customizadas que combinam sustentabilidade, eficiência logística e desempenho no ponto de venda, apoiadas por centros de experiência como o Experience Center, em São Paulo.

Publicidade
Segundo CEO da Smurfit Westrock, Brasil é País estratégico para escalada de embalagens sustentáveis
Foto: Smurfit Westrock/Divulgação / Estadão

Há algum setor que será prioridade para investimento em 2026, quando já vão ficando mais distantes os custos da fusão com a Westrock?

A Smurfit Westrock no Brasil continuará com foco em expandir sua capacidade de produção de embalagens sustentáveis, com foco no aumento da capacidade de conversão e na modernização das plantas, priorizando a melhoria das operações para atender de forma mais ágil e sustentável os clientes. Além disso, investiremos em tecnologia de automação e digitalização industrial, com uso de inteligência artificial, para melhorar a eficiência e padronização dos processos e reduzir o impacto ambiental. Os investimentos futuros vão incluir, ainda, mais foco na capacitação de pessoas, fortalecendo o compromisso com o bem-estar e o desenvolvimento humano em todas as operações no Brasil. Todas essas decisões seguem um planejamento monitorado por comitês de ESG e conselhos executivos, com metas de impacto, critérios de retorno sustentável e mecanismos de prestação de contas internos e públicos.

O sr. declarou recentemente que 'a embalagem deixou de ser um invólucro funcional e passou a ser uma extensão da identidade ambiental das marcas'. De que forma?

A embalagem passou a ser uma extensão da identidade ambiental das marcas porque se tornou um dos elementos mais visíveis e mensuráveis de seus compromissos ESG. Os consumidores, investidores e reguladores avaliam a embalagem como uma evidência prática de responsabilidade ambiental, e não mais apenas como um componente funcional do produto. Na Smurfit Westrock, esse conceito se traduz em soluções baseadas em fibras renováveis, design circular e rastreabilidade de origem, que permitem às marcas comunicar propósito, coerência ambiental e inovação diretamente no ponto de venda. A embalagem passa a expressar valores, posicionamento e visão de longo prazo.

Qual o futuro das embalagens no Brasil, pensando em um horizonte de 2050, quando a maior parte das empresas se comprometeu a ser carbono neutro?

Até 2050, o setor de embalagens no Brasil deve consolidar uma transição acelerada para a economia circular, com foco em materiais renováveis, redução de insumos de origem fóssil e soluções alinhadas às metas de neutralidade de carbono. A combinação de exigências regulatórias, inovação tecnológica e compromissos corporativos deve impulsionar o uso de embalagens recicláveis, renováveis e de menor impacto ambiental. A inovação em materiais e fibras de origem natural será central nesse processo, por permitir embalagens mais eficientes, com melhor proteção e integração a sistemas mais avançados de logística reversa. O comportamento do consumidor seguirá como vetor de pressão, com maior valorização de reciclabilidade e transparência ambiental. O Brasil reúne condições únicas para liderar essa transformação, graças à sua base florestal, à expansão da infraestrutura de reciclagem e à competitividade em soluções à base de fibras.

E quais os planos da empresa para a entrada no mercado de carbono no Brasil, tal qual é feito na Colômbia?

A Smurfit Westrock acompanha de forma contínua a evolução dos mercados de carbono, regulados e voluntários, como parte de sua estratégia global de descarbonização e gestão responsável de ativos florestais. O Brasil é um mercado relevante nesse contexto, assim como outras geografias onde a companhia atua. Independentemente de qualquer iniciativa de monetização, as florestas e operações da Smurfit Westrock já exercem um papel relevante na mitigação das mudanças climáticas, por meio do manejo florestal sustentável, da eficiência energética e do avanço da economia circular. Qualquer eventual avanço nesse tema será conduzido com responsabilidade, governança e foco na geração de valor ambiental, social e econômico de longo prazo, sempre respeitando critérios rigorosos de transparência e integridade.

Publicidade
TAGS
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se