Antes de comandar uma rede de pizzarias com dezenas de unidades espalhadas pelo país, Arnaldo Di Blasi levava uma rotina bem diferente. Formado e com carreira consolidada na área de tecnologia e mercado financeiro, ele conciliava o trabalho em um banco de investimentos com noites e finais de semana dedicados a um buffet de pizzas artesanais. O que começou como uma renda extra acabou se transformando em um negócio milionário.
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Hoje, a Di Blasi Pizzas soma 41 unidades, faturou R$ 60 milhões em 2025 e projeta expansão pelo Brasil. Esse caminho começou de forma muito mais simples e com muitas noites mal dormidas.
“Minha rotina basicamente era trabalhar no banco, fechar os eventos, fazer compras depois do expediente e passar os finais de semana produzindo pizza e tocando o negócio”, relembra. “Eu sempre gostei muito de trabalhar, então a ideia inicial nunca foi largar tudo de cara. O buffet era quase um segundo job, um respiro criativo".
A virada de chave aconteceu em 2017, durante a participação da marca de pizzas no Rock in Rio. Segundo Arnaldo, foi naquele momento que ele percebeu que o negócio tinha potencial para muito mais do que apenas eventos aos fins de semana.
“Quando vi aquela operação funcionando dentro do Rock in Rio e recebi o feedback do público, entendi que aquilo não era mais um hobby. O evento foi um sucesso tão grande que me deu coragem para apostar de vez no delivery e no franchising”, conta.
Bordas das pizzas começaram tudo
A origem do negócio veio de uma cena comum em festas e confraternizações: pratos cheios de bordas de pizza descartadas. “Empreender é observar comportamento humano”, afirma. “Me incomodava ver aquele ‘cemitério de bordas’ voltando para a cozinha. As pessoas comiam o meio da pizza e deixavam as bordas porque eram secas, duras ou sem graça".
A partir disso, Arnaldo começou uma série de testes em casa para desenvolver uma massa mais leve, crocante e com longa fermentação. “Eu queria que a borda deixasse de ser um obstáculo e passasse a ser um atrativo. Quando as pessoas começaram a elogiar primeiro a borda da pizza, percebi que existia ali um diferencial competitivo real".
No início, o negócio funcionava apenas aos fins de semana e em eventos. Em 2014, a operação já realizava dezenas de eventos por mês. Foi quando ficou claro que seria impossível manter o ritmo conciliando duas carreiras.
“Era uma época de muita adrenalina e quase nenhuma hora de sono. De segunda a sexta minha cabeça estava no banco. Na sexta à noite, eu virava a chave para produção, logística e forno”, lembra.
“Troquei o teto pelo infinito”
Deixar o mercado financeiro para vender pizza não foi uma decisão simples. Segundo Di Blasi, o maior medo era abrir mão da estabilidade. “No mercado financeiro, o salário cai na conta todo mês, existe plano de carreira, benefícios. Quando você decide empreender, troca o teto pelo infinito, mas o chão também desaparece”, diz.
Ele conta que também precisou lidar com o julgamento de pessoas próximas e com a insegurança de entrar em um setor completamente diferente da sua formação. “Havia o medo de comprometer o patrimônio familiar, o medo do julgamento dos pares — afinal, trocar uma ‘carreira chique’ por uma cozinha é algo que muitos não entendem no início — e a síndrome do impostor de estar entrando em um mercado onde eu não tinha formação tradicional. O medo nunca sumiu, eu só aprendi a usá-lo como combustível para não errar no planejamento".
A experiência no Rock in Rio foi determinante para profissionalizar a operação. Durante o festival, a marca vendeu milhares de pizzas e precisou adaptar processos para suportar uma demanda em larga escala.
“Ali nós aprendemos que o produto era excelente, mas que o sucesso a longo prazo dependeria de processos e velocidade. Atender uma multidão em um festival exige uma engenharia de produção impecável", lembra.
Segundo ele, foi naquele momento que o olhar corporativo e financeiro começou a fazer diferença dentro do negócio. “Foi ali que o chip do mercado financeiro estalou na minha cabeça: se conseguimos operar com essa eficiência no maior festival do mundo, nós conseguimos capitalizar esse negócio através do franchising”.
Pandemia ajudou negócios
Se a pandemia foi um período difícil para boa parte do setor de alimentação, para a Di Blasi o delivery acabou acelerando a expansão da empresa. Segundo o empresário, isso aconteceu porque a operação já estava estruturada para funcionar de forma digital muito antes de 2020.
“Minha bagagem anterior me fez enxergar a Di Blasi Pizzas como uma empresa de tecnologia que vende comida", afirma. “Quando o mundo fechou e o comportamento do consumidor mudou radicalmente para o home office, nós já estávamos com a máquina regulada. Foi só acelerar o que já funcionava".
De executivo a mentor de franqueados
Hoje, Di Blasi afirma que sua maior transformação não foi financeira, mas pessoal. “No banco, eu lidava com números, códigos e processos controlados. Como líder de uma rede de franquias, meu papel principal passou a ser gerir pessoas e sonhos”.
Ele explica que cada novo franqueado representa alguém investindo as próprias economias e expectativas na marca criada por ele. “Deixei de ser o executor técnico para me tornar um mentor, um estrategista de marca e um resolvedor de problemas em tempo real. Desenvolvi uma empatia e uma resiliência que o mercado financeiro, com toda a sua frieza, jamais conseguiria me ensinar. Hoje, me vejo muito mais como um facilitador do sucesso dos meus franqueados do que apenas um ‘dono de pizzaria’”.
Ao olhar para trás, o empresário resume a principal lição da trajetória em uma frase: “O produto abre portas, mas a cultura e a consistência constroem impérios".
“Uma pizza diferente foi o que nos fez começar. Mas o que sustenta dezenas de lojas é a obsessão pelos detalhes, padronização e foco absoluto na experiência do cliente”, conclui.