Para Neil Redding, futurista especialista em tecnologias como inteligência artificial (IA) e computação espacial, o avanço da IA vai acabar com muitos empregos e dará às pessoas a capacidade de criar rapidamente novos negócios que hoje demoram muito tempo e precisam de muito investimento.
"Será uma era de ouro para o empreendedorismo, mas acredito que muitas pessoas perderão seus empregos. É papel da sociedade e da cultura ajudar a tornar essa transição o mais tranquila possível, fornecendo redes de segurança econômica ou mecanismos de apoio econômico para os empreendedores", afirma Redding.
O futurista ressalta que a transição das empresas para a era da IA já está acontecendo, mas será um processo lento, porque requer uma grande mudança de como os trabalhos são feitos. Portanto, ele não vê uma grande quantidade de demissões por causa da adoção de IA para realizar funções antes feitas por humanos.
Entusiasta dos agentes de IA, que são capazes de realizar tarefas de diversas etapas a partir de comandos dados em linguagem natural, Redding conta que sua previsão para 2026 é que as pessoas passarão a delegar mais ações à IA, assim como fazem hoje com subordinados quando surge uma demanda. Por isso, a presença dos agentes de IA nas companhias deve aumentar neste ano.
Redding será um dos palestrantes internacionais do São Paulo Innovation Week, que acontece de 13 a 15 de maio no Pacaembu e na Fundação Armando Alvares Penteado. O festival é uma realização do Estadão, em parceria com a Base Eventos - assinantes podem comprar ingressos com 35% de desconto: para adquirir o passaporte para os três dias de evento. Não assinantes devem acessar este link.
O SPIW terá uma agenda de conteúdo com mais de 2 mil palestrantes. As discussões sobre IA, assunto do momento no mercado global, estão entre as mais aguardadas. Serão mais de dez painéis dedicados ao tema. Para saber o que esperar do conteúdo sobre inteligência artificial no festival, veja programação específica com palestrantes que abordam o assunto.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
Você se autodenomina 'near futurist' (algo como 'futurista do agora'). Como explicaria esse conceito e sua relevância para inovação em IA?
Nos últimos cinco anos, tenho me chamado de near futurist. Baseado em uma carreira de mais de 30 anos como tecnólogo, estudei ciência da computação e filosofia. Dediquei cerca de metade dessa carreira à engenharia de software e a outra metade à consultoria em inovação, trabalhando com grandes empresas de serviços, agências e empresas como ThoughtWorks e Gendler, no setor de construção civil e também com tecnologia de software personalizada. Sempre me interessei muito pelo que está se tornando possível agora, o que a tecnologia está começando a viabilizar e que em breve será valioso para nossos negócios. Por isso, as pessoas começaram a me chamar de futurista, mas percebi que não era bem o termo correto. 'Futuros' trabalham com previsão, análise de tendências, e não é isso que eu faço. Eu observo as possibilidades emergentes habilitadas pela tecnologia que podem ser colocadas em prática, integradas aos ecossistemas e modelos de negócios de empresas existentes. Essa é uma ótima perspectiva para falar sobre tecnologia, especialmente quando ela está evoluindo tão rapidamente. Nos últimos meses, a evolução da IA foi muito mais rápida do que no segundo semestre do ano passado. Esses novos pontos de inflexão que alcançamos com a IA são profundos e esse será o foco das empresas nas próximas semanas.
Na sua palestra no Rio Innovation Week, no ano passado, você falou sobre simbiose entre humanos e IA, trazendo exemplos da natureza. As empresas já conseguiram atingir esse estágio ou ainda estão usando a IA como ferramenta básica?
Na maioria dos casos, a IA ainda é usada como uma ferramenta básica. A ideia da simbiose é como uma estrela-guia, algo para o qual se deve caminhar. Existe muito medo e confusão em torno da IA ??na sociedade e na cultura. De modo geral, as pessoas se preocupam com a perda de empregos e com o que farão e como ganharão dinheiro. Nos negócios, as coisas estão mudando tão rapidamente que já estamos há mais de três anos na era do ChatGPT, onde temos esses chatbots muito avançados que nos permitem enviar mensagens e obter respostas. Mas isso parece muito distante de uma relação simbiótica. Eu apresentei essa ideia de simbiose como uma espécie de antídoto ou uma forma de pensar na IA como uma nova espécie em evolução, que pode ter uma relação mutuamente benéfica conosco, se tivermos uma relação positiva com ela.
Você acha que a IA está ampliando a distância entre as pequenas e as grandes empresas ou ela dá um diferencial competitivo para os pequenos negócios prosperarem?
É uma vantagem para empresas menores. Essa é uma das coisas que considero um contraponto à preocupação com a perda de empregos, algo que ouvimos muito no South by Southwest. Pelo menos nos últimos cem anos, vivemos em um mundo onde íamos para a escola, a ideia era estudar por um tempo e depois conseguir um ou mais empregos e depois nos aposentaríamos. A forma como a IA está evoluindo, com os agentes de IA que são capazes de realizar trabalhos com quase nenhum erro, permite que você dê uma tarefa a um agente e ele possa construir algo que, há seis meses, levaria meses e precisaria de uma grande equipe. Agora uma única pessoa pode fazer isso com uma pequena equipe de agentes de IA por um custo razoável. Isso é um enorme benefício para qualquer pessoa, até mesmo para uma única pessoa que tenha uma ideia do que quer criar. Resumindo, será uma era de ouro para o empreendedorismo, mas acredito que muitas pessoas perderão seus empregos. É papel da sociedade e da cultura ajudar a tornar essa transição o mais tranquila possível, fornecendo redes de segurança econômica ou mecanismos de apoio econômico para os empreendedores.
No Brasil e em outros países, existem empresas que estão demitindo funcionários e dizendo que o fizeram porque estavam usando IA. Na sua visão, a IA realmente já está substituindo pessoas em algumas funções ou as empresas estão adotando essa narrativa para reduzir equipes?
Muita gente está usando a IA como desculpa. O anúncio de Jack Dorsey (cofundador do Twitter e da fintech Block) sobre as demissões em massa de 40% da Block foi o foco das conversas nas últimas semanas. Inicialmente, parecia que era só por causa da IA. As ações da empresa subiram 25% logo depois do anúncio dos cortes. Conforme a mídia especializada analisou o caso, o próprio Jack Dorsey disse que contratou gente demais durante a pandemia. Então, era preciso redimensionar a empresa. Mas acho que é uma combinação das duas coisas, porque há muitas empresas que conseguem fazer mais com menos porque estão usando IA e agentes de IA da maneira mais produtiva possível. Mas acredito que haverá menos demissões este ano do que algumas pessoas pensam, simplesmente porque as empresas precisam de tempo para se adaptar.
Por quê?
Para obter o máximo valor da IA ??e dos agentes de IA, é preciso redesenhar a organização e o trabalho em torno da IA, assim como se faz com qualquer nova ferramenta revolucionária. Um exemplo simples é a agricultura: há 150 anos, quando as primeiras máquinas a vapor foram usadas para plantar e colher, a forma como o plantio, o cultivo e a colheita eram realizados com essas máquinas era muito diferente da forma como eram feitos pelos humanos. Os processos, o design organizacional, as pessoas necessárias para cada função e o tipo de hierarquia eram completamente diferentes quando passamos a usar máquinas, e o mesmo está acontecendo com a IA. Isso leva tempo. As grandes empresas estabelecidas vão se mover mais lentamente. Em alguns casos, elas não precisam se mover tão rapidamente porque têm relacionamentos sólidos com os clientes e, enquanto os clientes continuarem pagando pelo produto ou serviço, elas estarão bem.
Você frequentemente fala sobre a importância dos agentes de IA nas empresas. Como os líderes devem se especializar para lidar com esses novos funcionários?
Tenho falado com líderes de RH nos Estados Unidos e no Brasil. Esses profissionais têm um papel fundamental na transição de como o trabalho é alocado e se certos aspectos do trabalho ou certas funções serão realizados por humanos ou por agentes de IA. Mas a liderança de tecnologia e, na verdade, toda a equipe de liderança das empresas precisa estar envolvida para obter os benefícios da IA. Há implicações em todos os níveis: executivo, CEO, mídia, estratégia e visão de curto, médio e longo prazos. Em última instância, isso cai sobre o CEO e o conselho, que também também vão mudar com a IA. Mas o RH e a liderança de tecnologia precisam trabalhar em estreita colaboração para tirar o melhor proveito disso e tornar a transição a mais tranquila possível.
Na sua visão, os agentes de IA atuarão na tomada de decisões nas empresas ou serão assistentes dos CEOs nessa tarefa?
Depende da decisão. Se você traz alguém novo para sua equipe, especialmente se for um jovem, você não começa dando a ele responsabilidades de alto risco. Você dá a ele um conjunto de tarefas ou atribuições menores e menos arriscadas e observa o desempenho. Se ele se sair bem, pode dar mais responsabilidades e construir confiança ao longo do tempo, aprendendo no que ele é bom ou não. O mesmo vale para IA e agentes de IA. É muito importante dar a eles tarefas e ter uma supervisão clara. Muitas pessoas perderam o acesso às suas contas e aconteceram coisas absurdas quando deram muitas liberdades a um agente antes da hora. Falo pela minha própria experiência e também da experiência de executivos com quem trabalho: a tomada de decisão será cada vez mais colaborativa, assim como acontece com uma equipe de liderança humana em uma empresa ou com um conselho de diretores.
Quais métricas devem ser usadas para avaliar o sucesso de iniciativas de inovação que envolvem IA? As empresas devem olhar somente para o ganho de eficiência?
Não. A forma padrão como as pessoas pensam sobre novas tecnologias é buscar fazer as coisas melhor e mais rápido. Em outras palavras, eficiência. Os custos são reduzidos ou a receita aumenta e o modelo de negócios permanece igual. É mais fácil pensar em eficiência do que em evoluir um modelo de negócios. Mas o verdadeiro benefício da IA ??e dos agentes de IA é a exploração. Eles podem trazer eficiência no curto prazo, mas isso não será uma forte vantagem competitiva. Ser eficiente é um requisito básico para as grandes empresas em qualquer mercado. Ser capaz de criar rapidamente novos produtos, serviços e recursos que seus clientes desejam ou que atraiam novos clientes é o que realmente torna uma empresa poderosa. Inovar é difícil, e é por isso que a disrupção existe. É muito mais fácil para pequenas empresas criarem algo novo do que para grandes empresas. Mas acredito que as grandes empresas também terão essa vantagem com a inovação autônoma que a IA está possibilitando.
Como você define computação espacial e quais oportunidades ela abre para inovação na experiência do usuário?
A computação espacial consiste em dar aos computadores a capacidade de compreender o mundo espacial. Temos nos esforçado para mover conteúdo e objetos digitais desses espaços 2D para o mundo físico. Esse esforço já dura muitas décadas, e também chega à área da robótica, permitindo que robôs naveguem pelo mundo físico de forma eficaz. O que realmente afetará a maioria dos líderes empresariais e consumidores no curto prazo são os dispositivos vestíveis. Muitas grandes empresas têm usado óculos de realidade virtual imersiva para simulações de treinamento, como o Walmart, que os usa para treinar funcionários de suas lojas de atendimento ao público. Companhias aéreas usam a realidade virtual para simulações de treinamento de mecânicos que trabalham em motores de avião. Além dos óculos com IA da Meta, a empresa vai lançar novos óculos de realidade aumentada que começarão a inserir conteúdo digital no mundo físico. A Apple, o Google e a Samsung também preparam dispositivos assim. Provavelmente, neste ano, veremos produtos inovadores que permitirão ver conteúdo digital de forma realista no mundo físico. Isso levará mais alguns anos para se tornar comum, como os smartphones.
Quais são os principais desafios e oportunidades na integração de realidade aumentada e virtual nos negócios?
Há uns 10 anos, quando eu liderava a equipe de tecnologias emergentes na ThoughtWorks, havia uma nova onda de aparelhos de realidade virtual. Estávamos todos muito animados, pensando que poderiam ser usados para treinamentos. Chegamos a construir protótipos de reuniões imersivas em 3D. Esses aplicativos melhoraram muito, mas não substituíram o que fazemos hoje. Ainda falta muito para acontecer isso. Hoje, temos de usar dispositivos pesados ??no rosto, que não são confortáveis. Algumas empresas experimentaram usar realidade virtual para reuniões. Você pode fazer isso com o Apple Vision Pro, que é de altíssima qualidade, mas ainda é caro e pesado. O desafio tem sido que o hardware ainda não é bom o suficiente. Esse tipo de tecnologia precisa ser leve e pequena como óculos comuns. A inovação do hardware é difícil porque ele evolui muito mais lentamente do que IA e software.
No ano passado, você disse que muitas empresas teriam agentes de IA como funcionários, o que realmente aconteceu. Qual sua previsão para a tecnologia no ambiente de trabalho para o fim deste ano?
A previsão do ano passado ainda está se concretizando. A presença de agentes de IA como funcionários está acontecendo. Há um ano, víamos os estágios iniciais disso. Nos últimos meses, finalmente está se tornando realidade. Neste ano, veremos muitas pessoas desenvolvendo uma relação de colaboração confiável e de alto valor com IA e agentes de IA. Um dos líderes da OpenAI disse recentemente que, até o final de março, todo o trabalho em empresa priorizará os agentes de IA. Não apenas a engenharia de software, mas tudo o que fazem na OpenAI. Os agentes já são bons o suficiente para executar muitas tarefas comuns melhor e mais rápido do que os humanos. Mas essa é uma mudança enorme. Praticamente em todas as empresas, quando há algo para fazer, a primeira coisa que acontece é delegar a tarefa a um humano, que começa a trabalhar. A primeira coisa a fazer agora é delegar isso a um agente e ter um humano supervisionando o processo. Com isso, os humanos estão passando de executores a tomadores de decisão. Essa mudança será a maior e mais impactante deste ano. As empresas que realmente estão colhendo os benefícios da IA ??vão se lançar nesse novo campo, desde o CEO até as pessoas mais jovens na organização. Nas empresas líderes, todos vão delegar tarefas a agentes de IA e desenvolver um relacionamento com eles de forma iterativa, ao longo do tempo. Essa delegação inicial é a maior conexão possível e prática que podemos prever para este ano. Essa é uma previsão da qual tenho bastante confiança: as empresas realmente farão essa mudança porque o valor é profundo.