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Por que empresas globais estão migrando para IA chinesa

25 jul 2026 - 12h35

Modelos chineses como Kimi K3 e DeepSeek ganham espaço entre gigantes como DoorDash, Airbnb e Siemens ao combinar desempenho competitivo, preços mais baixos e maior flexibilidade que rivais americanos.Há algum tempo, a inteligência artificial (IA) inaugurou mais um capítulo na disputa tecnológica entre China e Estados Unidos. Na semana passada, o setor voltou a ser surpreendido pelo lançamento do Kimi K3, um modelo desenvolvido pela startup chinesa Moonshot AI.

Com desempenho que rivaliza com modelos americanos e custos mais baixo, Kimi K3 colocou a chinesa Moonshot AI no centro da corrida global de inteligência artificial.
Com desempenho que rivaliza com modelos americanos e custos mais baixo, Kimi K3 colocou a chinesa Moonshot AI no centro da corrida global de inteligência artificial.
Foto: DW / Deutsche Welle

Segundo a agência de notícias AP, o sistema liderou o ranking da Arena, uma plataforma voltada à avaliação de modelos de IA, na categoria de capacidade de programação de interfaces. O cofundador e diretor executivo da Arena, Anastasios Angelopoulos, chegou a classificá-lo como "o lançamento mais importante do ano".

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O impacto do Kimi K3 vai além da chegada de um novo modelo. Seu desempenho reforçou um questionamento cada vez mais presente entre empresas e desenvolvedores: se alguns sistemas chineses oferecem resultados próximos aos dos concorrentes dos EUA por um custo significativamente menor, vale a pena continuar pagando mais?

O apelo da IA chinesa

O Kimi K3 não é um caso isolado. Um mês antes, a empresa Zhipu (Z.ai) lançou o GLM-5.2, modelo de IA que conquistou espaço entre desenvolvedores ao redor do mundo por combinar desempenho competitivo e baixo custo.

De acordo com um relatório do Bank of America citado pela AP, o uso do K3 custa aproximadamente metade do valor cobrado pelo GPT-5.6 Sol, modelo da empresa americana OpenAI.

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A combinação de eficiência e preços mais baixos tem levado muitas empresas a reavaliar sua dependência dos modelos desenvolvidos nos Estados Unidos.

Empresas já começam a migrar

Os dados indicam que essa mudança já está em andamento. Na OpenRouter, plataforma que reúne em uma única interface modelos de inteligência artificial de diferentes empresas, a participação conjunta das americanas Google, Anthropic e OpenAI caiu de 55% para 33% entre janeiro e junho, segundo números divulgados pela agência de notícias AFP.

Ao mesmo tempo, empresas como as americanas DoorDash e Airbnb e a alemã Siemens passaram a incorporar modelos chineses em parte de seus fluxos de trabalho, segundo informações do Financial Times.

Em alguns casos, a redução de custos já é perceptível. Andy Fang, cofundador da DoorDash, aplicativo de entregas, afirmou que o uso de um modelo da Moonshot AI para tarefas menos complexas permitiu economizar recursos. Já a startup Lindy abandonou totalmente as ferramentas da Anthropic e migrou para o também chinês DeepSeek V4.

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O impacto financeiro ajuda a explicar esse movimento. De acordo com o indicador Ramp AI Index, as empresas que mais investem em inteligência artificial gastam cerca de 7.500 dólares por mês (R$ 38 mil ) por funcionário. A empresa de mídia Axios relata inclusive um caso extremo de uma companhia que desembolsou 500 milhões de dólares em um único mês (R$ 2,5 bilhões) para utilizar o Claude, da americana Anthropic.

Código aberto amplia a vantagem

O atrativo dos modelos chineses não se resume ao preço. Muitos deles são de código aberto ou adotam o modelo open-weight, que permite às empresas baixarem e executarem o sistema em servidores próprios.

Essa característica ganhou relevância após o governo de Donald Trump determinar que a Anthropic restringisse o acesso internacional a seus modelos mais avançados, Mythos 5 e Fable 5. Diante das dificuldades para verificar quem poderia utilizá-los, a empresa decidiu retirá-los completamente do mercado externo, deixando muitos desenvolvedores sem acesso.

Haitham Mengad, cofundador de uma startup especializada em criação musical com inteligência artificial, disse ter sentido os efeitos da mudança.

"Fable foi um modelo que transformou completamente minha forma de trabalhar. Quando foi retirado, percebi o quanto dependia dele", destacou.

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Segundo Mengad, o episódio o levou a enxergar os modelos de código aberto como uma alternativa mais segura. O caso reflete uma discussão antiga no setor: modelos abertos versus modelos fechados.

OpenAI e Anthropic argumentam que restrições de acesso aumentam a segurança e diminuem riscos de uso indevido. Já parte dos empreendedores e investidores sustenta que o código aberto acelera a inovação, reduz custos e evita a dependência de um único fornecedor.

EUA acusam China de treinar seus modelos com base nos americanos

O avanço da China, porém, também desperta desconfiança. Empresas americanas acusam laboratórios chineses de utilizar técnicas de destilação para treinar seus modelos a partir das respostas de sistemas como o Claude. Pequim rejeita as acusações.

Nem todos veem a aposta no código aberto como um gesto de generosidade. A revista The Economist avalia que o discurso chinês em defesa do compartilhamento tecnológico faz parte de uma estratégia mais ampla. Enquanto permanecer atrás dos Estados Unidos em desempenho, a China teria interesse em oferecer modelos baratos e acessíveis para ampliar a adoção de seu ecossistema tecnológico no exterior.

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Essa abertura, no entanto, tem limites. A publicação cita o caso da boneca infantil com IA Miiloo, exportada da China, que respondeu sem ressalvas que Taiwan é uma parte inseparável do território chinês. Além disso, segundo informações da Reuters, autoridades chinesas também estudam restringir o acesso de estrangeiros a seus modelos mais avançados.

Em meio a acusações mútuas de uso indevido de tecnologia, disputas regulatórias e um mercado cada vez mais fragmentado, uma tendência começa a ganhar força.

"Cada vez menos empresas querem depender de um único fornecedor", resumiu Oren Michels, cofundador da Barndoor AI, que discute seguranã e governança de IA.

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