A economia brasileira começou o ano acelerada. O crescimento de 1,1% no primeiro trimestre em relação ao quarto trimestre de 2025 é um número forte. O retrato que sai dos números do PIB divulgados nesta sexta-feira, 29, pelo IBGE, mostra uma atividade econômica bastante resiliente, com números positivos tanto do lado do consumo (das famílias e do governo) quanto da produção (agrícola e industrial).
O ponto não tão positivo é que esse, na avaliação de quem acompanha de perto esses dados, deve ser o número mais alto do ano. A expectativa é que os próximos trimestres tragam uma economia bem mais perto da estabilidade, principalmente levando-se em conta todas as turbulências que o País e o mundo vêm atravessando, que certamente terão impacto em investimentos e no consumo.
Mesmo assim, o dado do primeiro trimestre pode ser um trunfo para o governo em ano eleitoral — até porque um dos calcanhares-de-aquiles da gestão Lula é essa sensação de que tudo está ruim na economia, apesar de os números não mostrarem um cenário de terra arrasada. O desemprego, por exemplo, está em níveis historicamente baixos: ficou em 5,8% no trimestre encerrado em abril.
As tentativas do governo de acabar com essa "sensação ruim" na economia ajudam, de certa forma, a explicar o bom número do PIB registrado no primeiro trimestre. O consumo das famílias — que são os gastos gerais dos cidadãos — cresceu 1% em relação ao trimestre anterior e 1,7% na comparação com o primeiro trimestre de 2025. E esse crescimento tem uma forte influência de medidas colocadas em vigor nos últimos meses.
Uma delas é a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, que liberou parte dos recursos dos trabalhadores para o consumo. Outro que pode ter impacto no consumo nos meses à frente é o novo Desenrola, programa para renegociação de dívidas lançado neste mês — que abre caminho para novos endividamentos. Também há outras medidas relacionadas à facilitação na concessão de crédito.
O problema é que as medidas de estímulo ao consumo não vêm acompanhadas de mudanças estruturais que deem robustez à economia para suportar isso. Esses benefícios acabam tendo impacto direto no orçamento federal e no endividamento público. E os gastos públicos são um componente acompanhado com lupa pelo Banco Central na hora de decidir o rumo da taxa de juros.
Não é à toa que há tanto tempo a taxa Selic vem se mantendo na casa dos dois dígitos, patamar em que ainda vai ficar por muito tempo. A previsão é terminar este ano ao redor dos 13%, número muito alto quando comparado mesmo aos pares emergentes.
É, na verdade, quase uma anomalia a economia brasileira ainda conseguir crescer com taxas de juros tão persistentemente altas. Ainda mais quando nos lembramos do período de extrema dificuldade que as empresas nacionais vêm atravessando, com anúncios de recuperações judiciais e extrajudiciais praticamente diários.
Não se vê, porém, nenhum aceno em relação a qualquer mudança estrutural que prepare a economia nacional para um crescimento sustentável de longo prazo. E, obviamente, não será em ano eleitoral que isso vai acontecer. O que podemos esperar são mais e mais medidas de estímulo ao consumo, que possam dar aos eleitores uma sensação mais imediata de melhoria de vida.
No longo prazo, já sabemos há tempos o que isso significa: um país fadado ao crescimento medíocre e com a população condenada apenas a viver eternamente na esperança de que um dia as coisas vão, de fato, melhorar.