Como países vão operar liberação histórica de estoques de petróleo

15 mar 2026 - 17h31
(atualizado às 18h00)

AIE vai liberar 400 milhões de barris a partir de segunda‑feira, priorizando Ásia e Oceania. EUA serão o maior contribuinte, mas analistas alertam que o alívio nos preços deve ser curto.Quando 32 países decidiram recorrer a seus estoques emergenciais de petróleo bruto para tentar conter a disparada dos preços, o gesto foi rapidamente ofuscado pela escalada dos ataques do Irã no Estreito de Ormuz.

Os membros da AIE mantêm, em conjunto, reservas de 1,8 bilhão de barris de petróleo
Os membros da AIE mantêm, em conjunto, reservas de 1,8 bilhão de barris de petróleo
Foto: DW / Deutsche Welle

Os membros da Agência Internacional de Energia (AIE), uma coalizão de 32 nações, concordaram na quarta‑feira em liberar 400 milhões de barris de petróleo de suas reservas estratégicas, o maior desbloqueio de estoques da história da organização.

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Em vez de ajudar a reduzir os preços, porém, o preço do Brent voltou a subir para a faixa dos 100 dólares por barril no fim da semana, depois de ter atingido brevemente 119,50 dólares na segunda‑feira.

No mesmo período, o Irã intensificou ataques dentro e ao redor do Estreito de Ormuz, atingindo vários navios comerciais - incluindo petroleiros e cargueiros - com projéteis, drones e explosivos.

A ação na passagem usada por países do Golfo para exportar um quinto do petróleo e gás do mundo interrompeu quase todo o tráfego de petroleiros. Preços de petróleo e derivados subiram em todo o mundo, e o presidente dos EUA, Donald Trump, pediu ação global para facilitar a circulação de navios no local. Washington chegou a flexibilizar sanções impostas ao petróleo russo para aliviar o impacto.

Grandes produtores da região, como Arábia Saudita, Iraque, Kuwait e Emirados Árabes Unidos, também reduzem a produção à medida que seus estoques domésticos se aproximam do limite, aumentando ainda mais as preocupações sobre a estabilidade do mercado de energia.

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Neste domingo (15/03), a organização anunciou que as liberações previstas terão início já na segunda-feira, primeiro com destino a países da Ásia-Oceania. Mais tarde, os estoques também serão abertos às nações das Américas e da Europa.

O que é uma reserva estratégica de petróleo?

Uma reserva estratégica de petróleo é um estoque controlado pelo governo, mantido para uso durante interrupções de oferta ou emergências no mercado.

A primeira reserva moderna foi criada pelos Estados Unidos em 1975, após um embargo do petróleo árabe expor a vulnerabilidade do abastecimento energético global. O choque quadruplicou o preço da commodity, provocou escassez de combustível no Ocidente e revelou o quanto as economias dependiam de fluxos estáveis.

Hoje, dezenas de países, em sua maioria membros da AIE, mantêm reservas estratégicas como parte de um sistema coordenado de proteção à segurança energética. O Brasil não é membro formal da organização, mas iniciou processo formal de adesão em fevereiro deste ano.

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Juntos, os membros da AIE mantêm mais de 1,2 bilhão de barris em reservas públicas de emergência, além de cerca de 600 milhões de barris mantidos pela indústria.

Acredita‑se que a China tenha as maiores reservas emergenciais do mundo, seguida pelos EUA. Embora Pequim mantenha sigilo sobre os números exatos, a empresa de análises Vortexa estima que o estoque total do país seja de 1,3 bilhão de barris - suficiente para manter a economia funcionando por três a quatro meses.

A reserva federal dos EUA, com 415 milhões de barris, somada a 439 milhões de barris privados, equivale a mais de 40 dias de suprimento emergencial.

Os membros da AIE devem manter em estoque o equivalente a 90 dias de importações líquidas de petróleo em reservas emergenciais. Uma exceção permite que grandes exportadores, como os EUA, acumulem valores menores.

Exportadores líquidos como Canadá, México e Noruega não possuem reservas emergenciais, mas podem recorrer a estoques comerciais em crises.

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A reserva americana é composta exclusivamente de petróleo bruto armazenado em cavernas de sal na Costa do Golfo. Outros países, especialmente na Europa, mantêm produtos mais variados, como petróleo, diesel e querosene de aviação.

Quanto petróleo os membros da AIE decidiram liberar?

A AIE informou que os países liberarão 400 milhões de barris de suas reservas emergenciais. Para comparação, após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, o recorde anterior havia sido de 182 milhões de barris.

Esta será a sexta vez em sua história que a AIE toma medidas de emergência para apoiar os mercados de petróleo em meio a uma crise. A agência, sediada em Paris, disse que os estoques serão disponibilizados gradualmente, conforme as circunstâncias de cada país.

Os EUA lideram com uma contribuição de 172 milhões de barris de sua Reserva Estratégica de Petróleo, a partir da próxima semana, com entregas previstas ao longo de 120 dias.

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O Japão afirmou que liberará cerca de 80 milhões de barris, o equivalente a aproximadamente 45 dias de consumo doméstico, retirados de estoques públicos e privados.

Outros contribuintes incluem Alemanha, Austrália, França, Coreia do Sul e Reino Unido.

Ao todo, as Américas vão desbloquear 172,2 milhões de barris, seguida por Ásia e Oceania, com 66,8 milhões e Europa, com 32,7 milhões. O restante será coberto pelos estoques da indústria.

A China, que não é membro pleno da AIE, não fez anúncio semelhante e tem priorizado a segurança do abastecimento doméstico, suspendendo exportações de combustíveis refinados. O novo plano quinquenal do país, divulgado na semana passada, prevê ampliar ainda mais suas reservas estratégicas, dando continuidade a anos de forte estocagem.

As reservas vão ajudar a reduzir os preços do petróleo?

Analistas do setor afirmam que recorrer às reservas estratégicas pode aliviar pressões imediatas, mas raramente provoca quedas fortes ou duradouras nos preços.

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Essas liberações funcionam principalmente como um sinal de unidade e oferta adicional, tranquilizando o mercado de que governos estão dispostos a intervir se a escassez piorar.

A AIE disse que a liberação cobre apenas três a quatro semanas das perdas de fluxo de petróleo da região do Golfo.

Assim, embora possa reduzir alguns dólares do preço, o impacto deve ser limitado, já que os volumes liberados são pequenos diante de um mercado global de 100 milhões de barris por dia.

O analista David Morrison, da corretora britânica Trade Nation, disse à agência de notícias AFP que, se a ação simultânea de dezenas de países pretendia conter preços, "falhou miseravelmente". Segundo ele, o mercado pode ter interpretado o gesto como um "pânico", diante do bloqueio imposto pelo Irã ao Estreito de Ormuz.

A consultoria londrina Capital Economics afirmou que os preços devem subir ainda mais se Ormuz permanecer fechado por um período prolongado.

"Embora a AIE ainda tenha estoques para recorrer após esta liberação, um conflito mais prolongado [...] pode levar a perdas [...] maiores do que o total de reservas diretamente mantidas pelos membros da AIE", escreveu Hamad Hussain, economista de clima e commodities da Capital Economics, em nota de pesquisa.

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A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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