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Como a turbulência nos mercados pode impactar, na prática, a economia real?

Especialistas ouvidos pelo 'Estadão' indicam que turbulência de um único dia na Bolsa de Valores não deve ter impacto significativo, mas efeitos podem chegar à atividade econômica caso a situação persista por muito tempo

26 out 2026 - 16h07
Resumo
Após a reeleição de Lula, a B3 acionou o circuit breaker em meio a fortes quedas e à disparada do dólar, refletindo temores fiscais do mercado. Especialistas apontam que, embora o baque imediato não afete a população diretamente, a persistência dessa instabilidade a médio e longo prazo pode encarecer o crédito, elevar a inflação e frear o emprego. A reversão desse cenário dependerá de sinais rápidos do governo sobre disciplina fiscal e da nomeação de uma equipe econômica confiável.

A B3 acionou o mecanismo de circuit breaker na manhã desta segunda-feira, 26, após uma queda acentuada dos ativos brasileiros, no primeiro dia após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 51,79% dos votos.

Os efeitos da queda podem chegar à atividade econômica se a turbulência persistir e afetar preços, crédito e decisões das empresas, aponta Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP).

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"Uma família sem nenhuma ação pode sentir os efeitos nas compras do mês, no custo de um financiamento ou na dificuldade de conseguir emprego", explica. "Se a inflação subir mais do que a renda, há perda de poder de compra. Se o crédito ficar mais caro, compras e investimentos podem ser adiados."

A especialista aponta, no entanto, que os efeitos não são iguais para todos. Segundo ela, empresas exportadoras com receitas em dólar, por exemplo, podem se beneficiar do real mais desvalorizado, dependendo de seus custos e de suas dívidas. "É preciso evitar a ideia de que uma queda da Bolsa produz, imediatamente, a mesma perda para toda a população."

A B3 acionou o mecanismo de circuit breaker após os ativos brasileiros registrarem queda acentuada
A B3 acionou o mecanismo de circuit breaker após os ativos brasileiros registrarem queda acentuada
Foto: Werther Santana/Estadão / Estadão

O circuit breaker é um procedimento operacional da B3 que interrompe temporariamente as negociações em momentos de forte queda do mercado. Ele tem como referência a variação do Ibovespa, principal índice do mercado brasileiro de ações. Segundo a B3, a suspensão desta segunda-feira atingiu a negociação de ativos à vista, de títulos de renda fixa privada e de opções referenciadas em ações, BDRs, Ibovespa, Ibovespa B3 BR+, IBrX-50, Índice Small Cap e ETFs.

As negociações são suspensas por 30 minutos quando o Ibovespa registra queda de 10% em relação ao fechamento do dia anterior. Após a retomada das negociações, se o índice atingir queda de 15% em relação ao fechamento anterior, os negócios são suspensos novamente, desta vez por uma hora. Se, após essa pausa, a queda chegar a 20%, a B3 pode determinar uma nova interrupção por período definido pela própria instituição.

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Claudia explica que o objetivo é dar tempo para os participantes avaliarem as informações e reorganizarem suas posições. "A pausa não desfaz as perdas nem garante que os preços se recuperem", afirma.

Por volta das 10h48, após a retomada das negociações, o Ibovespa registrava queda de 16,8%, aos 170,4 mil pontos. Às 13h40, o índice ainda acumulava perda de 15,7%.

Alexandre Chaia, professor de Economia do Insper, explica que o mercado financeiro antecipa as expectativas para a economia - ou seja, reflete o que os investidores esperam que aconteça com a economia real no futuro.

"Hoje a expectativa está ruim em relação à política fiscal do governo, porque ele já estava gastando muito e piorou o gasto durante a eleição com os líderes populistas", afirma Chaia. "O que está acontecendo agora é uma antecipação de que essa política negativa vai fazer com que o governo não reduza o gasto, o Banco Central não reduza os juros, e, com isso, a gente vai ter a economia encolhendo nos próximos anos, e, por conseguinte, menos lucro nas empresas e a Bolsa caindo por conta disso."

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Segundo ele, a turbulência de um único dia não deve ter um impacto significativo na economia real. O professor aponta que o problema surgiria se a instabilidade persistisse por muito tempo e deixasse os investidores receosos.

"Isso vai adiando o crescimento da economia e assim começa a impactar a vida real", afirma. Entre os impactos apontados pelo professor estão a perda de empregos, a interrupção de investimentos, a estagnação da atividade econômica e a diminuição da capacidade de geração de renda da população. "No curtíssimo prazo não tem impacto, mas no médio e longo prazo, sem dúvida, isso tem".

O dólar também abriu em forte alta nesta segunda-feira. Por volta das 10h30, a moeda estava cotada a R$ 5,60, com alta de 12%. Logo depois, o movimento arrefeceu. Na última atualização, a cotação era de R$ 5,42.

Claudia Yoshinaga afirma que não há um prazo único para que a desvalorização do real afete os preços. Segundo ela, em produtos importados ou com preços muito ligados ao dólar, a pressão pode aparecer em dias ou semanas. Já em outros setores, o efeito pode levar meses para aparecer, de acordo com a reposição dos estoques e a renovação dos contratos.

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Para a especialista, um fator que pode reverter esse movimento e ajudar a estabilizar os mercados é a redução da incerteza. "Os investidores estarão atentos às sinalizações sobre a equipe econômica, à trajetória das contas públicas, às prioridades do governo e à capacidade de negociar e executar medidas com o Congresso", afirma.

Segundo ela, para os próximos dias, o caminho é observar não apenas se a Bolsa sobe, mas também se o câmbio e os juros se acomodam e se as condições de financiamento se normalizam.

Já Chaia aponta que, para reverter as expectativas negativas, o governo terá de adotar medidas fiscais mais robustas ou, pelo menos, indicar que as adotará. Para ele, o primeiro passo do governo deve ser apresentar, ainda na primeira semana, um plano para conduzir a política fiscal, conter os gastos e enfrentar o déficit fiscal e o crescimento da dívida.

O professor também destaca a importância do nome que será indicado para o Ministério da Fazenda. "Alguém alinhado com uma visão mais fiscalista, mais de conter gastos e, principalmente, uma pessoa que não venha com uma medida mágica, mas que faça todo um trabalho de organização dos gastos do governo para poder criar uma condição de longo prazo."

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