A Bolsa de Valores brasileira vive um dia de caos nesta segunda-feira, 26. O Ibovespa, índice que mede o desempenho das ações negociadas na B3, registra queda de cerca de 15% e, no início do pregão, o mecanismo de circuit breaker precisou ser acionado. Além disso, também houve a disparada do dólar. Em síntese, todas essas movimentações ocorrem em resposta à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em segundo turno no domingo, 25.
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O mercado financeiro foi pego de surpresa pela virada histórica do petista. Após o primeiro turno, em que Flávio Bolsonaro (PL) saiu à frente, analistas e investidores passaram a acreditar em uma vitória do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, tendo, inclusive, a bolsa subido e o dólar caído no dia seguinte a 4 de outubro.
Essa mudança de perspectiva decorre do fato de que o mercado acreditava nas promessas de Flávio de realizar uma reforma fiscal, investir na diminuição da dívida pública e, como consequência, reduzir o risco-país do Brasil. A reeleição de Lula frustrou essa expectativa.
"O Brasil já convive com dívida bruta de 82,9% do PIB, juros nominais próximos de R$ 1,182 trilhão em 12 meses e crescimento projetado de apenas 1,31% em 2027. Nesse cenário, insistir em uma política fiscal sem credibilidade significa ampliar o risco, pressionar os juros e comprometer as condições de financiamento da economia", avalia Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos.
Ela ressalta que a queda generalizada no valor de ações brasileiras não indica perda da capacidade dessas empresas de gerar resultados. "Significa que os investidores passaram a aceitar preços menores diante dos riscos percebidos. Essa distinção é fundamental para compreender a dinâmica do mercado e separar a volatilidade dos ativos da deterioração efetiva dos fundamentos econômicos", afirma.
Vale destacar que o movimento desta segunda também devolve ganhos registrados na euforia pós-primeiro turno. O que vai definir se a bolsa continuará caindo é a resposta que o governo deve apresentar ao longo das próximas semanas. A tendência é que a reação inicial do mercado possa perder força à medida que Lula apresentar medidas concretas para a questão fiscal.
O diretor de Pesquisa Econômica do Banco Pine, Cristiano Oliveira, avalia que a “duração e a intensidade” do ajuste dos preços de mercado dependerão das primeiras sinalizações do novo governo. As atenções estarão voltadas principalmente para o novo ministério, a equipe econômica, as diretorias vagas do Banco Central e as futuras indicações para o Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo Oliveira, esses nomes ajudarão a definir a percepção dos investidores sobre a orientação da política econômica, a qualidade institucional e o compromisso com a estabilidade macroeconômica.
Ainda assim, nesses primeiros dias de tensão, o assessor de investimentos Mário Machado, da InvestSmart, analisa que pode acontecer uma rápida deterioração do Ibovespa mesmo que não ocorram novos circuit breakers nos próximos dias.
"Uma sequência de dias com quedas de 9% nunca aciona o mecanismo, e a perda acumulada não tem limite", afirma.
O que é circuit breaker?
A B3 explica que o circuit breaker é um procedimento operacional da B3 previsto para momentos de forte queda do mercado. O mecanismo interrompe temporariamente as negociações e tem como referência a variação do Ibovespa B3, principal índice do mercado brasileiro de ações. Ele é acionado em três estágios:
- Estágio I - quando o Ibovespa desvalorizar 10% em relação ao valor de fechamento do Ibovespa do dia anterior, a negociação é interrompida por 30 minutos;
- Estágio II - reabertas as negociações, caso a variação do Ibovespa atinja oscilação negativa de 15% em relação ao valor de fechamento do dia anterior, a negociação é novamente interrompida por 1 hora;
- Estágio III - reabertas as negociações, caso a variação do Ibovespa atinja oscilação negativa de 20% em relação ao índice de fechamento do dia anterior, a B3 pode determinar a suspensão da negociação por um período por ela definido. Nesse caso, o mercado será comunicado pelos canais oficiais da B3.
O mecanismo foi criado em 1997 e já foi acionado 23 vezes desde então. A B3 destaca como os principais momentos estão:
- 1997 – Crise asiática: o Ibovespa registrou queda de 10,19%;
- 1999 – Desvalorização do real: o Ibovespa caiu 10,29% no dia;
- 2008 – Crise do subprime nos Estados Unidos: houve seis interrupções em menos de um mês;
- 2020 – Pandemia de Covid-19: o circuit breaker foi acionado seis vezes em março.