Reeleição de Lula: mercado volta os olhos para o fiscal e cobra nomes e sinais de credibilidade
Para economistas, próximo governo precisará reconstruir confiança, ajustar regras e reduzir incertezas para evitar piora mais duradoura nas condições financeiras
A confirmação do quarto mandato de Lula volta a atenção do mercado para o cenário fiscal e a urgência de reconstruir a confiança, sob risco de alta do dólar e dos juros. Analistas alertam que o arcabouço fiscal exige revisões e cortes de despesas diante do endividamento crescente e do Congresso exigente. Para conter a volatilidade, investidores cobram sinais práticos imediatos e monitoram a escolha da nova equipe econômica e as indicações para o Banco Central e o STF como termômetro de credibilidade.
NOVA YORK E SÃO PAULO - A confirmação do quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva recoloca o tema fiscal no centro das expectativas e pode definir a duração da reprecificação de ativos no curto prazo, como a volatilidade no câmbio e na curva de juros. Economistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast apontam que a reação inicial deve refletir, sobretudo, a leitura de que o próximo governo precisará reconstruir confiança, ajustar regras e reduzir incertezas para evitar piora mais duradoura nas condições financeiras.
Acompanhe em tempo real neste domingo todos os resultados da apuração da Eleição 2026
A reeleição de Lula muda o eixo do debate econômico para 2027: menos a surpresa do resultado e mais a capacidade do governo de entregar credibilidade — na equipe econômica, no arcabouço fiscal e na condução das contas públicas — em um ambiente que já se desenha mais adverso no exterior e mais exigente em Brasília.
A economista do Peterson Institute e conselheira do Cebri, Monica de Bolle, resume o desafio como um problema de confiança. Com um Congresso recém-eleito e um cenário global que pode combinar juros altos, choques de energia e guerras, o governo precisará do "apoio do mercado" para avançar. Para ela, o ponto central é que o arcabouço fiscal "já está meio morto" e demandaria revisão urgente, porque o crescimento esperado pelo programa de governo pode não se materializar em 2027 — justamente quando a dinâmica da dívida tende a pressionar mais.
Para a economista-chefe da Lifetime, Marcela Kawauti, a reeleição faz o mercado voltar a olhar o fiscal com preocupação, em um contexto em que o terceiro mandato já teria sido marcado por aumento do endividamento e sucessivas exceções dentro do arcabouço. A consequência, diz, pode vir na forma de piora do câmbio, com estimativas entre R$ 5,50 e R$ 6,00 em 2026 e 2027.
Já o economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung, enxerga um ajuste fiscal provável, mas mais moderado do que seria sob um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL), e projeta um dólar mais próximo de R$ 5,40 de forma sustentada em 2027. Para Sung, o curto prazo é mais "estressado", mas o desempenho adiante dependerá de como o governo vai se organizar e do que conseguirá aprovar.
O economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, concorda que o Brasil precisará reordenar as contas públicas, reduzindo despesas fora do arcabouço, mas defende que isso ocorra com gradualismo. Na visão do economista, a previsibilidade fiscal tende a melhorar juros e câmbio — e a reação negativa do mercado no dia seguinte à eleição pode ocorrer, mas não necessariamente foge do padrão. Os preços, diz, podem "ir se assentando" à medida que reformas avancem.
No pano de fundo, as fontes convergem em um ponto: o "termômetro" do mercado não será apenas a retórica, mas o pacote de sinais concretos e, sobretudo, a capacidade de reduzir incertezas com medidas que alterem expectativas de dívida e resultado primário.
De Bolle, por exemplo, cobra um anúncio urgente com impacto relevante, sugerindo como possibilidade a redução de desonerações e a reversão de gastos tributários. Ela minimiza propostas pontuais de geração de receita, como a venda de imóveis defendida pelo candidato derrotado, por considerar o efeito incerto e insuficiente como prova de compromisso fiscal — e afirma que uma medida de credibilidade deveria ter impacto de ao menos R$ 40 bilhões.
Nomes
O maior desafio do quarto mandato do presidente Lula será dar credibilidade à equipe econômica, afirma de Bolle. "Já vai ser muito difícil para o governo fazer qualquer coisa com o Congresso que foi eleito. O governo precisa ter a simpatia e o apoio do mercado para conseguir avançar", afirmou.
O diretor de Pesquisa Econômica do Banco Pine, Cristiano Oliveira, avalia que a "duração e a intensidade" do ajuste dos preços de mercado dependerão das primeiras sinalizações do novo governo. O diretor ressalta que as atenções estarão voltadas para a composição do novo ministério de Lula, em especial para a equipe econômica e para as diretorias vagas do Banco Central, além de indicações para o Supremo Tribunal Federal (STF).
"Esses nomes ajudarão a definir a percepção dos investidores sobre a orientação da política econômica, a qualidade institucional e o grau de compromisso com a estabilidade macroeconômica", afirma Oliveira.
Além do fiscal, surge um vetor adicional de atenção para 2027: a composição do BC, na opinião de Kawauti. Ela chama a atenção para a renovação de cadeiras na diretoria, com duas vagas já no horizonte e mais duas em janeiro, o que deixaria quase metade do Copom indicada pelo presidente.
Na prática, o mercado tende a incorporar esse calendário ao prêmio de risco, à medida que tenta inferir qual será o grau de continuidade (ou mudança) na condução da política monetária.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.