O mercado financeiro projeta forte reação negativa à reeleição de Lula, surpreendido após precificar a vitória de Flávio Bolsonaro. Analistas e gestores preveem queda superior a 5% no Ibovespa, risco de circuit breaker e desvalorização do real, reflexos já sentidos em fundos brasileiros no exterior. Diante de um cenário fiscal mais deteriorado, com dívida pública elevada e déficit primário, especialistas alertam que a reversão desse pessimismo dependerá de um ajuste fiscal rigoroso e crível.
O mercado deve ter reação negativa na segunda-feira, 26, após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) neste domingo. A Bolsa chegou a subir 8,8% na primeira semana depois do primeiro turno, quando Flávio Bolsonaro (PL) obteve o maior número de votos em relação aos demais competidores. Quando a disputa apertou, mostrando a reação do presidente, o indicador devolveu 2,3% em três pregões.
"A vitória de Lula foi uma surpresa para o mercado, que vinha demonstrando preferência por Flávio e antecipando sua vitória", afirma Daniel Wainstein, co-CEO e sócio fundador da Seneca Evercore. "O Ibovespa acumulou 27,3% de aumento neste ano, e parte da expectativa de mudança de governo estava incorporada às cotações. Com a vitória de Lula, o mercado vai rever essa expectativa e deveremos ter uma correção no mercado."
Na sexta, o Citi divulgou um levantamento no qual ouviu opiniões de 73 gestores de fundos de ações e multimercado. As reações esperadas, em caso de vitória de Lula, eram bastante negativas. Para a bolsa, a expectativa de 80% dos entrevistados era de queda superior a 5% no Ibovespa na segunda-feira. Outros 7% projetavam retração entre 1% e 5%. Já 3% preveem que o índice pode valorizar de 1% a 5%.
A cotação do real também deve ser influenciada pela vitória de Lula. Dos entrevistados pelo Citi, 63% esperam desvalorização do real acima de 5%. Outros 28% acreditam que a depreciação deve ficar entre 2% a 5%. Já 6% acreditam numa alta de mais de 5% do real.
Os ativos brasileiros negociados no exterior começavam a ir no sentido negativo, já na noite de domingo. O EWZ, fundo de índice que reúne as maiores empresas da bolsa brasileira negociado em Nova York, recuava 18,29% no pregão noturno, cotado a US$ 34,80, uma perda de US$ 7,79 em relação ao fechamento de sexta-feira.
O Next Funds Ibovespa Linked, principal fundo de índice (ETF) brasileiro negociado na Bolsa de Tóquio, opera em forte queda no pregão desta segunda-feira (hora local). Há pouco, a cota estava sendo negociada a 288 ienes, queda de 11,80%.
O diretor de tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, afirma que os ativos domésticos devem enfrentar forte estresse já nesta segunda-feira, 26, com interrupção dos negócios logo após o leilão de abertura. A perspectiva é de um circuit breaker (interrupção dos negócios) na Bolsa, com queda de mais de 10% do Ibovespa, e de estouro dos limites de oscilação tanto do dólar futuro quanto dos juros.
"Qualquer que fosse o vencedor, haveria muita dificuldade com a questão fiscal, por conta do tamanho das promessas. Mas o mercado daria um voto de confiança para Flávio. No caso de Lula, não vai haver complacência. Não vai ter o benefício da dúvida", afirma Weigt.
Para ele, é muito provável que o Banco Central promova uma intervenção no mercado de câmbio, com venda de dólares à vista, para prover liquidez e evitar disfuncionalidades diante de uma demanda mais forte pela moeda americana. "O BC vai cumprir seu papel de dar liquidez, mas não vai ter como segurar o dólar, que deve já abrir acima de R$ 5,30", diz.
Reversão de expectativa, só com sinais concretos de ajuste fiscal
Para Wainstein, da Seneca, é possível haver uma reversão dessa expectativa negativa, caso haja sinais muito concretos de um ajuste fiscal relevante, redução dos juros de longo prazo e recuperação dos lucros das empresas. Também se houver compromisso convincente com a estabilização da dívida e respeito à autonomia do Banco Central. "A composição da equipe econômica será fundamental para essa avaliação inicial, assim como o Lula fez no passado tendo alguém como Henrique Meirelles em sua equipe", diz.
Isso porque, afirma, Lula começará o próximo mandato em uma situação fiscal mais difícil do que a encontrada em 2023. A dívida bruta está próxima de 83% do PIB, contra 72% no fim de 2022, uma diferença de cerca de 11 pontos percentuais. Em 2023, ele assumiu após um superávit primário de 1,25% do PIB e, agora, há um déficit de aproximadamente 0,6% nos últimos 12 meses. "O governo atual continua, mas com uma clara necessidade de mudar sua trajetória", afirma Wainstein.
O setor público acumulou R$ 1,2 trilhão de juros nos últimos 12 meses, o equivalente a quase 9% do PIB. Com esse custo, fica muito difícil estabilizar a dívida. "Lula não tem defendido o controle dos gastos com a clareza que considero necessária", diz ele. "Espero que reconheça que adiar o ajuste também compromete o financiamento das prioridades sociais do próprio governo."
Wainstein afirma ainda que a oposição terá mais força para definir a agenda e condicionar votações. "Lula precisará negociar muito além dos partidos que o apoiaram na eleição, e essa não será uma tarefa simples", disse.
Para ele, a Previdência deveria o principal foco e prioridade do governo. O gasto previsto com o INSS no projeto orçamentário de 2026 ultrapassava R$ 1,1 trilhão. "Não se trata de propor um corte linear nas aposentadorias, mas com a população de 65 anos ou mais tendo crescido 57% entre 2010 e 2022, é necessário discutir regras futuras, transições e diferenças entre regimes, preservando direitos adquiridos e demonstrando o impacto atuarial", diz. "Depois da Previdência, o governo deveria rever pessoal e encargos, uma rubrica de cerca de R$ 457 bilhões no projeto orçamentário de 2026."