O preço do pão francês deve subir para consumidores brasileiros ao longo de abril, diante da pressão de custos provocada pela guerra no Oriente Médio, que elevou o preço do petróleo e encareceu toda a cadeia produtiva. O impacto ocorre no Brasil de forma indireta, por meio de aumentos do diesel, do frete e da farinha de trigo.
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Com o fracasso das negociações de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, a restrição do fluxo no Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte global de petróleo, faz subir o preço da energia. A partir daí, há reflexos diretos nos custos logísticos e industriais em diversos países, incluindo o Brasil.
Ao Terra, a Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria (Abip) explicou que, embora o país não dependa diretamente da região para o abastecimento de trigo, os efeitos indiretos já são sentidos. A entidade aponta que a elevação do petróleo aumenta o custo da farinha e de insumos, o que pode impactar a cadeia da panificação. Ainda assim, o setor tem buscado conter repasses por meio de eficiência operacional e diversificação de fornecedores.
"As padarias brasileiras vêm atuando com foco em eficiência operacional, gestão de custos e diversificação de fornecedores, buscando mitigar repasses ao consumidor final", diz a nota da Abip.
Já a Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo) avalia que o cenário é de subida rápida dos custos, com pressão sobre a moagem de trigo devido à alta do diesel, dos fretes e das cotações do grão no mercado interno e externo. Para o presidente-executivo da Abitrigo, Rubens Barbosa, a forte instabilidade global torna o compromisso de manter o produto na mesa dos brasileiros um desafio.
"A indústria está buscando meios para mitigar esses efeitos negativos, mas algum repasse deve haver para o preço do trigo. Cada empresa vai estabelecer sua estratégia e algo vai ser repassado para as panificadoras e produtores de massas, bolos e biscoitos", disse ao Terra.
Na prática, os impactos se espalham por toda a cadeia produtiva. O Brasil importa mais da metade do trigo que consome, o que torna o preço do pão sensível ao mercado internacional e aos custos de transporte. Além do item essencial para a receita do item, padarias enfrentam aumento de despesas com energia elétrica, embalagens e operação, o que pressiona ainda mais o preço final.
De acordo com o especialista em energia Alan Henn, CEO da Voltera, o efeito da guerra começa no petróleo e atinge outros setores. O aumento dos combustíveis encarece o transporte, influencia a geração de energia, e afeta desde a moagem do trigo até o funcionamento das padarias, que dependem de fornos, refrigeração e iluminação.
"O fim do conflito (no Irã) ajudaria a aliviar a pressão sobre o preço do petróleo, mas não é algo que os setores produtivos conseguem controlar. No Brasil, existem alternativas estruturais que permitem reduzir essa exposição à volatilidade internacional, principalmente no setor elétrico. A portabilidade para o mercado livre de energia é uma alternativa, porque permite maior previsibilidade de custos e uma gestão mais estratégica dos contratos", explica Henn.
"Além disso, investir em eficiência energética e no uso de fontes renováveis também ajuda empresas, como as do setor de alimentos, a reduzir a dependência de oscilações externas. Ou seja, o cenário global impacta, mas as empresas não precisam ficar reféns dele, pois existem caminhos para mitigar esses efeitos e ganhar mais controle sobre os custos", conclui.