Agricultores franceses entraram em Paris nesta quinta-feira, 8, a bordo de tratores para protestar contra a iminente assinatura do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, apesar dos alertas do governo francês, que classificou a ação como "ilegal".
O Conselho Europeu poderá aprovar o acordo, negociado desde 1999 com Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai, nesta sexta-feira, 9, apesar da oposição da França. Isso abriria caminho para que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o assinasse na segunda-feira, 12.
O tratado criaria a maior área de livre comércio do mundo, mas o setor agrícola europeu teme o impacto da entrada maciça de carne, arroz, mel e soja sul-americanos, em troca da exportação de veículos e máquinas europeias para o Mercosul.
"Não podemos mais pensar que nossos jovens vão se estabelecer [nas fazendas], porque não será mais viável", disse o pecuarista Pascal, que preferiu não revelar o sobrenome. Ele se referia aos padrões de produção do Mercosul, vistos como menos restritivos e mais competitivos.
Pascal integrou uma das colunas de agricultores que chegaram à capital francesa de madrugada, a bordo de tratores, para protestar em frente a monumentos icônicos como a Torre Eiffel e o Arco do Triunfo.
"O bloqueio parcial da A13 [autoestrada], como ocorre nesta manhã, ou a tentativa de chegar à Assembleia Nacional, com todo o simbolismo que isso envolve, continua sendo ilegal. O ministro do Interior não permitirá", afirmou a porta-voz do governo francês, Maud Brégeon.
O Ministério do Interior informou que cerca de 100 tratores estão em Paris, "mas a maioria está bloqueada nos portões da capital".
O Ministério do Interior informou que cerca de 100 tratores estão em Paris, "mas a maioria está bloqueada nos portões da capital". Segundo uma fonte próxima à situação, vários tratores foram bloqueados na região metropolitana de Paris e levados para um depósito.
Os protestos, no entanto, não se limitam à capital francesa. Agricultores - especialmente ligados à Coordenação Rural - bloqueiam estradas no sudoeste e no leste do país, além de depósitos de combustível.
Protestos de inverno
Desde o inverno de 2024, os agricultores realizam manifestações anuais, aproveitando a redução do trabalho no campo durante a estação fria, para exigir o relaxamento das normas de produção e a simplificação dos procedimentos administrativos.
A essas reivindicações soma-se a insatisfação com a forma como o governo tem lidado com a Dermatose Nodular Contagiosa (DNC), doença viral grave em bovinos. O governo determina o abate do gado quando um caso positivo é confirmado e se opõe a um programa nacional de vacinação.
Em relação ao Mercosul, o governo também enfrenta pressão de praticamente toda a classe política, contrária ao acordo de livre comércio. Na quarta-feira, o líder conservador Bruno Retailleau ameaçou apresentar um voto de desconfiança caso a França aprove o tratado.
Embora o presidente francês Emmanuel Macron tenha conseguido bloquear a assinatura do acordo em dezembro, com apoio decisivo da Itália, Roma agora pode mudar de posição após novas concessões de Bruxelas aos agricultores europeus.
Na tentativa de apaziguar a indignação do setor agrícola, a França suspendeu por um ano a importação de certos produtos agrícolas tratados com substâncias proibidas na União Europeia, sobretudo provenientes da América do Sul. Cabe agora a Bruxelas decidir se ratifica a medida./Com informações da AFP