“Descruze as pernas!”, “Pare de desmunhecar!”, “Tenha jeito de homem!”, “Engrosse a voz!”, “Chega de frescura!”, “Isso é coisa de mulher!”.
Estas frases e suas infinitas variações foram ouvidas por quase todo gay na infância e adolescência.
E já saíram da boca de Otoniel contra Maumau na novela das 21h da Globo, ‘Quem Ama Cuida’.
Assistimos a um homem rústico e conservador incomodado com os sinais da homossexualidade do neto.
O jovem está em processo de autodescoberta. Busca a liberdade da fala, dos trejeitos, das preferências, da coragem de admitir a atração por outro homem.
No meio do turbilhão emocional, Maumau enfrenta uma explosão de intolerância do avô, que encontra em sua mochila um livro sobre um romance juvenil LGBT+.
“Será que você vai me dar esse desgosto?”, questiona Otoniel, numa mistura de raiva e comoção.
O rapaz nega a própria sexualidade para se proteger, para não decepcionar quem o sustenta, para evitar mais um problema à mãe e à irmã.
Maumau é o retrato do homossexual preso no armário. Inseguro, amedrontado, eventualmente carregando uma culpa pesadíssima.
Otoniel é a cara do patriarca da família tradicional brasileira. Autoritário, egocêntrico, incapaz de ter empatia com quem contraria suas convicções e expectativas.
Dois homens unidos pelo sangue e separados pelo preconceito.
Para a Psicanálise, ninguém é totalmente coerente consigo mesmo. Amor, medo, culpa e desejo frequentemente entram em conflito.
Uma pessoa pode acreditar sinceramente que está fazendo o certo enquanto provoca sofrimento ao outro.
Aparentemente, Otoniel não se enxerga como vilão. Acredita cumprir seu dever de chefe de família ao querer que o neto seja um ‘homem com H’.
É essa contradição que torna o personagem tão complexo e humano. Quem assiste à novela corre o risco de desenvolver sentimentos conflituosos sobre o personagem. Odiá-lo ou compreendê-lo?
A Globo acerta e, ao mesmo tempo, ousa ao colocar Tony Ramos na pele de um indivíduo que caminha o tempo todo na corda bamba, entre o bem e o mal, amável e detestável.
Trata-se do ator mais querido do país. Uma rara unanimidade. Símbolo de galã e bom-moço na TV. Na vida real, um exemplo de marido, pai, avô, colega de trabalho e cidadão.
Vê-lo intragável em algumas cenas pode gerar repulsa, como ocorreu quando fez o ex-presidiário Clementino em ‘Torre de Babel’, de 1998.
O público odiou assisti-lo como assassino da própria mulher e não comprou a ideia de redenção após cumprir a pena.
Mas, à primeira vista, há certa compreensão da maioria dos telespectadores com Otoniel.
Talvez pela certeza de que, cedo ou tarde, o avô homofóbico será transformado pelo amor e aceitará o neto gay.
E Tony, com a emoção à flor da pele, vai representar a vitória do afeto sobre os velhos dogmas, apoiando Maumau a ser quem é.
Além da atuação vibrante do veterano, destaca-se a interpretação cheia de sutilezas de João Victor Gonçalves, de 23 anos. Uma excelente estreia na teledramaturgia.
‘Não seja o gay da família’
A trama de Otoniel e Maumau traz à memória conflitos semelhantes apresentados em outras obras da Globo.
Quem não se lembra da marcação cerrada que a fazendeira Neuta (Eliane Giardini) fazia com o filho Júnior (Bruno Gagliasso) em ‘América’, de 2005?
Sonhava vê-lo exalando virilidade enquanto cuidaria das terras. Casado com uma mulher submissa e com muitos filhos, obviamente.
No último capítulo, o aprendiz de estilista terminou nos braços do peão Zeca (Erom Cordeiro). Só faltou o beijo na boca, censurado pela direção retrógrada da emissora naquele momento.
Em ‘Brilhante’, no ar entre 1981 e 1982, a ricaça Chica Newman (Fernanda Montenegro) se recusava a aceitar a homossexualidade do herdeiro, Inácio (Dennis Carvalho).
Arrumou namoradas para ele a fim de “curá-lo”. Pressionado, o rapaz aceitou um casamento de fachada. Mas não suportou a tortura mental muito tempo. Pediu a separação e deixou o país na companhia de um namorado.
Impossível não citar ‘Amor à Vida’, de 2014, criada por Walcyr Carrasco, um dos autores de ‘Quem Ama Cuida’.
O empresário César (Antônio Fagundes) contratou a garota de programa Edith (Bárbara Paz) para ser esposa de Félix (Mateus Solano).
Ele detestava os trejeitos afeminados do filho e se iludiu acreditando que o matrimônio seria suficiente para manter a homossexualidade trancada.
Até que, em um jantar de família, a própria Edith exibiu fotos de Félix em momentos íntimos com o amante. César o deserdou.
No desfecho, doente e arrependido, o milionário se redimiu. E o vilão divertido deu no namorado Nikko (Thiago Fragoso) o primeiro beijo na boca entre dois homens na história da Globo.