Durante algum tempo, Carlos Filhar foi duramente criticado e debochado nas redes sociais por se relacionar com Arthur, muitos anos mais novo.
Aparentemente, ele não se abatia pelo julgamento. Parecia amar e se sentir amado. Era, em público, o amor perfeito que tantos homossexuais buscam.
Mas, para surpresa geral, o casamento acabou. Boatos surgiram. E Carlos acabou morrendo ao sofrer uma queda da janela de um hotel.
Um fim de vida trágico, solitário e imensamente triste.
O desencantamento do influenciador após uma decepção amorosa é quase uma sentença no universo gay: viver uma história de amor saudável e duradoura se torna cada vez mais improvável.
Há, nesse cenário, obstáculos que não podem mais ser ignorados e que ajudam a explicar por que tantas histórias terminam abruptamente ou antes mesmo de começar.
Um deles é a baixa tolerância às dificuldades naturais da convivência. Qualquer relação exige ajustes e concessões. Mas, diante do primeiro conflito, muitos já desistem. Troca-se o esforço pelo descarte. Como se amar não exigisse trabalho.
Soma-se a isso a sensação constante de que existe alguém melhor logo ali na esquina: mais bonito, mais rico, mais bem dotado.
Os aplicativos de paquera e sexo reforçam essa lógica de vitrine infinita, onde as pessoas parecem substituíveis. O resultado é uma eterna insatisfação: se há uma opção ‘superior’, por que investir no homem imperfeito ao seu lado?
O etarismo também pesa. No universo gay, a juventude é supervalorizada a níveis cruéis.
Aos 30 e poucos anos, muitos já começam a sentir o desinteresse nos apps e nas baladas, como se estivessem fora do ‘prazo de validade’. Isso gera insegurança, pressa e relações mais frágeis, pautadas na validação externa.
Outro ponto delicado é o avanço do modelo de relacionamento aberto. Para alguns, funciona. Para outros, não. O problema é quando essa dinâmica se torna quase uma imposição cultural, como se desejar exclusividade fosse sinal de atraso ou fraqueza. Inúmeros casais entram nesse formato e acabam emocionalmente esgotados.
E, talvez, o mais profundo de todos os entraves: a dificuldade masculina de se entregar de verdade. Independentemente da orientação sexual, homens ainda são ensinados a evitar vulnerabilidade.
Amar, de fato, exige coragem. Requer baixar defesas, assumir riscos, lidar com o medo da perda. E nem todos estão dispostos ou preparados para essa dinâmica.
A história de Carlos Filhar escancara algo maior do que um fim melancólico: revela um vazio coletivo.
A busca por amor segue intensa, quase desesperada, mas esbarra em obstáculos que sabotam qualquer possibilidade de construção sólida a dois.
Existe amor entre gays? Sim. Mas é cada vez mais difícil que seja recíproco e longevo.