Depois do sucesso em Garota do Momento, Pedro Novaes tem a chance de provar ainda mais o seu talento na pele do Leonardo, de Três Graças. Ao lado de Gabriela Loran, o ator aborda a transfobia e destaca, em entrevista à Contigo! Novelas, a importância de falar sobre o tema em uma novela do horário nobre da TV Globo.
Três Graças é sua primeira novela das 21h. O Leonardo chegou na hora certa?
Com certeza. Acho que cada projeto que fazemos, conforme os anos vão passando, a gente vai ficando mais maduro, vai se alimentando, se interessando por outros, isso vai construindo o teu lado artístico, vai amadurecendo nesse lugar e como pessoa também. Qualquer trabalho que eu tiver, vou dar 100% de mim, o meu máximo, não me interessa se é novela das 6, das 7 ou das 9, vou fazer o que sei fazer. Por acaso, agora caiu uma das 9, que é um outdoor maior, é o horário nobre, que tem mais pessoas vendo, mas não estou fazendo mais do que sempre fiz. Garota do Momento abriu um leque na minha carreira, não que ela tenha começado ali, quem me acompanha sabe que fiz outras coisas, minha carreira como ator e como artista começou quando eu nasci. Mas, desde quando me profissionalizei, acho que esse trabalho como ator em Garota do Momento foi um divisor na minha carreira. Acho que Garota do Momento me posicionou no mercado mais firmemente, como esse ator independente, que eu já era, mas as pessoas ainda não me viam tanto.
Sente diferença do olhar das pessoas em relação ao seu trabalho?
Talvez tenha dado essa virada mais ainda, porque antes, quando fiz Malhação, eu senti que já tinha dado essa virada. Eu já tinha me desprendido dessa coisa do 'filho, não sei quê, blá, blá', que em casa nunca foi uma coisa firmada, mas era para o público e eu entendo isso. Meus pais são minhas referências também, entendo de as pessoas falarem isso porque são dois artistas incríveis. Mas uma coisa que venho construindo e tenho conseguido muito firmar é essa imagem individual. E isso vem por meio do trabalho, ao longo do tempo. Eu já sabia que ia demorar o tempo que levou e está tudo indo do jeito que eu imaginei.
Sua trama em Três Graças aborda a transfobia. Qual é a importância de falar sobre esse tema?
Acho muito bom falar sobre isso abertamente na novela, entendo o teor e importância de estar fazendo esse papel para a sociedade, mostrando como as coisas acontecem. Tem que ser dito. A gente vive no país que mais mata pessoas trans. É importante, é pertinente, poder abordar esse tema com seriedade na novela, no horário nobre, em uma das maiores emissoras do Brasil. Então entendo o peso que tem isso e pego essa responsabilidade com unhas e dentes. Quero fazer o melhor trabalho possível.
Após Viviane (Gabriela Loran) abrir para Leonardo que é uma mulher trans, ele ficou perturbado e se meteu numa briga. Como foi gravar isso?
Não foi uma cena fácil. A gente trata de um lugar muito delicado, e é muito importante que tenha holofote em cima desse assunto, para a gente poder debater e discutir como sociedade, para chegar a um lugar em que a gente possa respeitar mais o assunto e toda a comunidade trans. Eu estou ali como um contraponto para dizer tudo isso, mas, para além disso, é uma oportunidade incrível esse personagem, ele tem muitas camadas e essa é uma delas, que ele está descobrindo agora. Fazer essas cenas com a Gabriela, juro... ela é a pessoa perfeita. Tenho muita sorte de ter sido ela, que está sempre trocando comigo, é uma mulher muito letrada em vários assuntos, principalmente nesse, então estou sempre ali de ouvidos abertos também para entender como é que a gente pode fazer uma mudança na sociedade por meio da arte.
O assunto era de seu conhecimento?
Sempre tive pessoas que estavam ao meu redor que são pessoas trans, mas acho que, de fato, nunca mergulhei tão profundo nesse assunto como agora e ainda tenho muito o que mergulhar, com certeza. Com esse trabalho, tenho a oportunidade de aprender cada vez mais.
Qual foi o retorno que você teve dessas cenas?
Tive um retorno positivo em relação à atuação, à profundidade da cena, de estar inteiro ali. Todo dia que estou gravando, tento estar o mais inteiro possível na cena, mas é lógico que essa é uma cena que a gente tem um carinho, um cuidado maior. Fiz todo um trabalho para chegar a esse lugar. A Gabriela também, a gente debateu junto com a direção, com a preparação de elenco, fiz uma preparação por fora também. E, quando vi no ar, fiquei feliz. Muita gente ficou chateada, porque já estava na torcida pelo casal e ele foi transfóbico com ela... Mas essa é a trama. Na verdade, eles se amam perdidamente, estão apaixonados, mas tem um lugar social e aí, falando mais do Leonardo, um lugar que trava ele. Porque dentro da sociedade que ele vive, da criação que ele teve, ele ainda tem muitas travas em relação a aceitar isso tudo. E a gente vai ver no decorrer da trama como ele vai soltando isso. Eu também tenho que descobrir, porque não chegou pra mim esse capítulo ainda. Torço por eles. As pessoas têm um lugar para aprender as coisas, uma outra chance de se mostrar uma nova pessoa. Acho que o Leonardo vai ter essa chance. É uma possibilidade de ele ter um outro olhar sobre a vida, começar a enxergar ela por meio do amor. Vai ser lindo se isso acontecer.