Batalha, racismo, apoio da família... A história de Alana Cabral antes de se tornar uma das protagonista da novela Três Graças (Globo). Confira entrevista da artista à Contigo! Novelas a seguir.
Muitas pessoas estão te conhecendo agora. Quem é a Alana Cabral?
Sou uma menina que desde os 6 anos estuda muito e trabalha para fazer o que gosta. Na verdade, isso nunca foi um trabalho para mim. Só agora, que está se tornando um trabalho mesmo, porque fiz 18 anos e a gente entende que tem uma demanda, muito texto, muita coisa para fazer. Antes era mais uma diversão. Tenho muitos sonhos e carrego sonhos de muita gente da família. Fico muito feliz de estar realizando os meus sonhos e os sonhos das pessoas que acreditaram em mim, como minha mãe, minhas avós. É muito lindo estar nesse lugar carregando tantas histórias. Gosto muito de me comunicar, então estou me entendendo como atriz e como pessoa não anônima agora. Estou entendendo que a comunicação é um ato político para mim nesse momento. Eu sou uma pessoa que represento muitas outras, então é muito importante estar nesse lugar e aprender a me comunicar nesse lugar, como Alana, como mulher negra, como uma garota jovem, como a nova geração da TV Globo também. Aprender a se comunicar e aprender os meus limites é o que faz parte de quem eu sou.
Como foi seu despertar artístico?
Não sabia o que queria ser, mas sabia que queria estar na TV, no palco. Eu morava em Arujá, uma cidade de São Paulo, e participei de um Miss 2013. Foi por acaso, estava na rua, o rapaz me convidou, minha mãe desconfiou, mas insisti para participar e ganhei! Eu era a única menina negra daquele desfile e por muitas vezes o racismo me foi blindado. Naquele momento, minha mãe escutou as pessoas falarem: "Ai, tinha que ser aquela negrinha ganhando". Comentários racistas que nem passavam na minha cabeça que existia, porque eu era pequena, não via um problema em ser negra. Não reparei que era a única menina negra ali. Sempre fui extrovertida, sempre gostei muito do meu cabelo, sempre tive autoestima muito boa. Então minha mãe sempre quis blindar isso de mim. Depois desse dia, ela ficou com medo de me levar para se apresentar em público, porque se numa proporção micro já teve esses comentários. Mas eu continuei insistindo e pedi pra fazer teatro. Fiz vários cursos, aprendi muito, fiz peças, desfilei também, mas vi que não era muito minha praia, eu preferia mesmo o teatro. Comecei a fazer comerciais, só que a gente precisou se mudar para Petrópolis por causa do trabalho do meu pai.
Essa mudança interferiu na sua carreira?
Em Petrópolis não tinha curso de teatro e comecei a falar para os meus pais que eles estavam acabando com minha carreira. Isso com 7 anos, um drama [risos]! Eles encontraram um curso de teatro semanal no Rio. E aí, todo domingo, eles desciam a serra comigo e meus irmãos e, enquanto eu fazia o curso, eles ficavam na orla da praia esperando, porque não tinham onde ficar. Na época, eu não parava para pensar, achava normal minha família me apoiar, mas hoje fico pensando que meus pais foram realmente heróis e são exemplos de pessoas para mim. Depois a gente voltou pra SP, mas aí passei no teste para fazer Verão 90 e tive que me mudar para o RJ. Foram escolhas que a gente teve que fazer, meus pais abriram mao de muita coisa, tiveram que trabalhar remotamente durante um tempo. E foi uma experiência muito doida, porque eu poderia vir só com a minha mãe, só que minha família toda veio, meu pai, meus dois irmãos, meus dois cachorros. São cinco pessoas. A gente morou na Barra da Tijuca, mas a gente morou num lugarzinho muito pequeno, um apartamento com quarto, sala, um flat mesmo. Estamos no RJ há 12 anos e sou muito grata à minha família, meus pais e meus irmãos, que deixaram toda uma estrutura, o lugar onde foram criados, os amigos.
Uma história de luta!
Meus pais foram pais muito jovens, aos 18 e 19 anos, e sempre batalharam muito pra gente não passar pelo que eles passaram. Já estudei na escola municipal, porque foi preciso, e foi muito importante para minha vida de alguma maneira. Em muitos momentos, eu e minha família passamos por altos e baixos, mas sempre quisemos vencer de uma maneira boa e respeitando a nossa origem.
E agora você está contando a história da Joélly, que, de alguma maneira, conversa um pouco com a sua também.
Não sou da Chacrinha, mas sou da Vila Sílvia, da periferia, zona leste de São Paulo, e estar de volta à TV Globo, no horário nobre, com uma novela que fala sobre o lugar onde eu nasci, me traz de volta para a minha infância, minha história, para uma cultura que meus pais foram criados. É uma busca também ancestral. Estou muito feliz com esse trabalho. Eu sempre almejei muito isso, sempre estudei muito. Eu faço o que amo. Não faço para ser famosa. Ser famosa, o reconhecimento, o gostar ou não de mim é uma consequência e eu espero lidar com isso da melhor maneira possível.