Falar sobre quem está moldando a música brasileira hoje não é a mesma coisa que listar os artistas mais ouvidos do país. O segundo pode ser medido por streams, rankings e números de shows. Já o primeiro é mais difícil de quantificar: aparece na estética de uma geração, na maneira como gêneros se misturam, nas referências que outros artistas passam a incorporar e nos espaços que determinados corpos, sotaques e identidades passam a ocupar.
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A música brasileira vive um momento especialmente interessante porque as fronteiras estão cada vez mais difusas. A MPB encontra o pop, a música baiana cria rodas punk e o forró passeia pelo Brasil. Veja os cinco nomes que nos ajudam a entender esse movimento:
Liniker
Liniker talvez seja o exemplo mais claro de como a MPB está ganhando uma nova cara. A música dela conversa com soul, samba, pop e a tradição da MPB, mas não parece presa a nenhuma dessas referências. Liniker ocupa um espaço que durante muito tempo foi reservado a determinados tipos de artistas e leva para o centro uma experiência negra e trans.
Caju fez essa mudança ficar ainda mais evidente. O álbum não só foi celebrado pela crítica -- tendo acumulado três prêmios no Grammy Latino 2025 -- e pelo público, como colocou Liniker em um patamar de destaque dentro da música brasileira.
Tasha & Tracie
Não há dúvidas: o rap vive um novo movimento. Para além da dominação das mulheres no setor, voltando a centralizar a essência do hip-hop em um mercado que viciou em fórmulas prontas, Tasha & Tracie ainda envolvem outra manifestação artística: a moda.
É difícil olhar para a trajetória das gêmeas e separar música de moda. As referências que elas colocam em seus trabalhos também aparecem nos looks, nas fotografias, no cabelo, na maquiagem, na linguagem e na maneira como a cultura periférica é apresentada como referência.
As duas passaram a ocupar espaços importantes da indústria da moda, como editoriais e capas de revistas, além de participarem do São Paulo Fashion Week em 2025. Também lançaram coleção de sandálias com a Kenner e se tornaram embaixadoras da Adidas.
As gêmeas conseguiram fazer uma relação simbiótica em que música molda moda e moda molda música.
BaianaSystem
BaianaSystem também tem uma influência difícil de medir, mas é facilmente sentida. A banda, que mistura guitarra baiana, samba-reaggae, dub, eletrônico e rock mostra hoje o que a música pode fazer quando sai do fone e chega ao público.
A Bahia está em tudo: no som, na rua, no carnaval, na estética e na forma como os shows são construídos. Com isso, os shows do BaianaSystem transformaram a pista em uma espécie de catarse coletiva. A energia é tão física que a música baiana ganha algo próximo de uma roda punk: o público pula, corre, se empurra, abre espaço, volta para o centro e transforma o show em uma experiência corporal.
É uma mudança importante na forma de pensar um show brasileiro. Não se trata mais apenas de colocar uma banda no palco e uma plateia na frente. O público vira parte da apresentação. A energia vem dos dois lados e vai crescendo até virar uma espécie de transe coletivo, e essa influência já começa a aparecer em outros trabalhos.
João Gomes
O forró nunca deixou de ser um fundamento da música brasileira, mas João Gomes, com seu timbre inconfundível, fez com que o Nordeste desse uma volta pelo Brasil, levando não só o forró, como também o piseiro, a vaquejada, sanfona, sotaque e referências.
O que antes era considerado nichado, agora domina as paradas e conquista espaço entre um público cada vez mais jovem. E não foi preciso perder a regionalidade para que isso acontecesse.
João Gomes é um dos rostos mais fortes desse movimento. Ele ajuda a transformar uma identidade regional em uma linguagem pop nacional sem precisar "traduzir" essa identidade para o eixo Rio-São Paulo.
Marina Sena
Marina Sena talvez seja o nome que melhor represente uma mudança importante no pop brasileiro: a ideia de que uma artista pode ser extremamente pop sem precisar se afastar das referências brasileiras.
Isso parece simples, mas não é. Durante muito tempo, quando um artista brasileiro buscava uma sonoridade mais pop, era comum que a referência viesse principalmente de fora. Marina faz quase o caminho inverso. Ela pega elementos de axé, MPB, reggae, brega, piseiro, pagodão e música eletrônica e transforma tudo em uma linguagem pop que soa contemporânea sem deixar de soar brasileira. Tudo vira parte de uma linguagem que o público brasileiro fala muito bem.