Em entrevista resgatada de 1973, John Lennon revelou suas músicas favoritas dos Beatles: destacou "Strawberry Fields Forever" e "I Am the Walrus" entre as suas; elegeu "Here, There and Everywhere" de Paul McCartney; "Within You Without You" de George Harrison; e "Honey Don't" com Ringo Starr. Na ocasião, o músico também criticou as mixagens e conversões de mono para estéreo da época, um perfeccionismo sonoro que hoje guia os aclamados relançamentos e remasterizações de luxo da banda.
A complexidade da relação de John Lennon com o legado dos Beatles é um capítulo à parte na história da música. Após o estrondoso fim da banda, a persona pública de Lennon oscilava entre a nostalgia e uma crítica mordaz, por vezes beirando o rancor.
Há quem diga, como Paul McCartney, que muito desse azedume era apenas uma "bravata", uma fachada para sentimentos mais profundos e contraditórios. No entanto, em um raro momento de abertura, o próprio John Lennon, em entrevista de 1973, resgatada pela revista Far Out Magazine que ecoou pelas páginas de Just Backdated - Melody Maker: Seven Years In The Seventies, se permitiu revisitar o catálogo dos Fab Four e eleger suas músicas prediletas, revelando um olhar particular sobre a genialidade que compartilhou.
Os Escolhidos de um Gênio Inquieto
Naquele período, segundo o próprio Lennon, uma trégua parecia se instalar em sua relação com os ex-companheiros, permitindo uma resposta mais ponderada à pergunta sobre suas canções favoritas.
"Não exatamente. Geralmente eu preferia o lançamento mais recente. O que eu tenho é uma música favorita de Paul McCartney, uma de George Harrison e algumas minhas."
Essa declaração já entrega a nuance: um apreço que não se fixava no passado, mas que reconhecia o brilho individual. Para si mesmo, Lennon elegeu as oníricas Strawberry Fields Forever e a surreal I Am the Walrus, canções que, para muitos, personificam sua veia mais experimental e psicodélica.
Quando o assunto era Paul McCartney, a escolha recaiu sobre a delicada Here, There and Everywhere, um testamento da sensibilidade melódica de Macca. Curiosamente, Lennon ainda fez questão de adicionar outras duas obras de McCartney à sua lista de predileções: a dramática Eleanor Rigby e a melancólica For No One, ambas joias do álbum Revolver.
Para George Harrison, o misticismo de Within You Without You foi a canção eleita, sublinhando a contribuição singular de Harrison para a sonoridade dos Beatles, especialmente em Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. E para o baterista Ringo Starr, a divertida Honey Don't, um cover de Carl Perkins que Ringo cantou, mostrou o lado mais descontraído da banda.
Essas escolhas são um vislumbre fascinante do apreço mútuo, mesmo em meio às turbulências pós-separação, e alimentam o imaginário dos fãs sobre a química criativa da banda.
A Batalha do Som: Mono x Estéreo e o Legado Digital
Contudo, nem tudo era nostalgia para Lennon. A entrevista também revelou sua insatisfação com os relançamentos do catálogo dos Beatles que ocorriam na época. A conversão de mono para estéreo, prática comum para adaptar as gravações a novas tecnologias de áudio, era vista com desdém pelo artista.
"Quando recebi pela primeira vez uma cópia das coletâneas dos Beatles, fiquei nervoso demais para ouvir, com medo de que tivessem sido mixadas errado. Achei o som meio grosseiro. Ouvi falar que eles tentaram converter os álbuns antigos para estéreo. Queria que não tivessem feito isso…
Essa preocupação com a integridade sonora reflete o perfeccionismo e a atenção aos detalhes que marcaram a produção musical do quarteto.
Hoje, décadas depois, a indústria musical abraça com fervor a remasterização e o remix de clássicos. Álbuns icônicos como Revolver (1966), Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967), o White Album (1968) e Abbey Road (1969) receberam tratamentos de luxo, com novas mixagens em alta qualidade sonora lideradas por Giles Martin, filho do lendário produtor original George Martin.
Essas edições, que frequentemente incluem faixas inéditas e materiais de arquivo, não apenas revitalizam o legado dos Beatles para novas gerações, mas também oferecem uma nova perspectiva sobre a obra, corrigindo imperfeições técnicas que talvez incomodassem Lennon.
O próximo a entrar nessa lista VIP é Rubber Soul (1965), com lançamento previsto para 2 de outubro, prometendo mais uma imersão sonora na mente musical de uma das maiores bandas de todos os tempos.
A complexidade de John Lennon, suas escolhas e suas críticas, continua a ecoar, moldando a forma como interagimos com a música e a história.