A história do Black Pantera: fazendo a coisa certa [ENTREVISTA]

Preparando-se para dividir palco com seus ídolos do Korn, banda mineira colhe frutos e vive melhor momento de uma carreira que, até agora, só teve 'altos', sem 'baixos'

14 mai 2026 - 16h58

"O caminho sempre foi para frente, nunca retrocedeu." A reflexão do baixista e vocalista Chaene da Gama sobre os 12 anos de Black Pantera é certeira e ao mesmo tempo curiosa. De fato, a maior banda brasileira de som pesado na atualidade tem colhido frutos de uma trajetória marcada, até agora, apenas por ascensão, sem quedas. Enxerga-se crescimento constante no grupo formado em Uberaba (MG) e completo por Charles Gama (voz e guitarra) e Rodrigo "Pancho" Augusto (bateria), seja no âmbito artístico ou comercial. Mas foram necessários trabalho árduo e tomadas de decisão corretas para chegar a esta realidade.

O contexto de 2026 envolve, por exemplo, ser uma das atrações de abertura para o show único do Korn no Brasil, agendado para o dia 16 de maio no Allianz Parque, em São Paulo. Tal informação faz o trio, naturalmente, refletir sobre as conquistas na última década e meio, pois lá atrás eles tinham um projeto de covers — e um dos homenageados mais frequentes eram os baluartes do nu metal, com quem agora dividem o palco.

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"Tínhamos uma banda chamada Metal Machine, que tocava tudo que gostávamos de música pesada: Korn, Sepultura, System of a Down, Slipknot. Rodrigo chegou a fazer parte por um tempo", conta Chaene, antes de exaltar o baixista afastado do grupo. "Sempre fui muito fã do Fieldy, de como ele meio que arquitetou o som do nu metal, com aquele baixo percussivo junto com a bateria." Por tudo isso, Charles planeja: "Vamos tentar separar o máximo possível, mas depois que tocarmos, quero curtir sim o Korn lá embaixo com a galera."

No entanto, para chegar ao patamar de atração de abertura do Korn, escalação constante nos maiores festivais de música do Brasil e presença em eventos no exterior, eles precisaram abdicar dos covers. Banda preta antirracista nascida em pleno interior de Minas Gerais, Black Pantera começou como um projeto solo de Charles, que, de início, sequer conseguia convencer o irmão Chaene e o amigo Rodrigo a participarem.

"A ideia se chamava Projeto Charlinho Black Demon, porque eu não achava ninguém", admite o vocalista e guitarrista, que sempre pensou nos dois atuais parceiros como peças ideais para o grupo. "Fui conhecer as duas primeiras músicas do Black Pantera já no estúdio e eu não queria saber mais de mexer com banda autoral, não queria mais isso na minha vida — tanto que tínhamos o Metal Machine e eu já trabalhava com música nessa época", confirma Chaene, antes de complementar: "O Rodrigo nem quis gravar esses sons e aí você vê como as coisas aconteceram de 2014 até hoje."

Os "sons" mencionados pelo baixista e cantor são o repertório do álbum inaugural Project Black Pantera (2015), todo composto por Charles — exceção feita a "Rede Social", contribuição de Chaene. Vem desse disco faixas como "Boto Pra F*der", "Ratatatá" e "Abre a Roda e Senta o Pé", responsáveis por lhes abrir portas no Triângulo Mineiro e, após uma campanha de financiamento coletivo, até mesmo na França, onde, em 2016, se apresentaram na edição parisiense do festival Afropunk.

Como o trio, outras pessoas nessa caminhada fizeram a coisa certa. Uma das primeiras foi o produtor Ricardo Barbosa, que cedeu gratuitamente seu estúdio em Uberaba, 106 Studio, para as gravações do material. "Só agora ele recebeu o pagamento por gravar nossas músicas naquela época; e ele fez tudo — gravar, mixar e masterizar — na camaradagem, por gostar e enxergar potencial", conta Chaene. Para cobrir outras despesas ligadas à prensagem de 500 cópias do CD, os músicos vendiam rifas pelas ruas de Uberaba.

O álbum seguinte, Agressão (2018), deu sequência à caminhada por maior reconhecimento, mas hoje os integrantes veem o disco de faixas como "Taca o F*da-se" e "Prefácio" como "um pouco subestimado". Rodrigo explica: "Na época não tínhamos condições de divulgar as músicas, então elas foram pouco ouvidas." Neste caso, a evolução esteve mais ancorada na parte artística, pois o Black Pantera ganhou, em definitivo, uma cara de banda. "Enquanto o Project Black Pantera foi todo concebido pelo Charles, Agressão teve a participação de todos", pontua o baterista.

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Ponto de virada

Comercialmente falando, a virada de chave para o Black Pantera ocorre em seu terceiro álbum, Ascensão (2022). Canções indispensáveis nos shows como "Fogo nos Racistas", "Padrão é o Caralho" e "Mosha" estão presentes no disco, disponibilizado pela gravadora Deck — a mesma que lançou nomes como Pitty e Matanza.

"Entendemos durante as outras turnês que músicas como 'Fogo nos Racistas' e 'Padrão é o Caralho' pegariam, então passamos a compor para que essas frases pegassem", explica Chaene da Gama, abordando ainda o impacto do primeiro single. "A galera já ficou: 'como assim?' com a 'Padrão', com um trecho como 'Jesus não era branco, não era ariano, a vida começou no continente africano'."

Surpreende saber, contudo, que o disco ficou guardado por um ano e meio. Suas gravações ocorreram em outubro de 2020, mas optou-se por esperar o fim da pandemia de covid-19 para o lançamento, em março de 2022. Novamente, fazendo a coisa certa. Não deixava de ser, contudo, uma movimentação delicada.

"Tivemos medo, pois sabíamos que tínhamos um material gigantesco, mas as pessoas estavam morrendo sem parar no Brasil e isso poderia ter acontecido com qualquer um de nós", afirma o baixista e vocalista. "E aconteceu: infelizmente, o pai do Rodrigo pegou covid e faleceu. Depois de tudo isso, 2022 foi um ano de vitória, porque o mundo voltou a respirar novamente."

O conceito do álbum seguinte — e o mais recente até o fechamento deste texto —, o premiado e ainda mais aclamado Perpétuo (2024), nasceu de um show em um festival no Chile. "Havíamos acabado de lançar um EP em inglês, Griô (2023), mas várias bandas da América Latina se apresentaram e todas cantando na língua nativa, falando com suas regionalidades", afirma Chaene. "Falamos: 'não vamos tocar um EP feito em inglês'. Ali nos vimos como afro-latinos. E começa ali o conceito desse disco, que é mais ancestral, e de músicas como a faixa-título, 'Provérbios', 'Tradução' e 'Candeia'. Com ele, permitimos mostrar nossas fragilidades." Charles complementa: "Pudemos ter essa proposta afro-latina e continuar sendo o Black Pantera."

Presente e futuro

Parece algo trivial ou óbvio, mas os integrantes se orgulham em dizer que, hoje, conseguem viver somente do Black Pantera. Não é a realidade da maioria dos artistas de seu segmento. "Quando estávamos em nossos 30, ninguém sequer imaginava que isso seria possível", reflete Chaene.

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A coisa certa foi feita não apenas em arte e mercado, mas também — e especialmente — em mensagem. Raríssimas bandas na história do rock abordaram discriminação como o trio mineiro. A mensagem é elucidativa e enfática, sem rodeios, mas não compromete a ponto de transformar obra ou concerto em "palestrinha". "Acho que estamos no começo, pois muitas pessoas ainda não entendem a mensagem, o quão importante é lutar contra qualquer tipo de preconceito", pontua o baixista.

Como o recado ainda não é compreendido da forma devida, há a parte negativa de tamanha popularidade: haters. "Isso acaba sendo pesadíssimo e se você ficar só olhando os comentários de ódio, você adoece", destaca Charles Gama, que também revela como enfrenta a situação: "Desde o começo, nunca dei bola, mas vez ou outra surge algo que pega. Lidamos da melhor forma possível. Antigamente, comprávamos muita briga. Hoje, deixamos lá. Temos fãs maravilhosos que compram a briga." Chaene completa: "Temos até que educar os nossos familiares. Às vezes, meu pai ou minhas filhas veem comentários em uma matéria e eu falo: 'deixa, não discute'. Não vamos mudar isso daqui de casa discutindo com a pessoa, ainda mais por ser uma parcela ínfima."

O arremate final no tema fica a cargo de Rodrigo, o mais direto em suas declarações: "Hater é bom para gerar engajamento. Então, continue gerando engajamento. Não vamos responder — somente ao vivo, no show, onde damos a nossa melhor resposta."

E o que vem pela frente? Além de uma incansável agenda de shows a ser cumprida, o Black Pantera lançará dois trabalhos em 2026. Um deles é ao vivo e em formato audiovisual: Resistência! Ao Vivo no Circo Voador, que chegou dia 8 de maio com exibição completa de show no canal de TV por assinatura Bis. "Foi o melhor show da minha vida — melhor que Rock in Rio ou qualquer outro —, porque o público foi só para assistir ao Black Pantera", exalta Rodrigo. "E foi a realização de um sonho poder gravar no Circo Voador, uma casa no Rio de Janeiro onde vimos várias bandas."

O outro, ainda mais aguardado, é o próximo disco de inéditas, quinto no catálogo. Ao longo do mês de janeiro, Charles, Chaene e Rodrigo gravaram 17 músicas em 15 dias. Algumas canções ficarão de fora do material final, a ser disponibilizado no segundo semestre — possivelmente em agosto. O trio faz mistério em relação ao conceito ou a detalhes, mas prometem fundir elementos de tudo o que se ouviu deles até agora com algo novo.

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"Para mim, já é o melhor disco do Black Pantera", empolga Rodrigo. "Acho que irá expandir mais os nossos caminhos", destaca Chaene, antes de reconhecer: "O público se expandiu com Perpétuo. 'Tradução' [música que celebra as mães trabalhadoras] pegou muito na galera. Percebemos não ter problema em falar sobre nossos amores, nossas dores… e ainda há muito mais o que falar."

Rolling Stone Brasil: revista especial com Korn

À VENDA: O Korn estampa a capa da nova edição da revista Rolling Stone Brasil. Com um show especial no Allianz Parque marcado para 16 de maio, a lendária banda de nu metal narra seus próximos passos — incluindo um álbum que está sendo preparado — e reflete sobre como seus contemporâneos estão mais relevantes do que nunca. Também há entrevistas com Iron Maiden, Black Pantera, Spiritbox, Shavo Odadjian (Seven Hours After Violet), entre outros. Compre no site Loja Perfil.

Foto: Rolling Stone Brasil
Rolling Stone Brasil
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