O carnaval de São Paulo teve uma grande novidade em 2024, quando Antônio Pereira da Silva, o Zulu, se despediu da apuração dos desfiles das escolas de samba após 30 anos. Naquele ano, Eloise Matos, locutora com mais de 30 anos de experiência, assumiu a missão de ler as notas que cada agremiação recebeu e relembra que foi desafiador entrar em um universo majoritariamente masculino, mas o desafio também a motivou.
- Essa reportagem faz parte da série Donas da Folia, que traz os bastidores da participação feminina no carnaval; leia o custo para ser musa, a história de Solange Cruz e a preparação de Ivete Sangalo
"Para quem acompanha o carnaval já há algum tempo, foi uma mudança meio brusca ter acompanhado uma voz masculina durante tantos anos e, de repente, chegar uma mulher. Para mim, ocupar esse espaço é motivo de muito orgulho", conta Elô, como é conhecida, em entrevista ao Terra.
A locutora relembra que foi alvo de críticas e comentários machistas nos dois primeiros anos na função, mas em 2026, no terceiro ano consecutivo de trabalho na apuração das notas, ela sente uma melhora.
"É desafiador entrar em um universo que é mais masculino que feminino. Um dos desafios é não se deixar levar pela opinião das pessoas, porque tem quem goste da novidade e quem não goste, porque já estava acostumado com aquela voz. Fui convidada pela Liga, que já conhecia o meu trabalho e sabia que eu tinha potencial. Então, estou ali para desempenhar o meu papel."
"É importante eu estar lá para mostrar que as mulheres também desempenham bem esse papel. Seja na apuração, ou como presidente de escola de samba. Não é fácil desempenhar esse papel em ambientes masculinos" -- Eloise Matos ao Terra
O convite para ser a nova voz do carnaval de São Paulo foi algo que a pegou de surpresa. A locutora relembra que um diretor da Liga-SP a chamou para uma reunião, mas ela não esperava que fosse receber uma proposta para algo tão importante. "Fiquei muito feliz e topei na hora. Adoro desafios, é algo que me move. Ali, minha mente já começou a trabalhar em como iria desempenhar aquele papel. Não pensei duas vezes, disse sim na hora."
A proposta para comandar a apuração das notas das escolas de samba de São Paulo veio após Eloise trilhar uma longa carreira como locutora. Ela está há mais de 30 anos no rádio, principalmente em emissoras que tocam samba e pagode, e já trabalhou em frentes ligadas ao carnaval em outros momentos.
Elô considera que estar cinco horas por dia ao vivo na Transcontinental, emissora da Grande São Paulo, já é algo que a prepara para a leitura das notas. Entretanto, ela toma alguns cuidados redobrados no momento da apuração.
"Tem que ter uma preparação vocal para a apuração, porque tenho que manter um tom para todas as escolas e levar isso do início ao final da apuração. Se não tiver essa preparação, pode ser que, em algum momento, a voz comece a falhar. Procuro ficar calma, não falar muito no dia da apuração e beber muita água. Faço alguns exercícios para aquecer a voz antes de começar a apuração e bebo água nos intervalos"
A voz do carnaval de São Paulo considera que o maior erro que pode cometer no momento da apuração é ler uma nota errada. Ela nunca cometeu esse deslize e espera que continue assim. "Um fator importante é a atenção, ao nome da escola, do jurado e à nota. Também tem uma pessoa ao meu lado que vai me dando toques, se o tom está legal, se é para manter assim ou se preciso mudar algo."
Há três anos responsável pela apuração, Elô conta que os comentários de apoio de outras mulheres foram muito mais marcantes do que qualquer crítica que já recebeu. "O retorno das mulheres se sentindo representadas é o que me marca até hoje. Quando elas me falam que estão felizes de ter uma mulher na apuração, é gratificante, marcante e me emociona", conclui a locutora.