A cantora Pepita será a única mulher trans à frente de uma bateria no Carnaval de São Paulo 2026, pela Unidos de São Lucas, destacando seu papel como ato de resistência e representação da comunidade LGBT+ no evento.
A cantora Pepita, de 43 anos, será uma das poucas mulheres trans à frente de uma bateria no carnaval 2026 de São Paulo. Como manda a tradição, ela desfila neste sábado, 7, pela Unidos de São Lucas (Acesso II), no Sambódromo do Anhembi, na zona norte da cidade. Em entrevista ao Terra, ela falou sobre os preparativos e o sabor agridoce do local que ocupa.
“Em alguns momentos, eu me sinto bem, mas em outros eu fico muito triste com isso. Porque eu acho que existem muitas Pepitas por aí que queriam assumir uma bateria e têm potencial, têm carisma, têm samba no pé”, iniciou, em conversa com a reportagem.
“Fico triste, mas também me sinto honrada de ser [uma das únicas] a pisar no Anhembi. Me sinto honrada de ter o meu corpo ali, a minha bandeira ali, a minha forma de viver, a minha forma de amar, o meu jeito de sambar, a minha energia. É além de uma sandália mexendo para um lado e para o outro. É muito intenso ali. É um ato de coragem, é um ato de resistência, mas, ano que vem, quero ver meninas iguais a mim assumindo uma bateria”, complementou.
Além de Pepita, Camila Prins também desfilará no Anhembi pela Colorado do Brás no Grupo Especial. Mesmo assim, a cantora e influencer cobra mais lugares para pessoas da comunidade LGBT+ no carnaval.
“Eu acho que as pessoas têm que entender que o carnaval é feito pela minha comunidade também. Se você entrar em qualquer barracão, tem uma gay fazendo a cabeça [headpiece] da musa, o costeiro da rainha, a sandália da passista. E por que essas pessoas não podem assumir uma bateria? Por que essas pessoas não podem entrar nesse lugar? Deixo o recado para que enxerguem essas pessoas e ali possa ser o nosso lugar também”.
'Ainda existe preconceito no carnaval'
Quando Pepita fala sobre não ser a primeira, ela se embasa em acontecimentos históricos. Antes dela, o carnaval teve Eloína dos Leopardos, uma famosa travesti da cena carioca, e Jorge Lafond, a eterna Vera Verão, que, apesar de não ser trans, chamou atenção na época por ser um homem gay ocupando um posto tradicionalmente deixado a cargo de mulheres.
Mesmo não sendo pioneira, ela afirma que isso não a eximiu de sofrer preconceito no posto. “Existe um preconceito, sim. Ainda existe porque, logo quando eu me tornei rainha de bateria, eu sentia que os veículos de comunicação que falavam de carnaval não falavam comigo, não me entrevistavam, não chegavam até a mim. E, por mim, tudo bem, sabe? Eu faço o meu carnaval, eu vivo o meu carnaval, mas entendi que era um bloqueio que tinham e ainda têm. Mas, se você tem esse pensamento preconceituoso, continue com esse preconceito, que eu continuo te incomodando, e a gente vai se dar muito bem”.
'Gosto de honrar meu lugar'
Com desfile marcado para este sábado, 7, Pepita garante que dará um show de samba e energia. A ideia é fazer bonito e honrar o posto que foi confiado a ela. “Eu não falto a ensaio, vou a todo evento da quadra; para eu faltar, tem que ser uma gravação bem importante. Então, a gente só está nesse meio agora porque foi permitido a gente estar, porque um presidente acreditou em mim, um mestre acreditou em mim e eu acreditei em mim para estar na frente de uma bateria. Então, gosto de honrar tudo isso”, ponderou.
Questionada sobre o preparo físico e mental, ela não poupa detalhes. “O pé fica acabado, as costas ficam acabadas, o bolso fica pesado [gasto]. Então, tudo é muito intenso”, disse.
Na tentativa de dar pouco spoiler, ela revela ao Terra que sua fantasia pesa em torno de 10 a 15 quilos. Para aguentar sambar por 1 quilômetro com esse peso todo, ela treinou bastante: fez boxe, cardio duas vezes ao dia, musculação e mais, tudo isso enquanto equilibra os demandas de ser mãe, empresária, influenciadora e cantora. Perto do desfile, ela quase não dorme.
“Eu vou fazer o meu melhor em tudo. Todas as pessoas que me conhecem sabem, então eu vou fazer o melhor para entregar um bom desfile para todos, não só para a minha escola, um bom desfile para todos que se sentirem confortáveis, acolhidos de me verem ali, pela minha comunidade, por todos nós”.
*A cobertura de carnaval do Terra tem apoio de Bluefit, Gol, Magalu, Mercado Pago, OMO, Popeye's e Visa #TerraNoCarnaval