Por Tem Que Ver*
A Arábia Saudita debutou tardiamente em Copas do Mundo da FIFA - os Falcões Verdes (Al-Suqour Al-Khodhur, em árabe) estrearam nos Estados Unidos, em 1994, quando, paradoxalmente, fizeram a melhor campanha de sua história no torneio, alcançando as oitavas-de-final. De lá para cá, contando este ano, os sauditas disputaram sete Copas em nove possíveis, refletindo, assim, a grandeza da seleção no continente asiático - infelizmente, a campanha em 2026 foi decepcionante, com um empate e duas duas derrotas que decretaram a eliminação na fase de grupos.
A seleção saudita confiou ao grego Georgios Donis a tarefa de comandá-la à beira do campo, isso após a demissão de Hervé Renard há cerca de dois meses da Copa. A classificação para a disputa na América do Norte foi mais suada do que imaginado à primeira vista pelas Eliminatórias da AFC - após perderem a vaga para Japão e Austrália, a Arábia Saudita decidiu sua sorte num triangular contra Indonésia e Iraque.
Centro cultural e político da religião islâmica em sua vertente sunita, a Arábia Saudita tem uma história bastante conturbada e rarefeita no âmbito da sétima arte. Até a década de 1970, havia vários cinemas no país e eles não eram considerados anti-islâmicos, embora fossem vistos como contrários às normas culturais árabes. Nessas salas, filmes egípcios, indianos e turcos eram exibidos sem a intervenção do governo. No entanto, todas elas foram fechadas devido às crescentes objeções dos conservadores religiosos durante o movimento de reavivamento islâmico nos anos 1980.
No período de 1983 a 2018, apenas duas salas de exibição estiveram abertas no país: uma IMAX, no Centro de Ciência e Tecnologia Sultan Bin Abdulazize, na cidade de Khobar, onde eram exibidos apenas documentários educacionais; a outra funcionou por tempo limitado num hotel localizado em Riad, exibindo animações estrangeiras dubladas em árabe e podia ser frequentado somente por mulheres e crianças. Em 2017, como parte da iniciativa Saudi Vision 2030, o Ministro da Cultura e Informação da Arábia Saudita anunciou que os cinemas públicos voltariam a ser permitidos no país.
Para representar a Arábia Saudita na Copa do Mundo de Cinema, o escolhido foi O Sonho de Wadjda, da diretora Haifaa al-Mansour, que trata-se do primeiro filme dirigido por uma mulher no país e o primeiro candidato saudita ao Oscar. Apesar de não ter ficado entre os cinco finalistas na categoria Melhor Filme Internacional da premiação estadunidense, o filme recebeu uma indicação para Melhor Filme Estrangeiro no BAFTA Awards. Do ponto de vista da logística da produção, lançada em 2012, filmar em Riade, sendo uma mulher à frente do projeto, era uma tarefa quase impossível. Devido às leis de segregação, Haifaa al-Mansour frequentemente precisava dirigir a equipe de dentro de uma van escura, usando um walkie-talkie e monitorando as cenas por uma tela pequena, para evitar ser vista trabalhando publicamente com homens.
O longa-metragem conta a história de Wadjda, uma menina que, mesmo tendo sido criada na doutrina muçulmana, tem um jeito de pensar e agir diferente das outras meninas de sua idade. Ela sonha ter uma bicicleta para brincar com seu amigo Abdallah; porém, em sua cultura, meninas não andam de bicicleta e muito menos com meninos. Em vez de criar um manifesto político denso, a diretora canalizou, aqui, o desejo de emancipação feminina através de um objeto universal. A ironia dramática mais refinada do roteiro se dá quando Wadjda decide participar de um concurso de memorização do Alcorão na escola. Ela subverte o próprio sistema que a restringe, utilizando a estrutura religiosa oficial para financiar seu símbolo de liberdade. É um comentário agudíssimo sobre a agência feminina operando dentro das frestas do patriarcado.
*Texto publicado originalmente no portal Tem Que Ver Cinema