Jovens resgatam o uso de câmeras digitais antigas como forma de desacelerar o ritmo das redes sociais, valorizando registros mais espontâneos, orgânicos e uma conexão com o estilo "vintage".
Quem já se deparou, em casa, com uma gaveta onde ficam os eletrônicos antigos — celulares esquecidos, talvez quebrados, carregadores inutilizados e cabos infinitos — pode ter encontrado ali uma câmera digital antiga, que era usada para fazer registros da família, em festas e viagens. Se você pensou que o celular viria para substituir de vez essa câmera, se enganou. As câmeras digitais voltaram a clicar por aí, deixando o esquecimento de lado e caindo no gosto dos jovens com apreço pelo “vintage”.
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A mestranda e pesquisadora em Antropologia Milena de Oliveira Silva, de 24 anos, fotografa por hobby, e foi exatamente desse jeito que, durante a pandemia, ela resgatou uma câmera digital antiga — esquecida em uma gaveta — para começar a fazer seus registros.
A estética e o fato de precisar se programar para tirar as fotos, e não fazer isso de forma automática, como faria com o celular, por exemplo, são as melhores partes do processo segundo a pesquisadora.
“É talvez um apego de tentar pegar alguma essência dessas épocas que a gente não viveu. Estamos soterrados por milhares de tecnologias, uso de inteligência artificial... Acho que isso também são formas de conseguir escapar e sentir que tem algum controle sobre o que estamos fazendo, o que estamos produzindo", diz Milena.
As fotos, normalmente, não são editadas depois que saem do cartão de memória da câmera e são passadas como arquivos através de um cabo para o computador. Depois, se forem postadas nas redes sociais, não costumam sofrer alterações.
"Você não vai editar a foto dessa câmera, pelo menos a maioria das pessoas que eu conheço que usam, e eu também, você pega ela, passa para o computador e, se quer postar, posta assim. Não vai ter essa coisa de arrumar a iluminação, é uma coisa mais orgânica”, explica.
A cientista social Giulia Caselato, de 25 anos, também virou adepta das câmeras digitais. Na família dela, o gosto pela fotografia vem desde seu avô, que usava uma câmera analógica, e depois migrou para a digital. Ela mesma conta já ter experimentado com vários tipos de câmera, mas hoje tem em sua Sony Cybershot uma verdadeira companheira para sair com amigos e registrar a cidade.
Ela conta que a preferência é pelas fotos da câmera, e não do celular “justamente pela espontaneidade dos registros, por me deslocar da ‘facilidade’ do celular, por ser algo em que invisto, de fato, atenção durante o processo, em todas as etapas".
“Essa coisa de demandar tempo no processo gera curiosidade e agrega muito à experiência, resiste ao ritmo acelerado e ao imediatismo que experienciamos hoje em quase todos os aspectos da vida. Vejo como um deslocamento, mesmo. Um respiro", diz.
Para a cientista social, a experiência vai além da estética, que também agrada pelo resgate dos anos 2000 (que muitos atuais adeptos das câmeras digitais sequer viveram). “Existe uma vontade desse resgate a um tempo em que as coisas não tinham um ritmo tão acelerado. Estamos todos saturados disso".
Offline é o novo cool
Mas o que explica o comportamento nostálgico entre jovens que não viveram plenamente essa época, quando as câmeras começaram a se popularizar? A pesquisadora em IA, comportamento e ética Laura Hauser avalia que não é novidade que jovens busquem se diferenciar resgatando gadgets antigos.
“Hoje são as câmeras, mas já foram as fitas cassetes, o disco de vinil, mas a tendência à nostalgia tecnológica é uma constante. Tem a ver com resistência, tem a ver com ser cool, ser descolado, não entrar no senso comum", explica.
A pesquisadora afirma que a busca pelo imperfeito em meio a padrões estéticos cada vez mais exigentes e inalcançáveis é outro motivo para o retorno de elementos que nos remetem à afetividade nostálgica. “Tem uma busca por autenticidade em um mundo que está cheio de filtros. É um desejo por desconexão forte, um cansaço das redes sociais”, avalia.
Hauser entende que a busca por autenticidade acontece em um momento em que as imagens de inteligência artificial e fotos com filtros tomam conta da internet. “São imagens sempre muito perfeitas, só que claramente falsas. E aí surge essa nova ética contra a perfeição, e que busca algo mais afetivo e menos perfeito".
As fotos com câmeras digitais, portanto, vêm como uma resposta, uma reação à cultura que prega a harmonização facial, uso de remédios para emagrecer, a padronização de estética, diz Laura.
“Ninguém é perfeito, ninguém está todos os dias perfeito, ninguém tem a pele perfeita, ninguém tem o ambiente perfeito. Então, é uma resistência ao mercado, e isso a gente já vê acontecendo há várias gerações", pontua.