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Cientistas franceses desenvolvem vacina para evitar reações alérgicas graves

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 50% da população mundial terá algum tipo de alergia até 2050. Algumas delas geram reações grave e podem provocar um choque anafilático, potencialmente fatal. Para preveni-lo, uma equipe de cientistas franceses testou, com sucesso, uma vacina terapêutica contra as alergias. O resultado foi publicado recentemente na revista científica Sciences Translacional Medicine.

13 jan 2026 - 09h42

Taíssa Stivanin, da RFI em Paris

O cientista francês Pierre Bruhns, do Instiuto Pasteur em Paris, dirigiu uma equipe de pesquisadores que desenvolveu uma vacina terapêutica contra as alergias.
O cientista francês Pierre Bruhns, do Instiuto Pasteur em Paris, dirigiu uma equipe de pesquisadores que desenvolveu uma vacina terapêutica contra as alergias.
Foto: © Divulgação / RFI

O estudo durou sete anos e foi realizada por uma equipe de cientistas franceses. De acordo com o cientista Pierre Bruhns, do Instituto Pasteur em Paris, que conduziu a pesquisa ao lado do pesquisador Laurent Reber, as alergias respiratórias ou alimentares são desencadeadas por um mecanismo de "reconhecimento" entre os alérgenos e proteínas presentes na superfície das células, conhecidas como IgE, ou imunoglobulinas E. Esses anticorpos são produzidos por células do sistema imunológico chamadas plasmócitos.

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A maior parte dos IgE se fixa nos mastócitos — células do sistema de defesa presentes na pele — e nos basófilos, um tipo de leucócito, ou glóbulo branco, existente no sangue. A reação entre os alérgenos e os IgE provoca as alergias, que podem ser localizadas ou generalizadas, gerando um choque anafilático.

"A vacina possibilita ao indivíduo, ou ao organismo que estamos imunizando, a criação de anticorpos dirigidos contra as IgE e o bloqueio dessas IgE, antes que elas consigam se fixar nos mastócitos ou basófilos. Esse é o princípio da vacinação", diz. "Então, se o paciente é alérgico a várias substâncias, a vacina poderá protegê-lo de vários alérgenos de uma vez."

Atualmente, o único tratamento que previne as reações graves é o omalizumabe, que fornece ao paciente anticorpos para bloquear as IgE. O medicamento existe há 20 anos e é injetado no hospital. O efeito é longo, garantindo o conforto do paciente. Mas a 'logística' é complexa, sobretudo para pessoas que vivem longe dos estabelecimentos.

"Em vez de fazer as pessoas irem ao hospital para tomar uma injeção desse anticorpo, propomos vaciná-las com duas ou três doses e, após dois ou três anos — talvez até mais — elas vão ficar livre do medicamento e continuarão protegidas das alergias." Sem prevenção e, em caso de choque anafilático, o único tratamento possível contra a reação alérgica grave é a injeção de adrenalina, lembra o pesquisador do Instituto Pasteur.

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"O choque anafilático provoca uma parada cardiorrespiratória, e a adrenalina faz com que o pulmão volte a funcionar normalmente. Ela funciona muito bem quando é administrada precocemente, mas, se for dada tarde demais, o paciente pode sofrer uma alergia grave, até mortal", ressalta.

Terapia foi testada em camundongos

No laboratório, durante os sete anos de pesquisa, a nova terapia foi testada em camundongos. "O camundongo é resistente ao desenvolvimento de alergias. O modelo que podemos utilizar em laboratório para que eles se tornem alérgicos não é, em regra geral, dependente da ação das imunoglobulinas E, como nos humanos", explica Pierre Bruhns.

A equipe precisou, então, adaptar o sistema imunológico dos animais para desencadear reações alérgicas semelhantes às que ocorrem em humanos e provar a eficácia da vacina terapêutica. "Injetamos IgE humanas diretamente nos camundongos para sensibilizá-los, como nos humanos. Em seguida, vacinamos os camundongos e injetamos os alérgenos, que vão interagir com as IgE. É como se estivéssemos imitando a reação alérgica no homem, sem que o camundongo precisasse produzir sua própria imunoglobulina E."

Nos animais, as vacinas forneceram proteção de 100% contra alergias durante um ano, o que equivale à metade da vida de um camundongo. A expectativa é que, no homem, essa proteção dure mais tempo — até dez anos —, algo que só poderá ser estabelecido após os ensaios clínicos.

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Mas, antes, será feita a análise da toxicologia da vacina e de seus possíveis efeitos colaterais, como exige a regulamentação europeia. Essa etapa será conduzida pela empresa Neovacs, que decidirá, em seguida, se é necessário validar o estudo em primatas. Só então o medicamento-candidato poderá ser testado no homem.

A equipe também desenvolve, paralelamente, uma vacina que impedirá crises graves de asma. "De modo geral, a vacinação contra alergias respiratórias e alimentares está progredindo, e a gente faz o que pode para obter soluções clínicas. Esperamos obter as autorizações para realizar os testes em humanos e para a comercialização."

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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