Cientistas descobriram que neutrófilos e a molécula IL-4 desempenham papel essencial na regeneração da medula espinhal em peixes-zebra, abrindo caminho para futuras terapias em humanos.
Uma descoberta sobre o sistema imunológico de peixes-zebra pode mudar o futuro da medicina regenerativa em humanos, segundo uma reportagem publicada nesta segunda-feira, 7, na revista Science. Pesquisadores do Centro de Terapias Regenerativas de Dresden identificaram como neutrófilos e a molécula IL-4 trabalham juntos para permitir a recuperação de fibras nervosas.
O próximo passo da equipe internacional é investigar se esse mecanismo de controle inflamatório pode ser replicado em pacientes humanos com lesões na medula.
O estudo analisa larvas de peixe-zebra para compreender os processos biológicos que permitem ao animal regenerar o sistema nervoso central após traumas graves. A análise aponta que a atuação de células do sistema imune vai além da simples limpeza de detritos celulares.
Como os neutrófilos atuam no processo de regeneração?
Os neutrófilos coordenam a resposta imunológica e desviam o tecido de uma inflamação prejudicial para condições biológicas que favorecem a regeneração. O sinal determinante identificado pelos cientistas é a molécula de sinalização IL-4.
Quando os cientistas inativaram esse grupo de neutrófilos nos testes, a resposta imunológica perdeu o equilíbrio. Outras células de defesa produziram quantidades excessivas de proteínas inflamatórias, impedindo os peixes-zebra de regenerar as fibras nervosas e de recuperar os movimentos corporais.
Ao inserir a molécula IL-4 diretamente no local lesionado, a inflamação diminuiu e as medulas espinhais se recuperaram plenamente, mesmo na ausência dos neutrófilos.
O que explica a diferença entre peixes-zebra e humanos?
Em seres humanos, a reação imune pós-trauma no sistema nervoso central costuma gerar cicatrizes e danos prolongados em vez de estimular a recuperação tecidual. O peixe-zebra atua como modelo biológico para revelar o controle inflamatório exato que viabiliza o crescimento celular.
O pesquisador Thomas Becker, líder do estudo, detalha o mecanismo observado:
"Pela primeira vez, mostramos que os neutrófilos desempenham um papel massivo e ativo no reparo bem-sucedido de uma medula espinhal. Eles não estão lá apenas para limpar detritos; eles agem como maestros que dizem a outras células imunes para retornar a um ritmo harmonioso. Sem eles, o sistema imunológico trava em um ciclo destrutivo e impede a cura. Ao usar a molécula IL-4, os neutrófilos suavizam a inflamação, permitindo que as delicadas fibras nervosas cresçam através da zona de lesão."
Quais são os próximos passos da pesquisa científica?
Os pesquisadores concentram esforços para entender se o mesmo mecanismo imunológico pode ser traduzido com segurança para terapias aplicadas em pacientes humanos. O objetivo central é modular a resposta inflamatória sem anular as defesas essenciais do organismo.
O pesquisador Xiaobo Tian explica o foco das próximas etapas:
"Claro, a questão é até que ponto nossos resultados se aplicam aos humanos. Resta saber se a IL-4 desempenha um papel semelhante em humanos e se ela pode equilibrar finamente a inflamação, permitindo uma melhor cicatrização no local da lesão. É definitivamente um caminho muito promissor para futuros estudos em humanos."
A investigação foi desenvolvida pelo Centro de Terapias Regenerativas de Dresden (CRTD) na Universidade Técnica de Dresden (TU Dresden), em parceria com o Cluster de Excelência Physics of Life e o Centre for Discovery Brain Sciences da Universidade de Edimburgo, com apoio do Chinese Scholarship Council e da Fundação Alexander-von-Humboldt.